12/08/2010

vales mortos

A propósito deste texto http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2010/08/conversa.html, e regressado agora de um Alentejo ainda mais profundo, sem mar mas com um Guadiana cada vez melhor, um céu estrelado e Marte a nascer-me à direita de onde me sentava a olhar para o norte até às tantas e, também, a conversar com o ti'Joaquim, homem de 85 anos que raramente saiu do monte onde vive, nunca teve instrução que não aquela que a natureza lhe foi dando e que mantinha uma conversa tão natural como o lugar onde estávamos, que quando íamos em grupo até ao café da povoação mais perto, parava naturalmente para fazer chichi ou, também naturalmente, dava uns traques ignorando quem quer que estivesse ao pé. Numa das nossas conversas, enquanto olhávamos as estrelas, diz convicto naquela pronúncia arrastada que isto do mundo é que está uma coisa bem feita, respondi provocando, há quem diga que foi Deus, ignorou-me e bem, prosseguiu, até dizem que há mais terra encoberta por mar do que descoberta. Assim fomos conversando, noite após noite, e eu sempre a aprender.

04/08/2010

I Can Be A Frog

ao tonan

Xupa portugalês e sai do chão, arrasa montanhas e dobra o colchão, esta bardamerda é só uma ilusão feita do cio vadio de um cão. Dobra cabrão dobra, inquina a certeza dessa ilusão, os lençóis são uma cobra tu o cio vadio de um cão. E se a punheta também é foda e a surpresa sempre à mão cinco dedos sempre à roda agarrados a qualquer situação, estas palavras são a demora de um estilo sem razão. Xupa portugalês e xupa outra vez, mas cospe o esperma para o chão não vá sujar-se o colchão. E depois de uns copos de xerez, não penses que isto é uma ilusão de quem perdeu a razão ou de quem não sabe o que fez, porque a punheta também é gente que a muitos deixa contente, e se por acaso perderes a noção, lembra-te que a necessidade é premente e o sangue vem do coração, bomba frenética e quente como a lava de um vulcão. Dobra-te cabrão dobra e mancha o lençol, desfaz-te nesse colchão, enrola-te como um caracol. Nessa certeza sempre à mão és o vicio vadio com o cio de um cão.

31/07/2010

ao zé toino

E o tempo age, solta as amarras e leva tudo, o que foi, o que é e o que será. E a noite leva a luz, e o vento leva o pó, e o pó leva histórias, e as histórias espalham-se, e o mar leva os grãos, e os grãos desfazem-se, e o tempo leva tudo. E o tempo age, e os poetas inventam, e as palavras são vazias. Porque o céu é apenas o céu, o mar apenas o mar e a terra apenas a terra, porque uma palavra é, tão só, uma palavra, e por muito que queira ser uma árvore, não sou, por muito que quisesse ser um rio, não sou, por muito que gostasse de ser a lua, essa que os lunáticos gostam de enfiar nos poemas, não sou, e o tempo leva tudo, as palavras também. E o tempo age, olá se age, marca-se no corpo, marca-se na alma (o que quer que esta seja) e leva tudo, leva a inocência, leva a pujança, leva a virilidade, leva a saliva que nos faz dizer e mata a sede, e se isto for uma metáfora, que seja boa e a possas embrulhar e oferecer a alguém, e, já agora, leva o sentido que eu não quero, porque o tempo leva tudo. Se me deixar só um bocadinho da tua memória, talvez consiga ser um pouco mais. E o tempo agiu.

07/07/2010

happy birthday

Outro ilustre, este menos, que faz anos hoje.

ao velhote

parabéns

O patrão farto das faltas ao trabalho às segundas-feiras de determinado empregado que gostava muito de beber diz-lhe, Ó homem mais uma segunda que faltou, assim não pode ser. Morreu-me um familiar Sr. Carvalho, responde. Morrem-lhe muitos familiares às segundas-feiras, diz o patrão. Sim Sr. Carvalho é verdade, e tenho cá a impressão que na próxima semana vai morrer outro. Esta estória e, principalmente, o contexto e a forma como é contada define o meu Pai, que faz hoje 70 anos. Agora imaginem 60 anos, começou a trabalhar aos 10, de estórias verídicas como esta, dava um belo conjunto de micróbios, vermes, parasitas, qualquer coisa assim.

