25/06/2010
melgas
Existem pessoas que admiro, mas depois não percebo coisas como esta http://daliteratura.blogspot.com/2010/06/isto-vai-la.html
Parece aquelas telenovelas mexicanas mal dobradas.
24/06/2010
o castelo
Nos últimos meses, a falta de dinheiro para comprar e de pessoas para me emprestarem livros obrigam-me a reler autores, Boris Vian, Tennessee Williams, Kafka, Milan Kundera, que fui lendo entre a adolescência e os vinte anos. Limpo o pó, as palavras surgem-me agora muito mais nítidas do que há vinte e tal anos atrás.
Há males que vêm por bem, infelizmente não encontro "O Castelo" do Kafka o livro que mais prazer me deu a ler, até hoje.
22/06/2010
movimento circular
No teu reflexo procuro esse gesto tornado imortal, um movimento circular projectado para lá do tempo, para lá da memória, para lá do horizonte longínquo que tento vislumbrar. Na distância voa o pensamento, pacienta a esfinge, que se solta da alma e parte. Esperar é a virtude da negação animal que outrora fomos.
a um deus risível
Será que esta gente das Igrejas, lideres e seguidores, não percebe que um ateu se está nas tintas para infernos, purgatórios e, ainda mais nas tintas, para estas purgazinhas terrenas.
dor
Penso, logo existo é uma frase de intelectual que subestima as dores de dentes. Sinto, logo existo é uma verdade de alcance muito mais geral e que se aplica a todo o ser vivo. O meu eu não se distingue essencialmente dos vossos pelo pensamento. Muitas pessoas, poucas ideias: pensamos todos pouco mais ou menos a mesma coisa, transmitindo, tomando de empréstimo, roubando as nossas ideias uns dos outros. Mas se alguém me pisa um pé, sou só eu quem sente a dor. O fundamento do eu não é o pensamento mas a dor, o mais elementar de todos os sentimentos. Na dor, nem sequer um gato pode duvidar do seu eu único e não permutável. Quando a dor se torna aguda, o mundo desvanece-se e cada um de nós fica a sós consigo mesmo.
Milan Kundera in "A Imortalidade"
e o Carnaval?
Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro.
José Saramago “Cada vez mais sós”, in Deste Mundo e do Outro, Ed. Caminho, 7.ª ed., p. 216
17/06/2010
o Zé Maria de Setúbal
Alguém me explica porque é que o Paulo Ferreira foi de Setúbal para o Porto, do Porto para Londres (por muita massa), se mantenha por lá tanto tempo e ainda seja constantemente jogador da Selecção que é a Portuguesa.
Este jogador faz-me lembrar o Melhoral que não faz bem nem mal, ou como diz o meu velhote "esta selecção era o Paulo Ferreira na praia, o Deco numa SPA a recuperar de uma lipoaspiração àquele cu, o Danny a treinar para a Volta a Portugal, o Simão a fazer uma reciclagem rápida a ver como jogava no Benfica e o Carlos Queiroz a treinar os sub14 de qualquer coisa."
explosões
Lembrei-me de tudo isto no dia em que Portugal esteve suspenso da explosão do CR7. Para nada.
Eduardo Pitta aqui: http://daliteratura.blogspot.com/2010/06/o-pais-das-vuvuzelas.html
O Ronaldo explodiu, os outros é que resolveram implodir e jogar sozinho nem o Eusébio.
16/06/2010
vuvuzelando
Agora gostava de ver o discurso dominante da força da técnica e da técnica da força, dos múltiplos e enfadonhos comentaristas/especialistas/analistas/professores/profetas e sei lá mais o quê, explicarem como é que a selecção que, de longe, melhor e mais bonito futebol jogou perdeu?
Eles entraram pela direita, pela esquerda, pelo centro, remataram dentro da área, fora da área, com os pés, com a cabeça e, por vezes até com outras partes do corpo, mas perderam. he viva la espana
Os mais espertos irão dizer "é futebol", pois é pá, mas V. Exas. é que parece que falam de uma ciência exacta, eu cá apressava a união ibérica e punha o Ronaldo mais o Coentrão a jogar na selecção espanhola e aí é que era tudo nosso, aliás deles, ou melhor, de nosotros.
