09/09/2010

mais coisas boas

entalado

Que fique exclarecido que não tenho nada contra a estimulação anal, só não gosto mesmo é de homens.

olha o felino

Regressando a esta enganadora e triste realidade, as costumeiras merdas deste cantinho cheiram cada vez pior. É tanta a mentira, a desgovernança, a desconversa, a soberba, que a vontade de dizer seja o que for é pouca. Felizmente, também existem coisas realmente boas, aqui fica uma: Um pequeníssimo excerto. ...A grande dúvida é: com que mão limpará o cu o entalado? Com a mão ferida ou com a mão suja?

para um viciado na realidade é mesmo assim

Quando confesso o meu repúdio radical pela mentira, toda a gente diz que sou louco. E eu não defendo que se diga tudo a toda a gente; acredito apenas que devemos viver em regime de verdade com as pessoas de quem gostamos. Há excepções circunstanciais? Há. Mas a regra, a minha regra, é a verdade. O que é a verdade?, perguntava Pilatos. Também não sei, mas sei o que é a mentira. Uma mentira é uma declaração que sabemos falsa, feita com o intuito de enganar alguém. Fazer isso a quem gostamos, de modo intencional e repetido, é que é saudável? Garantem-me que sim. E eu regresso, mansamente, ao meu manicómio. Pedro Mexia aqui http://a-leiseca.blogspot.com/ Quero voltar para o monte.

voltando é assim que me sinto

Quero voltar para o monte.

16/08/2010

banda sonora

em preparação Para a viagem, porque por lá nem música nem letras.

penalty e penáltis

Arrancou o campeonato e, desde já, podemos dar os parabéns ao novo campeão. Tirando raras excepções, não acredito em campeões só pela excelência do futebol. Tal como o ano passado os penaltys assinalados a favor do Benfica deram um empurram para a excelente época, o penalty a favor do Porto e os que não foram marcados a favor do Benfica, nesta primeira jornada, definiram o rumo deste campeonato. É preciso lembrar que esta já não é a Liga Sagres, mas sim a Liga Zon Sagres, e todos sabemos a quem pertence a Zon. Agora vou para o monte mais uma semana, ver se o Ti'Joaquim tem uma explicação para isto.

12/08/2010

vales mortos

A propósito deste texto http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2010/08/conversa.html, e regressado agora de um Alentejo ainda mais profundo, sem mar mas com um Guadiana cada vez melhor, um céu estrelado e Marte a nascer-me à direita de onde me sentava a olhar para o norte até às tantas e, também, a conversar com o ti'Joaquim, homem de 85 anos que raramente saiu do monte onde vive, nunca teve instrução que não aquela que a natureza lhe foi dando e que mantinha uma conversa tão natural como o lugar onde estávamos, que quando íamos em grupo até ao café da povoação mais perto, parava naturalmente para fazer chichi ou, também naturalmente, dava uns traques ignorando quem quer que estivesse ao pé. Numa das nossas conversas, enquanto olhávamos as estrelas, diz convicto naquela pronúncia arrastada que isto do mundo é que está uma coisa bem feita, respondi provocando, há quem diga que foi Deus, ignorou-me e bem, prosseguiu, até dizem que há mais terra encoberta por mar do que descoberta. Assim fomos conversando, noite após noite, e eu sempre a aprender.

04/08/2010

I Can Be A Frog

ao tonan

Xupa portugalês e sai do chão, arrasa montanhas e dobra o colchão, esta bardamerda é só uma ilusão feita do cio vadio de um cão. Dobra cabrão dobra, inquina a certeza dessa ilusão, os lençóis são uma cobra tu o cio vadio de um cão. E se a punheta também é foda e a surpresa sempre à mão cinco dedos sempre à roda agarrados a qualquer situação, estas palavras são a demora de um estilo sem razão. Xupa portugalês e xupa outra vez, mas cospe o esperma para o chão não vá sujar-se o colchão. E depois de uns copos de xerez, não penses que isto é uma ilusão de quem perdeu a razão ou de quem não sabe o que fez, porque a punheta também é gente que a muitos deixa contente, e se por acaso perderes a noção, lembra-te que a necessidade é premente e o sangue vem do coração, bomba frenética e quente como a lava de um vulcão. Dobra-te cabrão dobra e mancha o lençol, desfaz-te nesse colchão, enrola-te como um caracol. Nessa certeza sempre à mão és o vicio vadio com o cio de um cão.

31/07/2010

ao zé toino

E o tempo age, solta as amarras e leva tudo, o que foi, o que é e o que será. E a noite leva a luz, e o vento leva o pó, e o pó leva histórias, e as histórias espalham-se, e o mar leva os grãos, e os grãos desfazem-se, e o tempo leva tudo. E o tempo age, e os poetas inventam, e as palavras são vazias. Porque o céu é apenas o céu, o mar apenas o mar e a terra apenas a terra, porque uma palavra é, tão só, uma palavra, e por muito que queira ser uma árvore, não sou, por muito que quisesse ser um rio, não sou, por muito que gostasse de ser a lua, essa que os lunáticos gostam de enfiar nos poemas, não sou, e o tempo leva tudo, as palavras também. E o tempo age, olá se age, marca-se no corpo, marca-se na alma (o que quer que esta seja) e leva tudo, leva a inocência, leva a pujança, leva a virilidade, leva a saliva que nos faz dizer e mata a sede, e se isto for uma metáfora, que seja boa e a possas embrulhar e oferecer a alguém, e, já agora, leva o sentido que eu não quero, porque o tempo leva tudo. Se me deixar só um bocadinho da tua memória, talvez consiga ser um pouco mais. E o tempo agiu.

