10/05/2010
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Este título que o SLB acabou de ganhar soube a pouco para uma época em que o futebol praticado merecia também a conquista da Liga Europa. Este Benfica foi impressionante, até na forma como, nesta última jornada, soube dar uns minutos de esperança a uns quantos portugueses, não só para a conquista do título como da bola de prata. Se o título é inquestionável, já a bola de prata assentaria bem a Falcão, excelente jogador, não fosse o sadismo de Cardozo em marcar o golo final com o pé direito.
06/05/2010
we don’t care about music anyway
Realizado por Cédric Dupire e Gaspard Kuentz, este filme documentário, foi, no mínimo, desconcertante. Dizer que este conjunto de artistas, músicos e performers japoneses que o filme dá a conhecer são bizarros e estranhos, seria injusto e, até, descontextualizar não só o trabalho que realizam mas, sobretudo, a vertente social, cultural e humana que rodeia esse trabalho.
Numa sociedade altamente conformista e mecanizada, numa cidade onde milhões de pessoas têm acesso a tudo mas em que esse tudo é tão previsível, tão plástico, tão vazio de significado e, ao mesmo tempo, tão feio, tão sujo, tão barulhento, o ruído, muitas vezes ultrapassando os limites do suportável, torna-se uma catarse para estes artistas. Tudo serve para fazer esta espécie de música que mais será um furacão de sons, desde microfones de contacto junto do coração e de outras partes do corpo, até guitarras tocadas em amplificadores com a distorção e o volume no máximo, acompanhados de gritos ensurdecedores. Chamar vanguarda ou qualquer outro nome à ruidosa electrónica de Numb, ao turntablism de Otomo Yoshihide, aos batimentos cardíacos de Yamakawa Fuyuki, pode ser uma forma de rotular o trabalho destes artistas mas, como qualquer rótulo,torna-se redutor.
Os realizadores fazem um trabalho extraordinário de contextualização, as imagens tornam-se um forte suporte que dinamiza todo o filme, com sequências quase perfeitas entre a trama sonora e a vivência de uma cidade assustadoramente grande, aparentemente ordenada, mas, também, feita de sujidade, lixo e ruínas, que muitas vezes nos escapa de um olhar mais atento na rapidez com que desejamos viver hoje em dia.
Como ironia, no fim e depois de suportar mais de uma hora de ruídos infernais, surge uma peça pelo violoncelo de Sakamoto Hiromichi com uma melodia quase hipnótica e que me deixou completamente arrepiado.
O Sakamoto Hiromichi é o que toca o serrote, pena não encontrar a música final do filme.
05/05/2010
benjamim
Calmamente dentro do carro estacionado na estrada de Benfica, enquanto esperava que acabasse o treino do meu puto, relia o Na Colónia Penal do Kafka, quando reparei num pombo que andava só à bicada aos outros que se aproximavam, devido à Primavera ainda pensei que fosse algum ritual de acasalamento tipo toma lá uma biqueirada e agora amoxa que vamos fazer pombinhos, mas passado uns minutos lá percebi que o cabrão do pombo, que era grande, não queria era deixar os outros tocarem num generoso pedaço de pão que ia bicando quando não bicava nas penas dos outros desgraçados, isto tudo na parte literária em que a máquina se descontrola e também começa a bicar o oficial por tudo quanto é lado, aquilo confundiu-se tudo na minha cabeça e subiu-me uma vontade de agarrar no pescoço daquele pombo e torcer assim só um bocadinho até partir e dizer-lhe, Ó Van Zeller dum cabrão e se deixasses os outros comer um bocadinho também, mas depois reflecti e cheguei à conclusão que o melhor era mesmo ir ver o treino e, quem sabe, tirar umas férias naquele hotel do Miguel Bombarda.