02/07/2010

e ignoram meu ofício ou minha arte

Em meu ofício ou arte taciturna Exercido na noite silenciosa Quando somente a lua se enfurece E os amantes jazem no leito Com todas as suas mágoas nos braços, Trabalho junto à luz que canta Não por glória ou pão Nem por pompa ou tráfico de encantos Nos palcos de marfim Mas pelo mínimo salário De seu mais secreto coração. Escrevo estas páginas de espuma Não para o homem orgulhoso Que se afasta da lua enfurecida Nem para os mortos de alta estirpe Com seus salmos e rouxinóis, Mas para os amantes, seus braços Que enlaçam as dores dos séculos, Que não me pagam nem me elogiam E ignoram meu ofício ou minha arte. Dylan Thomas

boa noite

30/06/2010

ainda bem que escrevi logo de manhã

José Mourinho, novo treinador do Real Madrid, assumiu nesta quarta-feira a defesa de Cristiano Ronaldo, afirmando que não se pode tolerar que se atribua a um jogador as responsabilidades pelos resultados de toda uma equipa. "O Cristiano pode ficar tranquilo e desfrutar as férias. Não permitirei na próxima temporada que se faça pesar sobre ele a responsabilidade de toda uma equipa", disse Mourinho à agência Lusa. Enquanto jogador da minha equipa permito-me fazer um comentário que não fiz desde o começo do Mundial: nas minhas equipas, quando ganhamos, ganhamos todos, quando perdemos, a responsabilidade é só minha", acrescentou. "Os grandes jogadores marcam a diferença porque são melhores, mas as equipas são um conjunto", prosseguiu. Sinto-me um autêntico special none, porque estas declarações que li agora vão ao encontro do que penso e escrevi de manhã. Ainda hoje me disseram que iriamos ver como seriam as relações do Ronaldo com o Mourinho. Para já começam bem, mas esta é a diferença entre treinadores que dão camisolas largas para os jogadores jogarem à vontade e os que lhes espetam com camisas de forças e depois ainda dizem que se forem apertadas de mais que fiquem em casa. "Enquanto estiver à frente da selecção, se o tamanho da camisola for pequeno demais para algum corpo, então não precisam de estar aqui", considerou o técnico, numa conferência de imprensa que serviu de rescaldo à campanha portuguesa na África do Sul. Agora vou ali à rua de cima dizer que sou o special none e oferecer-me para treinar os Os Pastilhas, o clube onde ainda joguei com o Figo. http://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_Futebol_Clube_%22Os_Pastilhas%22

respeitinho

Este jornalismo, descrito em baixo, no desporto em geral e no futebol em particular, ganha, como se fosse possível, uma dimensão de avalanche. Que melhor exemplo do que este campeonato do mundo, em que numa fase inicial, a fase do cume, se deu a ideia que seriamos campeões, porque tínhamos o melhor jogador do mundo, porque somos o Brasil da Europa, porque os nossos jogadores são os mais bonitos e têm as unhas arranjadas e tudo, esquecendo-se que fomos apurados para o mundial com uma sorte incrível e que, ao contrário de Felipe Scolari, Carlos Queiroz nunca conseguiu fazer uma verdadeira equipa, que fosse segura e eficaz. Depois vieram as más exibições nos jogos de preparação e a neve começou a derreter, de repente caiu o primeiro bloco, a estória do Nani começou a ter contornos de romance policial com espionagem à mistura, afinal o homem até teve de ser operado, logo a seguir, a péssima exibição com a Costa do Marfim faz cair mais outro bloco de neve, para alguns ainda existiu a desculpa do primeiro jogo e da força da selecção Marfinense, nunca esteve em causa as capacidades dessa selecção mas sim as incapacidades da nossa, vieram os sete a zero à Coreia e, qual João Garcia, já estávamos no pico dos Himalaias outra vez, sem se perceber que essa foi uma vitória sem substância, em que na primeira parte o resultado até podia estar em 1x1, e que o que aconteceu na segunda foi mais fruto do acaso e da desorientação dos outros do que mérito nosso. Com o Brasil foi mais do mesmo, uma selecção apática com a desgraçada da lebre (Ronaldo) no meio dos lobos, mas como foi um jogo com os nossos irmãos brasileiro em que até já estavam as duas selecções apuradas e não perdemos, é claro que podiamos ser campeões do mundo. Até que chega a Espanha, uma verdadeira equipa que até na derrota, fruto dos acasos do futebol, com a Suíça, mostrou um futebol consistente e até apaixonante, naturalmente perdemos. A avalanche ganhou uma velocidade tal, que as normais declarações de Ronaldo fizeram espetar o nacionalismo bacoco, mais as bandeiras cheias de buracos, contra a parede, ainda por cima querem levar o rapaz atrás, como se já não lhe bastasse, fruto da estratégia medrosa de Carlos Queiroz, andar a jogar sozinho contra 4 defesas de metro e oitenta para cima todo o campeonato. Se eu estivesse no lugar dele ainda dizia pior.