07/07/2010

happy birthday

Outro ilustre, este menos, que faz anos hoje.

ao velhote

parabéns

O patrão farto das faltas ao trabalho às segundas-feiras de determinado empregado que gostava muito de beber diz-lhe, Ó homem mais uma segunda que faltou, assim não pode ser. Morreu-me um familiar Sr. Carvalho, responde. Morrem-lhe muitos familiares às segundas-feiras, diz o patrão. Sim Sr. Carvalho é verdade, e tenho cá a impressão que na próxima semana vai morrer outro. Esta estória e, principalmente, o contexto e a forma como é contada define o meu Pai, que faz hoje 70 anos. Agora imaginem 60 anos, começou a trabalhar aos 10, de estórias verídicas como esta, dava um belo conjunto de micróbios, vermes, parasitas, qualquer coisa assim.

02/07/2010

e ignoram meu ofício ou minha arte

Em meu ofício ou arte taciturna Exercido na noite silenciosa Quando somente a lua se enfurece E os amantes jazem no leito Com todas as suas mágoas nos braços, Trabalho junto à luz que canta Não por glória ou pão Nem por pompa ou tráfico de encantos Nos palcos de marfim Mas pelo mínimo salário De seu mais secreto coração. Escrevo estas páginas de espuma Não para o homem orgulhoso Que se afasta da lua enfurecida Nem para os mortos de alta estirpe Com seus salmos e rouxinóis, Mas para os amantes, seus braços Que enlaçam as dores dos séculos, Que não me pagam nem me elogiam E ignoram meu ofício ou minha arte. Dylan Thomas

boa noite

30/06/2010

ainda bem que escrevi logo de manhã

José Mourinho, novo treinador do Real Madrid, assumiu nesta quarta-feira a defesa de Cristiano Ronaldo, afirmando que não se pode tolerar que se atribua a um jogador as responsabilidades pelos resultados de toda uma equipa. "O Cristiano pode ficar tranquilo e desfrutar as férias. Não permitirei na próxima temporada que se faça pesar sobre ele a responsabilidade de toda uma equipa", disse Mourinho à agência Lusa. Enquanto jogador da minha equipa permito-me fazer um comentário que não fiz desde o começo do Mundial: nas minhas equipas, quando ganhamos, ganhamos todos, quando perdemos, a responsabilidade é só minha", acrescentou. "Os grandes jogadores marcam a diferença porque são melhores, mas as equipas são um conjunto", prosseguiu. Sinto-me um autêntico special none, porque estas declarações que li agora vão ao encontro do que penso e escrevi de manhã. Ainda hoje me disseram que iriamos ver como seriam as relações do Ronaldo com o Mourinho. Para já começam bem, mas esta é a diferença entre treinadores que dão camisolas largas para os jogadores jogarem à vontade e os que lhes espetam com camisas de forças e depois ainda dizem que se forem apertadas de mais que fiquem em casa. "Enquanto estiver à frente da selecção, se o tamanho da camisola for pequeno demais para algum corpo, então não precisam de estar aqui", considerou o técnico, numa conferência de imprensa que serviu de rescaldo à campanha portuguesa na África do Sul. Agora vou ali à rua de cima dizer que sou o special none e oferecer-me para treinar os Os Pastilhas, o clube onde ainda joguei com o Figo. http://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_Futebol_Clube_%22Os_Pastilhas%22

respeitinho

Este jornalismo, descrito em baixo, no desporto em geral e no futebol em particular, ganha, como se fosse possível, uma dimensão de avalanche. Que melhor exemplo do que este campeonato do mundo, em que numa fase inicial, a fase do cume, se deu a ideia que seriamos campeões, porque tínhamos o melhor jogador do mundo, porque somos o Brasil da Europa, porque os nossos jogadores são os mais bonitos e têm as unhas arranjadas e tudo, esquecendo-se que fomos apurados para o mundial com uma sorte incrível e que, ao contrário de Felipe Scolari, Carlos Queiroz nunca conseguiu fazer uma verdadeira equipa, que fosse segura e eficaz. Depois vieram as más exibições nos jogos de preparação e a neve começou a derreter, de repente caiu o primeiro bloco, a estória do Nani começou a ter contornos de romance policial com espionagem à mistura, afinal o homem até teve de ser operado, logo a seguir, a péssima exibição com a Costa do Marfim faz cair mais outro bloco de neve, para alguns ainda existiu a desculpa do primeiro jogo e da força da selecção Marfinense, nunca esteve em causa as capacidades dessa selecção mas sim as incapacidades da nossa, vieram os sete a zero à Coreia e, qual João Garcia, já estávamos no pico dos Himalaias outra vez, sem se perceber que essa foi uma vitória sem substância, em que na primeira parte o resultado até podia estar em 1x1, e que o que aconteceu na segunda foi mais fruto do acaso e da desorientação dos outros do que mérito nosso. Com o Brasil foi mais do mesmo, uma selecção apática com a desgraçada da lebre (Ronaldo) no meio dos lobos, mas como foi um jogo com os nossos irmãos brasileiro em que até já estavam as duas selecções apuradas e não perdemos, é claro que podiamos ser campeões do mundo. Até que chega a Espanha, uma verdadeira equipa que até na derrota, fruto dos acasos do futebol, com a Suíça, mostrou um futebol consistente e até apaixonante, naturalmente perdemos. A avalanche ganhou uma velocidade tal, que as normais declarações de Ronaldo fizeram espetar o nacionalismo bacoco, mais as bandeiras cheias de buracos, contra a parede, ainda por cima querem levar o rapaz atrás, como se já não lhe bastasse, fruto da estratégia medrosa de Carlos Queiroz, andar a jogar sozinho contra 4 defesas de metro e oitenta para cima todo o campeonato. Se eu estivesse no lugar dele ainda dizia pior.