É que nem todos os pombos se chamam Benjamim. http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/search/label/A%20Cidade%20a%20Tossir
sem lei mas com muita ordem
Entre estes dois textos, tirados daqui http://abrupto.blogspot.com/
Há dias vinha de carro na A1 por volta de Leiria quando o para-brisas foi atingido por aquilo que pensei ser areia ou pequenas pedras, projectadas pelo autocarro laranja de dois pisos que ia à minha frente. Mas logo percebi que era outra coisa: uma garrafa de vidro tinha sido atirada do autocarro para um carro que o estava a ultrapassar e os estilhaços tinham atingido o meu. Verifiquei então que qualquer carro que tentava ultrapassar o autocarro era bombardeado com garrafas de cerveja, latas e outros objectos, tudo isto a velocidades de autoestrada, mais ou menos à volta de 120 quilómetros hora. Vários carros ziguezaguearam na estrada e quase atingiram o separador, o que significaria um acidente muito grave, com muito possível invasão da faixa contrária. Telefonei de imediato à GNR, identificando o autocarro com a matrícula, em que área da autoestrada isto estava acontecer e insistindo no perigo em que todos estavam. Informei também que vira um carro da polícia na área de serviço imediatamente atrás e que não seria difícil interceptar o autocarro. Depois mantive-me atrás e pude assistir impotente a vários carros atingidos por garrafas e latas, um deles que só por milímetros não perdeu o controlo. Passado algum tempo vi o autocarro estacionar numa zona de repouso existente, que não faz parte de nenhuma área de serviço. A polícia estava à entrada e vários carros atingidos tinham parado a protestar com o que se estava a passar, perante a pasividade policial que estava mais preocupada em que os carros que pararam voltassem à autoestrada do que em dirigir-se ao autocarro que, entretanto, tinha parado mais à frente, na maior das normalidades. Parei e falei com os agentes da GNR e com o graduado e fiquei surpreendido pela indiferença geral que mostravam, como se fosse a coisa mais habitual do mundo. Disse-lhes que tinha testemunhado o que se passara e que estaria disposto a fazer queixa, embora os danos tivessem sido pequenos. Mais indiferença, como se nada se passasse. Resolvi seguir em frente mas, em vez de sair de imediato para a autoestrada passei junto do autocarro de onde dezenas de pessoas tinham saído. Sem haver um único agente perto e como se a paragem fosse normal e logo a seguir partissem de novo, o que muito provavelmente foi o que aconteceu. Apercebi-me então que se tratava de uma claque de futebol. Vários dias passados não vi nenhuma notícia sobre o que se passou, e todos me dizem que é comum acontecerem coisas deste tipo na mais total impunidade. Um dia morre alguém e quero ver as explicações que nos vão ser dadas.
... tem gerado em vários países, Portugal é um deles, um surto de imbecilidade considerável. À falta de anticlericalismo popular, há agora uma nova forma de anticlericalismo intelectual de parte da esquerda « fracturante ». Enquanto não houver um Papa que seja mulher, lésbica, negra, de preferência não crente, e que vote nos EUA no Obama, os Papas, em particular este, são alvos preferenciais. E este acirra os ânimos de forma muito especial porque é branco, alemão, conservador, teólogo, e conhece bem demais a impregnação da doutrina cristã pelas variantes na moda desde os anos sessenta de « progressismo » esquerdizante. A absurda intolerância dos « fracturantes » exerce-se então em toda a sua amplitude.
e este tirado daqui http://lishbuna.blogspot.com/2010/05/mas-e-que-isto-nao-ha-meio-de-me-entrar.html
"Por terra, pelo mar ou pelo ar. De 11 a 14 de Maio, ande por onde andar, o Papa Bento XVI não dará um só passo em que não tenha milhares de olhos a vigiá-lo. Milhares de armas, de todas as forças de segurança do país e até das Forças Armadas, estarão prontas a proteger aquele que é considerado um dos maiores símbolos mundiais da paz. (...) A julgar pelos meios operacionais envolvidos pela PSP (a força policial mais representada), admite-se que o total de pessoas arregimentadas possa rondar as 8.000. (...) Nas ruas por onde passar o Papa não serão permitidos carros estacionados, estando prestes a iniciar-se a distribuição de panfletos anunciando à população que serão autuados todos os veículos que não forem retirados no prazo previsto".
Existe algo que me escapa, mas ainda não sei bem o que é.
01/05/2010
feira da ladra
Um dia desta semana, terça acho eu, fui à feira da ladra com a minha filha para fazer uma reportagem fotográfica, estas são algumas das preciosidades que lá encontrámos, e não falo só das coisas.
fotografias: Mafalda Paiva
Além de mais uma multa, que espero o grande papa com a ajuda da nossa senhora me possam perdoar, trouxe um cheiro irresistível nas narinas.