jornalismo

A falta de jornalistas séniores, por exemplo. A televisão portuguesa, no seu conjunto (mais aplicadamente na RTP, o que é estranho — e muito menos na SIC), abdicou da presença de jornalistas séniores. Na CNN, Sky, CBS, etc., entregam-se os momentos «mais solenes» ou apenas «mais importantes» a jornalistas seniores. Pessoas que já leram, que não embarcam na primeira histeria, que relembram uma história relacionada (coisa só possível com memória, cultura e, até, experiência), que são capazes de traçar a biografia de um entrevistado em quinze segundos sem destruir a oportunidade (por exemplo: no funeral de Saramago, reduzir Guilherme Oliveira Martins a presidente do Tribunal de Contas), que não reduzem o material de apoio a dois prints mais recentes da internet (já leram, pois), que não caem na primeira treta que alguém deixa cair perto do microfone, que têm a noção da maneira como se deve fazer uma pergunta sem ofender o senso-comum (a jornalista aproxima-se de um táxi à hora do jogo Portugal-Brasil e quer saber por que razão está ele ali a ouvir o relato pela rádio, e não diante da televisão: «Porque está aqui e não foi ver o jogo? Está a trabalhar, é?»). Aqui: http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/1198273.html O fascínio que tinha pelo jornalismo acabou quando, em Julho de 1993, um jornalista da então recente SIC, perguntou a um dos pais de uma criança falecida nas piscinas do aquaparque o que sentia naquele momento. O corpo da criança tinha acabado de ser encontrado. Depois disto só podia ser a descer e a descida tem sido vertiginosa.

puxando a brasa ainda mais

Gostava ainda de salientar que a logística para o trabalho da Mafalda foi bastante complicado, porque apesar da mãe viver na zona, o horário de trabalho não lhe permitiu ajudar a filha, a não ser facilitando um ou outro contacto. Depois ainda teve o azar de perder o disco onde tinha todo o trabalho, tendo sido preciso recorrer a um especialista de informática para recuperar as fotos no computador da mãe e voltar a enviar para Portugal. Como se não bastasse, há três semanas, enquanto preparava o texto final, teve uma infecção no umbigo que a obrigou a ser submetida a uma cirurgia e ficar 3 dias no Hospital, mais uns quantos em casa cheia de dores. Mesmo assim, o tal plano B nunca lhe passou pela cabeça. Deixo aqui apenas três fotos do trabalho, quando puder deixo o trabalho todo. Uma mãe Alunos no intervalo Uma sala de aulas Se alguém me explicar, de forma que eu entenda, onde é que a cor faz falta a estas fotos eu agradeço.