jornalismo

A falta de jornalistas séniores, por exemplo. A televisão portuguesa, no seu conjunto (mais aplicadamente na RTP, o que é estranho — e muito menos na SIC), abdicou da presença de jornalistas séniores. Na CNN, Sky, CBS, etc., entregam-se os momentos «mais solenes» ou apenas «mais importantes» a jornalistas seniores. Pessoas que já leram, que não embarcam na primeira histeria, que relembram uma história relacionada (coisa só possível com memória, cultura e, até, experiência), que são capazes de traçar a biografia de um entrevistado em quinze segundos sem destruir a oportunidade (por exemplo: no funeral de Saramago, reduzir Guilherme Oliveira Martins a presidente do Tribunal de Contas), que não reduzem o material de apoio a dois prints mais recentes da internet (já leram, pois), que não caem na primeira treta que alguém deixa cair perto do microfone, que têm a noção da maneira como se deve fazer uma pergunta sem ofender o senso-comum (a jornalista aproxima-se de um táxi à hora do jogo Portugal-Brasil e quer saber por que razão está ele ali a ouvir o relato pela rádio, e não diante da televisão: «Porque está aqui e não foi ver o jogo? Está a trabalhar, é?»). Aqui: http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/1198273.html O fascínio que tinha pelo jornalismo acabou quando, em Julho de 1993, um jornalista da então recente SIC, perguntou a um dos pais de uma criança falecida nas piscinas do aquaparque o que sentia naquele momento. O corpo da criança tinha acabado de ser encontrado. Depois disto só podia ser a descer e a descida tem sido vertiginosa.

puxando a brasa ainda mais

Gostava ainda de salientar que a logística para o trabalho da Mafalda foi bastante complicado, porque apesar da mãe viver na zona, o horário de trabalho não lhe permitiu ajudar a filha, a não ser facilitando um ou outro contacto. Depois ainda teve o azar de perder o disco onde tinha todo o trabalho, tendo sido preciso recorrer a um especialista de informática para recuperar as fotos no computador da mãe e voltar a enviar para Portugal. Como se não bastasse, há três semanas, enquanto preparava o texto final, teve uma infecção no umbigo que a obrigou a ser submetida a uma cirurgia e ficar 3 dias no Hospital, mais uns quantos em casa cheia de dores. Mesmo assim, o tal plano B nunca lhe passou pela cabeça. Deixo aqui apenas três fotos do trabalho, quando puder deixo o trabalho todo. Uma mãe Alunos no intervalo Uma sala de aulas Se alguém me explicar, de forma que eu entenda, onde é que a cor faz falta a estas fotos eu agradeço.

29/06/2010

cabeçadas

Ontem, fui com o meu pai e o meu filho ver a apresentação do trabalho final do curso profissional de fotografia da minha filha, equivalente ao 12.º ano. Num auditório com boas condições, aluno após aluno os trabalhos eram apresentados, o júri era constituído por uma repórter fotográfica do jornal Sol, uma representante do sindicato dos jornalistas para a parte escrita, o professor acompanhante do trabalho, a directora de turma, a coordenadora do curso e o director da escola. Até aqui tudo bem, apesar de me parecer exagerado a quantidade de pessoas para analisar trabalhos que, na maior parte dos casos, demoravam 5 minutos a serem apresentados. O que me deixou relativamente espantando e ao meu pai verdadeiramente estupefacto (outra geração, outro profissionalismo, outros hábitos) foi a pseudo-avaliação proferida por aquelas eminências, com excepção para a coordenadora e a representante do sindicato. Os primeiros quatro trabalhos, além de fotograficamente pobres, os respectivos alunos falavam como se estivessem numa amena cavaqueira com o colega do lado, ou seja, eram tipos para aqui e tipos para ali com fartura, depois passavam uma dúzia de fotografias num silêncio confrangedor. O júri elogiava ora o tema, ora uma fotografia ou outra mais bem conseguida, ora a personalidade do aluno que tinha tido o bom-senso de abandonar o plano A e seguido um plano B mais simples e etc. O meu pai completamente banzado encolhia os ombros na minha direcção. O panorama depois melhorou um pouco, mas as palavras do júri eram, basicamente, as mesmas. Quando chegou a vez da Mafalda, apresentou um trabalho sobre o povo Macua, tribo de Moçambique, em que além da qualidade das fotografias, juntou um discurso linear sobre cada uma das fotos, onde os costumes eram explicados sem, tão pouco, o recurso a uma cábula que tinha levado, o que para quem tinha estado semanas com aquele povo e sabia bem do que estava a falar não terá sido difícil, chegando ao ponto de comover uma parte da sala e até um elemento do júri, acabando a apresentação, que durou cerca de 15/20 minutos, com um ditado tradicional Macua, "Viver só é apodrecer." A primeira intervenção foi da menina do Sol que perguntou o porquê da opção pelo preto e branco. A Mafalda sorriu dizendo que já sabia que essa iria ser a primeira pergunta e responde, calmamente, que além de um gosto pessoal por trabalhar a preto e branco, entende que a cor, por vezes, pode desviar a atenção dos pormenores a que quer dar importância, além que, neste trabalho, simbolizava também a simplicidade da vida daquelas pessoas. Resposta daquela pessoa que parece que é fotografa no jornal Sol, "Pois, mas para mim África é cor e, além disso, 28 fotografias é demasiado para uma foto-reportagem." Ok, ficámos a saber que para aquela sra./menina, África é cor e que não interessa a qualidade das fotografias nem da história que contam, o que interessa é que deviam ter cor e ser menos porque concerteza deve ter mais que fazer que aturar 28 fotografias de uma miúda que não conhece de lado nenhum. Porreiro pá, já agora segue o rumo dos jornalistas do Público e vai fotografar o que vai acontecer, talvez acontecer ou mesmo não acontecer aos futebolistas norte-coreanos. E para não ser maçador com tanta banalidade, passo ao director da escola que foi o último a falar, disse que a Mafalda não podia defender as opções num trabalho só porque gosta, ou seja, só apanhou a primeira frase que a miúda disse na resposta da opção pelo preto e branco o que, tendo em conta a cara de frete que tinha, me parece perfeitamente normal. Para mim nada disto foi novidade, mas para o meu pai, afastado da vida profissional há cerca de 10 anos, embora com mais de 40 anos de experiência em artes gráficas, fotografia, publicidade, foi um choque tremendo ver o estado a que chegámos, nem tanto os putos, mas a banalidade, a incoerência, a sobranceria dos professores/profissionais do júri deixaram-no verdadeiramente enervado, tive de o aturar o dia todo. Muitos poderão pensar que a questão genética poderá estar a toldar a razão, principalmente do avô, mas nesta casa a crítica implacável é ponto de honra entre todos nós e mesmo sobre nós, é uma família onde se fala muito e, às vezes, alto, onde não existe reverência aos mais velhos mas entendimento, nem que seja à cabeçada.

flores da minha flor para a minha flor

Fotografias: Mafalda Paiva

música de verão escandinavo

Querida Anna, por mim podes ser o meu homem à vontade.

