01/05/2010
feira da ladra
Um dia desta semana, terça acho eu, fui à feira da ladra com a minha filha para fazer uma reportagem fotográfica, estas são algumas das preciosidades que lá encontrámos, e não falo só das coisas.
fotografias: Mafalda Paiva
Além de mais uma multa, que espero o grande papa com a ajuda da nossa senhora me possam perdoar, trouxe um cheiro irresistível nas narinas.
28/04/2010
até ao fim
Chamas, dá-me as chamas.
Nesta loucura que é pouco mais que a certeza da inconsequência, só um bocado, um pedaço, uma terra, um país, um continente, um mundo, o universo, um tanto que é só isto, nós e a nossa eternidade ilusória, sem palavra, sem expressão, sem conjecturas, sem falácias, sem engano, sem política, apenas nós até ao fim.
E as chamas onde estão?
27/04/2010
cromos
Cromo
andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem
o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel
enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar
o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar
Al Berto
prozac
Em quase todas as sociedades ocidentais, dois terços ou mais das pessoas dizem que são «felizes». Eis a felicidade como «estado de espírito declarado», isto é, como auto-ilusão. Quando uma pessoa anuncia que é «feliz», há um contentamento narcísico nesse anúncio, mesmo que o facto seja manifestamente falso. Conheço gente com vidas miseráveis que repete bem alto que é «feliz». E também conheço, em muitos casos, a medicação que eles e elas tomam para que a sua «felicidade» brilhe. As pessoas que se dizem «felizes» estão interessadas em obter o estatuto de «felizes», em serem reconhecidas pelos outros como pessoas felizes, mesmo que isso seja um logro. Dizem que são felizes como alguém diz que comprou um objecto que está à venda. Esperam que esse objecto as torne mais completas.
Pedro Mexia
aqui: http://a-leiseca.blogspot.com/2010/04/um-objecto.html
Também sou feliz.
Onde é que deixei a cabeça?
Não, não é cansaço
Não, não é cansaço...
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...
Álvaro de Campos
26/04/2010
paz
Conta-me histórias de amor e de glória, com palácios e jardins de jasmim e princesas e unicórnios que me levem deste estado errático e transformem esta canção na espiral que me vai domar.
Talvez assim encontre a paz.
22/04/2010
verão
De todas as maneiras
Que há de amar
Nós já nos amamos
Com todas as palavras feitas pra sangrar
Já nos cortamos
Agora já passa da hora
Tá lindo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão
Chico Buarque
um soneto
Diz-me o vento que faz lá fora
que a calma que aparenta é engano
por mais que finja a toda a hora
a ninguém mente sempre ufano
e a poeira que leva faz dano
mágoa seca que não se vai embora
mas na melhor nódoa cai o pano
onde se veste e sopra agora.
Noutra tentação vejo-te frio
em outra ainda sinto-te quente
noutra, talvez contente
e assim fazes-me um arrepio
de contrastes e de vontade
vento que és e também liberdade.
J. Paiva
21/04/2010
213253
Ofereceram-me o Kit de sócio do SLBenfica, foi-me atribuído o número 213253. Querem ver que o homem ainda chega mesmo aos 300000.
campeonatos
O campeonato aproxima-se do fim, só espero que o Benfica seja campeão no Porto com um penalty daqueles em que o Di Maria depois de fazer um túnel a um adversário tropeça no vento e cai, depois o Cardozo manda um tiro a 150 Km/h em que a bola bate nos dois postes, na trave e ressalte para fora da grande área, aparecerá então o Luisão que fará um carrinho levando tudo à frente empurrando a bola para a área novamente onde, atarantado, o Weldon mete a mão na bola que ressalta no árbitro bate nas costas do guarda-redes e entra.
Depois, naturalmente, milhares de benfiquistas sairão à rua um pouco por todo o País, incluindo a bela cidade do Douro.
20/04/2010
os mornos
Léautaud escreveu que o afecto é o amor dos mornos. E a Bíblia diz que Deus vomita os mornos. aqui http://a-leiseca.blogspot.com/
Eu gosto destas frases mas depois fico sempre a pensar, o que é o afecto, como se mede o afecto, é um acto ou uma sequência de actos, é uma atitude, é uma opção de vida, é uma festinha na cabeça, é um beijo na face, é um linguado até às entranhas.
Depois o que deus vomita não me interessa para nada.
19/04/2010
fragmento de frio
Porque cegamos
No dia que sai connosco,
E porque vimos o nosso hálito
Embaciar
O espelho do ar,
A nada se abrirá
O olho do ar
Senão à palavra
Que renunciamos: o inverno
Terá sido um espaço
De maturidade.