28/04/2010
até ao fim
Chamas, dá-me as chamas.
Nesta loucura que é pouco mais que a certeza da inconsequência, só um bocado, um pedaço, uma terra, um país, um continente, um mundo, o universo, um tanto que é só isto, nós e a nossa eternidade ilusória, sem palavra, sem expressão, sem conjecturas, sem falácias, sem engano, sem política, apenas nós até ao fim.
E as chamas onde estão?
27/04/2010
cromos
Cromo
andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem
o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel
enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar
o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar
Al Berto
prozac
Em quase todas as sociedades ocidentais, dois terços ou mais das pessoas dizem que são «felizes». Eis a felicidade como «estado de espírito declarado», isto é, como auto-ilusão. Quando uma pessoa anuncia que é «feliz», há um contentamento narcísico nesse anúncio, mesmo que o facto seja manifestamente falso. Conheço gente com vidas miseráveis que repete bem alto que é «feliz». E também conheço, em muitos casos, a medicação que eles e elas tomam para que a sua «felicidade» brilhe. As pessoas que se dizem «felizes» estão interessadas em obter o estatuto de «felizes», em serem reconhecidas pelos outros como pessoas felizes, mesmo que isso seja um logro. Dizem que são felizes como alguém diz que comprou um objecto que está à venda. Esperam que esse objecto as torne mais completas.
Pedro Mexia
aqui: http://a-leiseca.blogspot.com/2010/04/um-objecto.html
Também sou feliz.
Onde é que deixei a cabeça?
Não, não é cansaço
Não, não é cansaço...
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...
Álvaro de Campos
26/04/2010
paz
Conta-me histórias de amor e de glória, com palácios e jardins de jasmim e princesas e unicórnios que me levem deste estado errático e transformem esta canção na espiral que me vai domar.
Talvez assim encontre a paz.
22/04/2010
verão
De todas as maneiras
Que há de amar
Nós já nos amamos
Com todas as palavras feitas pra sangrar
Já nos cortamos
Agora já passa da hora
Tá lindo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão
Chico Buarque
um soneto
Diz-me o vento que faz lá fora
que a calma que aparenta é engano
por mais que finja a toda a hora
a ninguém mente sempre ufano
e a poeira que leva faz dano
mágoa seca que não se vai embora
mas na melhor nódoa cai o pano
onde se veste e sopra agora.
Noutra tentação vejo-te frio
em outra ainda sinto-te quente
noutra, talvez contente
e assim fazes-me um arrepio
de contrastes e de vontade
vento que és e também liberdade.
J. Paiva
21/04/2010
213253
Ofereceram-me o Kit de sócio do SLBenfica, foi-me atribuído o número 213253. Querem ver que o homem ainda chega mesmo aos 300000.
campeonatos
O campeonato aproxima-se do fim, só espero que o Benfica seja campeão no Porto com um penalty daqueles em que o Di Maria depois de fazer um túnel a um adversário tropeça no vento e cai, depois o Cardozo manda um tiro a 150 Km/h em que a bola bate nos dois postes, na trave e ressalte para fora da grande área, aparecerá então o Luisão que fará um carrinho levando tudo à frente empurrando a bola para a área novamente onde, atarantado, o Weldon mete a mão na bola que ressalta no árbitro bate nas costas do guarda-redes e entra.
Depois, naturalmente, milhares de benfiquistas sairão à rua um pouco por todo o País, incluindo a bela cidade do Douro.
20/04/2010
os mornos
Léautaud escreveu que o afecto é o amor dos mornos. E a Bíblia diz que Deus vomita os mornos. aqui http://a-leiseca.blogspot.com/
Eu gosto destas frases mas depois fico sempre a pensar, o que é o afecto, como se mede o afecto, é um acto ou uma sequência de actos, é uma atitude, é uma opção de vida, é uma festinha na cabeça, é um beijo na face, é um linguado até às entranhas.
Depois o que deus vomita não me interessa para nada.
19/04/2010
fragmento de frio
Porque cegamos
No dia que sai connosco,
E porque vimos o nosso hálito
Embaciar
O espelho do ar,
A nada se abrirá
O olho do ar
Senão à palavra
Que renunciamos: o inverno
Terá sido um espaço
De maturidade.
Nós que nos tornamos nos mortos
De outra vida que não a nossa.
Paul Auster
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