25/06/2010

melgas

Existem pessoas que admiro, mas depois não percebo coisas como esta http://daliteratura.blogspot.com/2010/06/isto-vai-la.html Parece aquelas telenovelas mexicanas mal dobradas.

24/06/2010

forest fire

o castelo

Nos últimos meses, a falta de dinheiro para comprar e de pessoas para me emprestarem livros obrigam-me a reler autores, Boris Vian, Tennessee Williams, Kafka, Milan Kundera, que fui lendo entre a adolescência e os vinte anos. Limpo o pó, as palavras surgem-me agora muito mais nítidas do que há vinte e tal anos atrás. Há males que vêm por bem, infelizmente não encontro "O Castelo" do Kafka o livro que mais prazer me deu a ler, até hoje.

22/06/2010

movimento circular

No teu reflexo procuro esse gesto tornado imortal, um movimento circular projectado para lá do tempo, para lá da memória, para lá do horizonte longínquo que tento vislumbrar. Na distância voa o pensamento, pacienta a esfinge, que se solta da alma e parte. Esperar é a virtude da negação animal que outrora fomos.

a um deus risível

Será que esta gente das Igrejas, lideres e seguidores, não percebe que um ateu se está nas tintas para infernos, purgatórios e, ainda mais nas tintas, para estas purgazinhas terrenas.

dor

Penso, logo existo é uma frase de intelectual que subestima as dores de dentes. Sinto, logo existo é uma verdade de alcance muito mais geral e que se aplica a todo o ser vivo. O meu eu não se distingue essencialmente dos vossos pelo pensamento. Muitas pessoas, poucas ideias: pensamos todos pouco mais ou menos a mesma coisa, transmitindo, tomando de empréstimo, roubando as nossas ideias uns dos outros. Mas se alguém me pisa um pé, sou só eu quem sente a dor. O fundamento do eu não é o pensamento mas a dor, o mais elementar de todos os sentimentos. Na dor, nem sequer um gato pode duvidar do seu eu único e não permutável. Quando a dor se torna aguda, o mundo desvanece-se e cada um de nós fica a sós consigo mesmo. Milan Kundera in "A Imortalidade"

e o Carnaval?

Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro. José Saramago “Cada vez mais sós”, in Deste Mundo e do Outro, Ed. Caminho, 7.ª ed., p. 216

17/06/2010

o Zé Maria de Setúbal

Alguém me explica porque é que o Paulo Ferreira foi de Setúbal para o Porto, do Porto para Londres (por muita massa), se mantenha por lá tanto tempo e ainda seja constantemente jogador da Selecção que é a Portuguesa. Este jogador faz-me lembrar o Melhoral que não faz bem nem mal, ou como diz o meu velhote "esta selecção era o Paulo Ferreira na praia, o Deco numa SPA a recuperar de uma lipoaspiração àquele cu, o Danny a treinar para a Volta a Portugal, o Simão a fazer uma reciclagem rápida a ver como jogava no Benfica e o Carlos Queiroz a treinar os sub14 de qualquer coisa."

explosões

Lembrei-me de tudo isto no dia em que Portugal esteve suspenso da explosão do CR7. Para nada. Eduardo Pitta aqui: http://daliteratura.blogspot.com/2010/06/o-pais-das-vuvuzelas.html O Ronaldo explodiu, os outros é que resolveram implodir e jogar sozinho nem o Eusébio.

16/06/2010

vuvuzelando

Agora gostava de ver o discurso dominante da força da técnica e da técnica da força, dos múltiplos e enfadonhos comentaristas/especialistas/analistas/professores/profetas e sei lá mais o quê, explicarem como é que a selecção que, de longe, melhor e mais bonito futebol jogou perdeu? Eles entraram pela direita, pela esquerda, pelo centro, remataram dentro da área, fora da área, com os pés, com a cabeça e, por vezes até com outras partes do corpo, mas perderam. he viva la espana Os mais espertos irão dizer "é futebol", pois é pá, mas V. Exas. é que parece que falam de uma ciência exacta, eu cá apressava a união ibérica e punha o Ronaldo mais o Coentrão a jogar na selecção espanhola e aí é que era tudo nosso, aliás deles, ou melhor, de nosotros. Entretanto, a saloice portuguesa continua espalhada por esse mundo fora, espalhando a boa nova de um fado tão triste quanto estes novos tempos em que temos de viver. Vai mais uma sopradela na vuvuzela.

And the Band Played Waltzing Matilda

When I was a young man I carried my pack And I lived the free life of a rover

agora sinto-me alegre e inspirado

Agora sinto-me alegre e inspirado em chão clássico; Mundo de outrora e de hoje mais alto e atraente me fala. Aqui sigo eu o conselho, folheio as obras dos velhos Com mão diligente, cada dia com novo prazer. Mas, noites fora, Amor me mantém noutra ocupação; Se apenas meio me instruo, dobrada é minha ventura. E acaso não é instruir-me, quando as formas dos seios Adoráveis espio e a mão pelas ancas passeio? Compreendo então bem o mármore; penso e comparo, Vejo com olhar tacteante, tacteio com mão que vê. E se a Amada me rouba algumas horas do dia, Em recompensa me dá as horas todas da noite. Nem sempre beijos trocamos; falamos sensatos; Se o sono a assalta, fico eu deitado a pensar muitas coisas. Vezes sem conto eu tenho também poetado em seus braços E baixo contado, com mão dedilhante, a medida hexamétrica No seu dorso. Em sono adorável respira, E o seu hálito o peito me acende até à raiz. O Amor atiça a candeia entretanto e pensa nos tempos Em que aos Triúnviros seus o mesmo serviço prestava. Johann Wolfgang von Goethe, in "Elegias Romanas"