Entretanto, a saloice portuguesa continua espalhada por esse mundo fora, espalhando a boa nova de um fado tão triste quanto estes novos tempos em que temos de viver.
Vai mais uma sopradela na vuvuzela.
And the Band Played Waltzing Matilda
When I was a young man I carried my pack
And I lived the free life of a rover
agora sinto-me alegre e inspirado
Agora sinto-me alegre e inspirado em chão clássico;
Mundo de outrora e de hoje mais alto e atraente me fala.
Aqui sigo eu o conselho, folheio as obras dos velhos
Com mão diligente, cada dia com novo prazer.
Mas, noites fora, Amor me mantém noutra ocupação;
Se apenas meio me instruo, dobrada é minha ventura.
E acaso não é instruir-me, quando as formas dos seios
Adoráveis espio e a mão pelas ancas passeio?
Compreendo então bem o mármore; penso e comparo,
Vejo com olhar tacteante, tacteio com mão que vê.
E se a Amada me rouba algumas horas do dia,
Em recompensa me dá as horas todas da noite.
Nem sempre beijos trocamos; falamos sensatos;
Se o sono a assalta, fico eu deitado a pensar muitas coisas.
Vezes sem conto eu tenho também poetado em seus braços
E baixo contado, com mão dedilhante, a medida hexamétrica
No seu dorso. Em sono adorável respira,
E o seu hálito o peito me acende até à raiz.
O Amor atiça a candeia entretanto e pensa nos tempos
Em que aos Triúnviros seus o mesmo serviço prestava.
Johann Wolfgang von Goethe, in "Elegias Romanas"
a espessura da felicidade
Viver com o coração na boca e a razão no peito a doer,
desatino inquieto que sou.
Nisto,
faço coisas e gosto das coisas que faço,
não pela importância,
amanhã cai um calhau na terra e lá se vão as importâncias,
tantas,
mas,
enquanto por cá se vai andando,
não ficarei com a cabeça entre as orelhas a olhar o céu à espera do calhau.
Aqui,
donde sou e onde vivo,
é o que sinto,
cada vez mais sou a espreitar por entre as nuvens à espera do nada,
cada vez mais vivo a espreitar por entre as nuvens à espera de tudo,
e,
apesar do que me prende e como para nada já chega o pouco que sou,
apetece-me partir.
As pessoas costumam dizer que querem ser felizes,
outros dizem mesmo que são felizes,
mas a felicidade não se anuncia ou deseja,
a felicidade cumpre-se.
E se é ridículo dizer que se é feliz,
também nunca vi ninguém dizer que quer ser infeliz.
Mas a questão nem é essa,
este eu que figuro quer lá saber de ser feliz.
Agora tentar seria bom.
09/06/2010
Canto dos Espíritos sobre as Águas
A alma do homem
É como a água:
Do céu vem,
Ao céu sobe,
E de novo tem
Que descer à terra,
Em mudança eterna.
Corre do alto
Rochedo a pino
O veio puro,
Então em belo
Pó de ondas de névoa
Desce à rocha liza,
E acolhido de manso
Vai, tudo velando,
Em baixo murmúrio,
Lá para as profundas.
Erguem-se penhascos
De encontro à queda,
— Vai, 'spúmando em raiva,
Degrau em degrau
Para o abismo.
No leito baixo
Desliza ao longo do vale relvado,
E no lago manso
Pascem seu rosto
Os astros todos.
Vento é da vaga
O belo amante;
Vento mistura do fundo ao cimo
Ondas 'spumantes.
Alma do Homem,
És bem como a água!
Destino do homem,
És bem como o vento!
Johann Wolfgang von Goethe, in "Poemas"
dust in the sun
Preciso do deserto, onde o abismo se suceda em dunas suaves e na planície encontre a sombra e na sombra encontre o vento e com o vento venha o silêncio.