Nós que nos tornamos nos mortos
De outra vida que não a nossa.
Paul Auster
17/04/2010
efeito de estufa
Mas que raio de mundo é este onde por causa de um vulcão que resolveu deitar umas poeiras para o ar fica tudo a queixar-se. São os Srs. Presidentes e afins que não podem viajar, são os turistas amontoados em aeroportos que não vão mas também não chegam mais, são os produtos frescos que se estragam e até são as flores que fenecem, ainda por cima na época dos casamentos vejam só.
O mundo realmente anda um pouco para o agitado, antologia do esquecimento: 2012 mas porra que isto não é nada. Então e se fossem 3 vulcões ao mesmo tempo. Somos mesmo umas florzinhas de estufa com mais efeito ou menos.
E que tal mais uma imperial e fiquem para mais uma dança ou então ponham os pés a caminho, sempre emagrecem.
é assim
É só a vida, é só um bocado, um bocadinho assim bem inho, um instante como o sol do meio-dia que passa e deixa um travo de água fresca na garganta.
desejos
Como corpos belos de mortos que não envelheceram
e estão fechados, com lágrimas, em esplêndida tumba grandiosa,
com rosas na cabeça e nos pés jasmim -
desse modo parecem os desejos que desapareceram
sem serem cumpridos; sem nenhum deles ser dignado assim
com uma noite do prazer, ou amanhã dele luminosa.
Konstandinos Kavafis
um soneto
Deste fado a um tempo descompensado
Na agonia de voltas e tormentos
Neste vislumbre de combate e sofrimento
Conta-se o perdido e o achado
E num vago espaço de entendimento
Encontra-se o compasso passado
Na voracidade de um minuto chegado
Resta a memória e o pensamento
E se na ventura se achou o engano
e se na acção prevaleceu a liberdade
e se na batalha se venceu uma guerra
Volta fado a três tempos humano
que a agonia também é vontade
passado, presente e futuro que encerra.
José Paiva
16/04/2010
midletown
Sobes no elevador elevando o corpo mas não os sonhos. Na subida conheces uma pequena mulher Japonesa, saia curta, óculos redondos, sorriso genuinamente feliz, onde procuras numa espécie de inglês a receita da felicidade. Chegas ao cimo sais, despedes-te e ela sorri novamente, atrás as portas fecham-se encerrando com elas uma percepção de felicidade.
No cimo do Empire State Building olhando a imensidão da cidade.
BRUNO
Já viste a imensidão?
JACK
Sim, visto cá de cima parece-me tudo bastante sereno.
BRUNO
Sereno?
JACK
Sim. Tão imenso que as casas não passam de casulos, os carros as asas e as pessoas pequenos insectos.
BRUNO
O quê?
JACK
Então não vês? Visto daqui até os carros são quase todos amarelos. Quais abelhinhas para cá e para lá e também alguns zangões pretos. Não vês?
Uma mancha amarela vivo confunde-te, não são raios de sol mas indianos, paquistaneses, turcos, mexicanos, colombianos e sei lá que mais, conduzidos pelos táxis amarelo vivo. Bela cor esta que te tira um esgar de sorriso, que perdes rapidamente na mediania indiferente que figuras.
BRUNO (ri-se)
És louco. (riem-se os dois)
JACK (sarcástico)
Ovelhas de poderes fictícios, olha ali vai uma negra. Mascaramos a nossa animalidade nesta azáfama.
BRUNO (ainda a rir)
E tu és o quê? E nós os dois somos o quê?
JACK
Animais racionais, julgamo-nos inteligentes e não sabemos apreciar a natureza, a única coisa real que temos. Queremos o quê, segurança?
BRUNO
Sim, porquê não?
JACK
Olha, porque estamos aqui tão seguros da nossa pseudo-segurança cai um calhau na terra e acabou. Finito. (sorri)
BRUNO
Um calhau? Essa é boa mas não é novidade, já caíram vários e voltarão a cair, mas entretanto achas que devemos ficar a olhar para o céu à espera do calhau não?
JACK
I not my dear, I not.
BRUNO (sério)
Porque não podemos ser só uma massa desconfiada de nós mesmos, devorada por uma razão demasiado consciente. Não disseste que éramos animais, então sejamos animais em toda a nossa bestialidade, comendo, bebendo, mas também rindo, chorando.
JACK (interrompe alegre)
Fodendo parece-me bem. Onde vamos logo à noite?
BRUNO (ri-se)
Tu!
Voltas ao passeio sem calçada, na apatia és mais um entre muitos, mas sabes que do alto do Empire State Building não foste mais que uma Midletown de ti próprio.
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