vai uma caipirinha e um mergulho

a espessura da felicidade

Viver com o coração na boca e a razão no peito a doer, desatino inquieto que sou. Nisto, faço coisas e gosto das coisas que faço, não pela importância, amanhã cai um calhau na terra e lá se vão as importâncias, tantas, mas, enquanto por cá se vai andando, não ficarei com a cabeça entre as orelhas a olhar o céu à espera do calhau. Aqui, donde sou e onde vivo, é o que sinto, cada vez mais sou a espreitar por entre as nuvens à espera do nada, cada vez mais vivo a espreitar por entre as nuvens à espera de tudo, e, apesar do que me prende e como para nada já chega o pouco que sou, apetece-me partir. As pessoas costumam dizer que querem ser felizes, outros dizem mesmo que são felizes, mas a felicidade não se anuncia ou deseja, a felicidade cumpre-se. E se é ridículo dizer que se é feliz, também nunca vi ninguém dizer que quer ser infeliz. Mas a questão nem é essa, este eu que figuro quer lá saber de ser feliz. Agora tentar seria bom.

09/06/2010

Canto dos Espíritos sobre as Águas

A alma do homem É como a água: Do céu vem, Ao céu sobe, E de novo tem Que descer à terra, Em mudança eterna. Corre do alto Rochedo a pino O veio puro, Então em belo Pó de ondas de névoa Desce à rocha liza, E acolhido de manso Vai, tudo velando, Em baixo murmúrio, Lá para as profundas. Erguem-se penhascos De encontro à queda, — Vai, 'spúmando em raiva, Degrau em degrau Para o abismo. No leito baixo Desliza ao longo do vale relvado, E no lago manso Pascem seu rosto Os astros todos. Vento é da vaga O belo amante; Vento mistura do fundo ao cimo Ondas 'spumantes. Alma do Homem, És bem como a água! Destino do homem, És bem como o vento! Johann Wolfgang von Goethe, in "Poemas"

dust in the sun

Preciso do deserto, onde o abismo se suceda em dunas suaves e na planície encontre a sombra e na sombra encontre o vento e com o vento venha o silêncio. Água fresca que me alimenta.

arejar

imortalidade risível

Os prestidigitadores gostam de manipular chapéus. Fazem desaparecer dentro deles objectos, ou tiram de dentro deles pombas que voam para o tecto. Bettina tirou do chapéu de Goethe os feios pássaros do seu servilismo; e dentro do chapéu de Beethoven (por certo que sem querer) fez desaparecer toda a sua música. Reservou a Goethe a sorte de Tycho Brahé e de Carter: uma imortalidade risível. Mas a imortalidade risível espreita-nos a todos; para Ravel, Beethoven seguindo em frente com o chapéu enterrado até às sobrancelhas era muito mais risível do que Goethe, inclinando-se profundamente. Por conseguinte, ainda que seja possível compor-se a imortalidade, modelá-la de antemão, manipulá-la (lembremo-nos das três rosas de Miterrand!), ela nunca se realizará tal como foi planeada. O chapéu de Beethoven tornou-se imortal. Desse ponto de vista, o plano teve êxito. Mas o sentido que o imortal chapéu viria a assumir, isso ninguém podia prevê-lo. Milan Kundera, in "A Imortalidade".

08/06/2010

mordendo a própria língua

A filosofia salvou-me a vida. A verdade é que não sou homem a quem a sorte tenha bafejado. Se uns nasceram com o cu voltado para a lua, e outros com o rei na barriga, eu nasci com o cu voltado para a crosta terrestre e pedras nos intestinos. Vivo entre dois pólos, é certo, pelo que me considero metade urso, metade pinguim. Mas a filosofia salvou-me a vida, ajudou-me a olhar o mundo com outras perspectivas, ajudou-me a fintar o azar, ou a má-sorte, se é que me faço entender. Noto isso nas coisas práticas da vida. É um facto que não tenho sorte alguma, mas também não deixa de ser um facto que, não tendo sorte alguma, aprendi a driblar a sorte com a filosofia. Texto integral aqui http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2010/06/erros-meus-ma-fortuna-ilusao-ardente.html Quando alguns músicos contam histórias mirabolantes sobre como conseguiram atingir o sucesso, ou fama, ou o que quiserem chamar, a minha realidade misturada com o meu sentido prático desconfia. Falando só de portugueses, lembro-me de um que diz que estava a tocar na praia para os amigos, passou um gajo de uma editora e tumba, contrato feito. Lembro-me de outro que vendeu um piano para gravar um disco e catrapumba, milhares de exemplares do mesmo vendidos. Ainda me lembro de outro que acho que é o mesmo, que fez uns dedos do meio ao Cavaco num concerto na Costa de Caparica e a seguir pum pum cada bala mata um, a ponte parou com tiros e tudo, resultado, mais uns milhares de discos vendidos. Outro, este mais perto de mim, conta a história do desgraçadinho, que o pai lhe partiu a primeira guitarra, que as dificuldades eram assim e mais assado, mas que ele pontapeou sempre esse estigma com uma grande dedicação e uma vontade ainda maior (oh que caralho a puta da vontade) e superou tudo e todos, a tal ponto que todos foram fugindo dele e ele fugindo de quem deve dinheiro, apesar de não lhe faltar. Eu também já contei algumas histórias da carochinha, já toquei na praia, bem como noutros locais públicos, nunca tive um piano para vender mas já troquei cromos valiosos, a vontade, essa grande puta, ainda não me faltou, também devo dinheiro, mas só às finanças que os outros não têm culpa da minha falta de sorte. Com tudo isto e mais algumas, o sucesso não quer nada comigo, ver se vou à TV, espantalho-me pelo chão e parto alguns dentes mais uma fractura exposta da tíbio-társica para ver se tenho sorte. É verdade, há sempre aquela coisa do talento, mas por aí os caminhos ainda me parecem mais estranhos e os karmas mais bizarros. O que é que me resta fazer?

os rostos da nossa miséria

Um vai-se a dizer que sai de consciência tranquila, o outro entra a dizer que tem de se moderar os salários.