Água fresca que me alimenta.
imortalidade risível
Os prestidigitadores gostam de manipular chapéus. Fazem desaparecer dentro deles objectos, ou tiram de dentro deles pombas que voam para o tecto. Bettina tirou do chapéu de Goethe os feios pássaros do seu servilismo; e dentro do chapéu de Beethoven (por certo que sem querer) fez desaparecer toda a sua música. Reservou a Goethe a sorte de Tycho Brahé e de Carter: uma imortalidade risível. Mas a imortalidade risível espreita-nos a todos; para Ravel, Beethoven seguindo em frente com o chapéu enterrado até às sobrancelhas era muito mais risível do que Goethe, inclinando-se profundamente.
Por conseguinte, ainda que seja possível compor-se a imortalidade, modelá-la de antemão, manipulá-la (lembremo-nos das três rosas de Miterrand!), ela nunca se realizará tal como foi planeada. O chapéu de Beethoven tornou-se imortal. Desse ponto de vista, o plano teve êxito. Mas o sentido que o imortal chapéu viria a assumir, isso ninguém podia prevê-lo.
Milan Kundera, in "A Imortalidade".
08/06/2010
mordendo a própria língua
A filosofia salvou-me a vida. A verdade é que não sou homem a quem a sorte tenha bafejado. Se uns nasceram com o cu voltado para a lua, e outros com o rei na barriga, eu nasci com o cu voltado para a crosta terrestre e pedras nos intestinos. Vivo entre dois pólos, é certo, pelo que me considero metade urso, metade pinguim. Mas a filosofia salvou-me a vida, ajudou-me a olhar o mundo com outras perspectivas, ajudou-me a fintar o azar, ou a má-sorte, se é que me faço entender. Noto isso nas coisas práticas da vida. É um facto que não tenho sorte alguma, mas também não deixa de ser um facto que, não tendo sorte alguma, aprendi a driblar a sorte com a filosofia.
Texto integral aqui http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2010/06/erros-meus-ma-fortuna-ilusao-ardente.html
Quando alguns músicos contam histórias mirabolantes sobre como conseguiram atingir o sucesso, ou fama, ou o que quiserem chamar, a minha realidade misturada com o meu sentido prático desconfia. Falando só de portugueses, lembro-me de um que diz que estava a tocar na praia para os amigos, passou um gajo de uma editora e tumba, contrato feito. Lembro-me de outro que vendeu um piano para gravar um disco e catrapumba, milhares de exemplares do mesmo vendidos. Ainda me lembro de outro que acho que é o mesmo, que fez uns dedos do meio ao Cavaco num concerto na Costa de Caparica e a seguir pum pum cada bala mata um, a ponte parou com tiros e tudo, resultado, mais uns milhares de discos vendidos. Outro, este mais perto de mim, conta a história do desgraçadinho, que o pai lhe partiu a primeira guitarra, que as dificuldades eram assim e mais assado, mas que ele pontapeou sempre esse estigma com uma grande dedicação e uma vontade ainda maior (oh que caralho a puta da vontade) e superou tudo e todos, a tal ponto que todos foram fugindo dele e ele fugindo de quem deve dinheiro, apesar de não lhe faltar.
Eu também já contei algumas histórias da carochinha, já toquei na praia, bem como noutros locais públicos, nunca tive um piano para vender mas já troquei cromos valiosos, a vontade, essa grande puta, ainda não me faltou, também devo dinheiro, mas só às finanças que os outros não têm culpa da minha falta de sorte. Com tudo isto e mais algumas, o sucesso não quer nada comigo, ver se vou à TV, espantalho-me pelo chão e parto alguns dentes mais uma fractura exposta da tíbio-társica para ver se tenho sorte.
É verdade, há sempre aquela coisa do talento, mas por aí os caminhos ainda me parecem mais estranhos e os karmas mais bizarros.
O que é que me resta fazer?
os rostos da nossa miséria
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