29/06/2010

cabeçadas

Ontem, fui com o meu pai e o meu filho ver a apresentação do trabalho final do curso profissional de fotografia da minha filha, equivalente ao 12.º ano. Num auditório com boas condições, aluno após aluno os trabalhos eram apresentados, o júri era constituído por uma repórter fotográfica do jornal Sol, uma representante do sindicato dos jornalistas para a parte escrita, o professor acompanhante do trabalho, a directora de turma, a coordenadora do curso e o director da escola. Até aqui tudo bem, apesar de me parecer exagerado a quantidade de pessoas para analisar trabalhos que, na maior parte dos casos, demoravam 5 minutos a serem apresentados. O que me deixou relativamente espantando e ao meu pai verdadeiramente estupefacto (outra geração, outro profissionalismo, outros hábitos) foi a pseudo-avaliação proferida por aquelas eminências, com excepção para a coordenadora e a representante do sindicato. Os primeiros quatro trabalhos, além de fotograficamente pobres, os respectivos alunos falavam como se estivessem numa amena cavaqueira com o colega do lado, ou seja, eram tipos para aqui e tipos para ali com fartura, depois passavam uma dúzia de fotografias num silêncio confrangedor. O júri elogiava ora o tema, ora uma fotografia ou outra mais bem conseguida, ora a personalidade do aluno que tinha tido o bom-senso de abandonar o plano A e seguido um plano B mais simples e etc. O meu pai completamente banzado encolhia os ombros na minha direcção. O panorama depois melhorou um pouco, mas as palavras do júri eram, basicamente, as mesmas. Quando chegou a vez da Mafalda, apresentou um trabalho sobre o povo Macua, tribo de Moçambique, em que além da qualidade das fotografias, juntou um discurso linear sobre cada uma das fotos, onde os costumes eram explicados sem, tão pouco, o recurso a uma cábula que tinha levado, o que para quem tinha estado semanas com aquele povo e sabia bem do que estava a falar não terá sido difícil, chegando ao ponto de comover uma parte da sala e até um elemento do júri, acabando a apresentação, que durou cerca de 15/20 minutos, com um ditado tradicional Macua, "Viver só é apodrecer." A primeira intervenção foi da menina do Sol que perguntou o porquê da opção pelo preto e branco. A Mafalda sorriu dizendo que já sabia que essa iria ser a primeira pergunta e responde, calmamente, que além de um gosto pessoal por trabalhar a preto e branco, entende que a cor, por vezes, pode desviar a atenção dos pormenores a que quer dar importância, além que, neste trabalho, simbolizava também a simplicidade da vida daquelas pessoas. Resposta daquela pessoa que parece que é fotografa no jornal Sol, "Pois, mas para mim África é cor e, além disso, 28 fotografias é demasiado para uma foto-reportagem." Ok, ficámos a saber que para aquela sra./menina, África é cor e que não interessa a qualidade das fotografias nem da história que contam, o que interessa é que deviam ter cor e ser menos porque concerteza deve ter mais que fazer que aturar 28 fotografias de uma miúda que não conhece de lado nenhum. Porreiro pá, já agora segue o rumo dos jornalistas do Público e vai fotografar o que vai acontecer, talvez acontecer ou mesmo não acontecer aos futebolistas norte-coreanos. E para não ser maçador com tanta banalidade, passo ao director da escola que foi o último a falar, disse que a Mafalda não podia defender as opções num trabalho só porque gosta, ou seja, só apanhou a primeira frase que a miúda disse na resposta da opção pelo preto e branco o que, tendo em conta a cara de frete que tinha, me parece perfeitamente normal. Para mim nada disto foi novidade, mas para o meu pai, afastado da vida profissional há cerca de 10 anos, embora com mais de 40 anos de experiência em artes gráficas, fotografia, publicidade, foi um choque tremendo ver o estado a que chegámos, nem tanto os putos, mas a banalidade, a incoerência, a sobranceria dos professores/profissionais do júri deixaram-no verdadeiramente enervado, tive de o aturar o dia todo. Muitos poderão pensar que a questão genética poderá estar a toldar a razão, principalmente do avô, mas nesta casa a crítica implacável é ponto de honra entre todos nós e mesmo sobre nós, é uma família onde se fala muito e, às vezes, alto, onde não existe reverência aos mais velhos mas entendimento, nem que seja à cabeçada.

flores da minha flor para a minha flor

Fotografias: Mafalda Paiva

música de verão escandinavo

Querida Anna, por mim podes ser o meu homem à vontade.

25/06/2010

melgas

Existem pessoas que admiro, mas depois não percebo coisas como esta http://daliteratura.blogspot.com/2010/06/isto-vai-la.html Parece aquelas telenovelas mexicanas mal dobradas.