01/06/2010

interessa é ser gorgeous

perfumes de Portugal

Hoje, fui ao banco levantar o cheque do concerto, a maravilhosa CGD. Qual o meu espanto quando chego e deparo-me com um balcão totalmente remodelado, cheio de mármores, granitos, vidros de qualidade, parecia que estava a entrar no Taj Mahal, enfim, um luxo. Estando a falar de um balcão num edifício com apenas 12/15 anos na Cova da Piedade em que que a única diferença é que os mármores e granitos antigos eram mais escuros mas, ainda assim, de grande qualidade, dei por mim a pensar na crise, depois nos balcões dos bancos nos EUA, com acabamentos reles com uma série de anos, depois nos ordenados daqueles desgraçados que trabalham algumas 10/12 horas por dia para o que ganham dar para pagar a renda da casa, do carro e pouco mais, e apeteceu-me fugir logo dali e voltar de noite para lá por uma bomba. A pobre desgraçada que me atendeu não percebia porque é que eu queria levantar o dinheiro todo do cheque, ainda era uma quantia razoável, nem me dei ao trabalho de lhe explicar que não tenho conta bancária nem quero nada com bancos e que aquelas obras recentes só me confirmava esta convicção de me manter a milhas desta economia nojenta. Depois vou para o centro de Almada para encadernar uma peça de teatro que escrevi para levar ao Benite, que me esperava no Teatro de Almada, e, das muitas lojas que faziam este tipo de trabalho, só uma se mantinha aberta, mas já não tinha este serviço. Numa Almada verdadeiramente bonita, verdadeiramente renovada, cheia de passeios, de árvores, ruas sem carros, cheia de esplanadas com reformados e reformados compulsivos de 30/40 anos a beber um café e uma água da torneira que o dinheiro não chega para os passeios, para as estátuas e, principalmente, para manter as lojas abertas, novamente chega-me uma vontade de largar umas bombas e destruir tudo. Controlada a vontade, lá chego a uma nova loja com o tal serviço, por sinal mesmo em frente, ou melhor atrás, do Teatro. Felizmente, a conversa com o Benite corre muito bem. Saio satisfeito e prossigo, ainda me falta fazer alguns clientes dos salgados, em cinco cafés e restaurante não tenho uma encomenda que seja. Pudera com tanto reformado compulsivo a água del cano estou à espera de quê. Mas, também, que interessa isso, o que interessa é comer aqueles mármores luxuosos e aqueles passeios largos cheios árvores, bostas de cães e Benjamins para nos cagarem em cima. Ao menos chegamos a casa perfumados dos pés à cabeça.

28/05/2010

27/05/2010

como desenhar um círculo perfeito

Também gostava de desenhar um círculo perfeito mas não consigo.

26/05/2010

liberdade

Gostava de ter um cão, lembro-me da antiga casa da minha avó com quintal e de um rafeiro de nome Caim que saltava de alegria sempre que eu chegava da escola. Apesar de ser um animal bem disposto e até meigo não era um daqueles cães amaricados pelos donos e, também, nunca virava a cara à luta se fosse caso disso, principalmente com o pastor alemão da vizinha em frente que era irascível. O tempo passou e morreu de velhice era ainda eu uma criança, como vivi sempre em apartamentos pequenos e com muitos humanos atarefados nunca quis ter outro Caim, acho uma violência para os humanos e ainda mais para os animais, depois começaram a aparecer as mariquices dos veterinários mais o não poder comer restos nem roer ossos, as ruas inundadas de dejectos que são cagalhões mesmo, as trelas e sei lá que mais, com tudo isto a vontade de ter um cão foi ficando reduzida à liberdade que nunca conseguiria cortar ao animal. Talvez um dia, se conseguir o espaço que um cão merece.

25/05/2010

para adoptar

Mais informações aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2010/05/flora-companhia.html

21/05/2010

road to nowhere

Precisas de uma estrada que te leve, não importa o lugar, não interessa o caminho e muito menos a chegada, precisas de ir, se o vento te levar melhor.

19/05/2010

história

Meia duzia das muitas bandas que vi nascer e algumas também morrer logo de seguida na incrível. O baterista deste último teledisco é o Alfredo, que lá estará com a PA e a fazer o som de palco.

rock in crível

O papa in Rio já foi, agora vem o Rock in Rio mas, também, vejam só, o Rock in Crível, o que não sei bem o que é mas não interessa, estarei lá a tocar nessa sala incrível onde, desde os 11 anos, já vi centenas de concertos, alguns muito bons. O cartaz está mesmo lindinho, ou não tenha sido o meu mano a fazer. Agora os meus 3 ou 4 leitores que mexam o cu e venham até lá nesse dia.

14/05/2010

banda sonora desta semana

Tudo foi dito cem vezes E muito melhor que por mim Portanto quando escrevo versos É porque isso me diverte É porque isso me diverte É porque isso me diverte e cago-vos na tromba Boris Vien Go straight to hell boys A lot of people wont get no supper tonight A lot of people wont get no justice tonight After all this time to believe in jesus After all those drugs I thought i was him Run rabbit run Strike out boys, for the hills I can find that hole in the wall And I know that they never will I fought the law and the law won I fought the law and the law won I fought the law and the law won I fought the law and the law won I fought the law and the law won I fought the law and the law won I fought the law and the law won Should I stay or should I go now?

13/05/2010

especulações

Desde que fechei a minha empresa que não estava numa gráfica como estive hoje, junto da máquina de impressão a sentir o cheiro da tinta e do papel, ainda por cima uma bomba a seis cores a imprimir como se não existisse amanhã. Se por via das emoções, os cheiros mas também o ritmo compassado da impressão, vieram as saudades do tempo em que fazia os livros para a Assírio & Alvim, a colecção Rei Lagarto com o José Afonso, o Frank Zappa, a biografia de Jim Morrison "Daqui Ninguém Sai Vivo", ou da colecção O Imaginário com livros da Sylvia Plath, do Boris Vien, Tennessee Williams e muitos mais, pelo lado racional não consigo esquecer os problemas com os vigaristas que não pagavam, com a velocidade dos publicitários que só funcionavam com a força da coca e, pior ainda, com a prepotência de um Estado mau pagador, cheio de cunhas e travessas para se conseguir um trabalho e, ainda muito pior, com uns serviços de justiça e de finanças que não lembram ao melhor de Kafka. Por tudo isto, quando me chegam com a história do esforçar mais, eu respondo que sempre me esforcei em quase tudo o que faço, só que nos últimos 6 anos faço-o só para mim e não lhes dou nada.

10/05/2010

32

Este título que o SLB acabou de ganhar soube a pouco para uma época em que o futebol praticado merecia também a conquista da Liga Europa. Este Benfica foi impressionante, até na forma como, nesta última jornada, soube dar uns minutos de esperança a uns quantos portugueses, não só para a conquista do título como da bola de prata. Se o título é inquestionável, já a bola de prata assentaria bem a Falcão, excelente jogador, não fosse o sadismo de Cardozo em marcar o golo final com o pé direito.

06/05/2010

we don’t care about music anyway

Realizado por Cédric Dupire e Gaspard Kuentz, este filme documentário, foi, no mínimo, desconcertante. Dizer que este conjunto de artistas, músicos e performers japoneses que o filme dá a conhecer são bizarros e estranhos, seria injusto e, até, descontextualizar não só o trabalho que realizam mas, sobretudo, a vertente social, cultural e humana que rodeia esse trabalho. Numa sociedade altamente conformista e mecanizada, numa cidade onde milhões de pessoas têm acesso a tudo mas em que esse tudo é tão previsível, tão plástico, tão vazio de significado e, ao mesmo tempo, tão feio, tão sujo, tão barulhento, o ruído, muitas vezes ultrapassando os limites do suportável, torna-se uma catarse para estes artistas. Tudo serve para fazer esta espécie de música que mais será um furacão de sons, desde microfones de contacto junto do coração e de outras partes do corpo, até guitarras tocadas em amplificadores com a distorção e o volume no máximo, acompanhados de gritos ensurdecedores. Chamar vanguarda ou qualquer outro nome à ruidosa electrónica de Numb, ao turntablism de Otomo Yoshihide, aos batimentos cardíacos de Yamakawa Fuyuki, pode ser uma forma de rotular o trabalho destes artistas mas, como qualquer rótulo,torna-se redutor. Os realizadores fazem um trabalho extraordinário de contextualização, as imagens tornam-se um forte suporte que dinamiza todo o filme, com sequências quase perfeitas entre a trama sonora e a vivência de uma cidade assustadoramente grande, aparentemente ordenada, mas, também, feita de sujidade, lixo e ruínas, que muitas vezes nos escapa de um olhar mais atento na rapidez com que desejamos viver hoje em dia. Como ironia, no fim e depois de suportar mais de uma hora de ruídos infernais, surge uma peça pelo violoncelo de Sakamoto Hiromichi com uma melodia quase hipnótica e que me deixou completamente arrepiado. O Sakamoto Hiromichi é o que toca o serrote, pena não encontrar a música final do filme.

05/05/2010

benjamim

Calmamente dentro do carro estacionado na estrada de Benfica, enquanto esperava que acabasse o treino do meu puto, relia o Na Colónia Penal do Kafka, quando reparei num pombo que andava só à bicada aos outros que se aproximavam, devido à Primavera ainda pensei que fosse algum ritual de acasalamento tipo toma lá uma biqueirada e agora amoxa que vamos fazer pombinhos, mas passado uns minutos lá percebi que o cabrão do pombo, que era grande, não queria era deixar os outros tocarem num generoso pedaço de pão que ia bicando quando não bicava nas penas dos outros desgraçados, isto tudo na parte literária em que a máquina se descontrola e também começa a bicar o oficial por tudo quanto é lado, aquilo confundiu-se tudo na minha cabeça e subiu-me uma vontade de agarrar no pescoço daquele pombo e torcer assim só um bocadinho até partir e dizer-lhe, Ó Van Zeller dum cabrão e se deixasses os outros comer um bocadinho também, mas depois reflecti e cheguei à conclusão que o melhor era mesmo ir ver o treino e, quem sabe, tirar umas férias naquele hotel do Miguel Bombarda. É que nem todos os pombos se chamam Benjamim. http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/search/label/A%20Cidade%20a%20Tossir

sem lei mas com muita ordem

Entre estes dois textos, tirados daqui http://abrupto.blogspot.com/ Há dias vinha de carro na A1 por volta de Leiria quando o para-brisas foi atingido por aquilo que pensei ser areia ou pequenas pedras, projectadas pelo autocarro laranja de dois pisos que ia à minha frente. Mas logo percebi que era outra coisa: uma garrafa de vidro tinha sido atirada do autocarro para um carro que o estava a ultrapassar e os estilhaços tinham atingido o meu. Verifiquei então que qualquer carro que tentava ultrapassar o autocarro era bombardeado com garrafas de cerveja, latas e outros objectos, tudo isto a velocidades de autoestrada, mais ou menos à volta de 120 quilómetros hora. Vários carros ziguezaguearam na estrada e quase atingiram o separador, o que significaria um acidente muito grave, com muito possível invasão da faixa contrária. Telefonei de imediato à GNR, identificando o autocarro com a matrícula, em que área da autoestrada isto estava acontecer e insistindo no perigo em que todos estavam. Informei também que vira um carro da polícia na área de serviço imediatamente atrás e que não seria difícil interceptar o autocarro. Depois mantive-me atrás e pude assistir impotente a vários carros atingidos por garrafas e latas, um deles que só por milímetros não perdeu o controlo. Passado algum tempo vi o autocarro estacionar numa zona de repouso existente, que não faz parte de nenhuma área de serviço. A polícia estava à entrada e vários carros atingidos tinham parado a protestar com o que se estava a passar, perante a pasividade policial que estava mais preocupada em que os carros que pararam voltassem à autoestrada do que em dirigir-se ao autocarro que, entretanto, tinha parado mais à frente, na maior das normalidades. Parei e falei com os agentes da GNR e com o graduado e fiquei surpreendido pela indiferença geral que mostravam, como se fosse a coisa mais habitual do mundo. Disse-lhes que tinha testemunhado o que se passara e que estaria disposto a fazer queixa, embora os danos tivessem sido pequenos. Mais indiferença, como se nada se passasse. Resolvi seguir em frente mas, em vez de sair de imediato para a autoestrada passei junto do autocarro de onde dezenas de pessoas tinham saído. Sem haver um único agente perto e como se a paragem fosse normal e logo a seguir partissem de novo, o que muito provavelmente foi o que aconteceu. Apercebi-me então que se tratava de uma claque de futebol. Vários dias passados não vi nenhuma notícia sobre o que se passou, e todos me dizem que é comum acontecerem coisas deste tipo na mais total impunidade. Um dia morre alguém e quero ver as explicações que nos vão ser dadas. ... tem gerado em vários países, Portugal é um deles, um surto de imbecilidade considerável. À falta de anticlericalismo popular, há agora uma nova forma de anticlericalismo intelectual de parte da esquerda « fracturante ». Enquanto não houver um Papa que seja mulher, lésbica, negra, de preferência não crente, e que vote nos EUA no Obama, os Papas, em particular este, são alvos preferenciais. E este acirra os ânimos de forma muito especial porque é branco, alemão, conservador, teólogo, e conhece bem demais a impregnação da doutrina cristã pelas variantes na moda desde os anos sessenta de « progressismo » esquerdizante. A absurda intolerância dos « fracturantes » exerce-se então em toda a sua amplitude. e este tirado daqui http://lishbuna.blogspot.com/2010/05/mas-e-que-isto-nao-ha-meio-de-me-entrar.html "Por terra, pelo mar ou pelo ar. De 11 a 14 de Maio, ande por onde andar, o Papa Bento XVI não dará um só passo em que não tenha milhares de olhos a vigiá-lo. Milhares de armas, de todas as forças de segurança do país e até das Forças Armadas, estarão prontas a proteger aquele que é considerado um dos maiores símbolos mundiais da paz. (...) A julgar pelos meios operacionais envolvidos pela PSP (a força policial mais representada), admite-se que o total de pessoas arregimentadas possa rondar as 8.000. (...) Nas ruas por onde passar o Papa não serão permitidos carros estacionados, estando prestes a iniciar-se a distribuição de panfletos anunciando à população que serão autuados todos os veículos que não forem retirados no prazo previsto". Existe algo que me escapa, mas ainda não sei bem o que é.

01/05/2010

feira da ladra

Um dia desta semana, terça acho eu, fui à feira da ladra com a minha filha para fazer uma reportagem fotográfica, estas são algumas das preciosidades que lá encontrámos, e não falo só das coisas. fotografias: Mafalda Paiva Além de mais uma multa, que espero o grande papa com a ajuda da nossa senhora me possam perdoar, trouxe um cheiro irresistível nas narinas.

28/04/2010

até ao fim

Chamas, dá-me as chamas. Nesta loucura que é pouco mais que a certeza da inconsequência, só um bocado, um pedaço, uma terra, um país, um continente, um mundo, o universo, um tanto que é só isto, nós e a nossa eternidade ilusória, sem palavra, sem expressão, sem conjecturas, sem falácias, sem engano, sem política, apenas nós até ao fim. E as chamas onde estão?

27/04/2010

cromos

Cromo andamos pelo mundo experimentando a morte dos brancos cabelos das palavras atravessamos a vida com o nome do medo e o consolo dalgum vinho que nos sustém a urgência de escrever não se sabe para quem o fogo a seiva das plantas eivada de astros a vida policopiada e distribuída assim através da língua... gratuitamente o amargo sabor deste país contaminado as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel enquanto durmo à velocidade dos pipelines esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares e ao acordar... a incoerente cidade odeia quem deveria amar o tempo escoa-se na música silente deste mar ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo em que apetecia morrer e voltar Al Berto

prozac

Em quase todas as sociedades ocidentais, dois terços ou mais das pessoas dizem que são «felizes». Eis a felicidade como «estado de espírito declarado», isto é, como auto-ilusão. Quando uma pessoa anuncia que é «feliz», há um contentamento narcísico nesse anúncio, mesmo que o facto seja manifestamente falso. Conheço gente com vidas miseráveis que repete bem alto que é «feliz». E também conheço, em muitos casos, a medicação que eles e elas tomam para que a sua «felicidade» brilhe. As pessoas que se dizem «felizes» estão interessadas em obter o estatuto de «felizes», em serem reconhecidas pelos outros como pessoas felizes, mesmo que isso seja um logro. Dizem que são felizes como alguém diz que comprou um objecto que está à venda. Esperam que esse objecto as torne mais completas. Pedro Mexia aqui: http://a-leiseca.blogspot.com/2010/04/um-objecto.html Também sou feliz. Onde é que deixei a cabeça?

mais um combate

por aqui me fico

aqui vou

Não, não é cansaço

Não, não é cansaço... Não, não é cansaço... É uma quantidade de desilusão Que se me entranha na espécie de pensar, É um domingo às avessas Do sentimento, Um feriado passado no abismo... Não, cansaço não é... É eu estar existindo E também o mundo, Com tudo aquilo que contém, Com tudo aquilo que nele se desdobra E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. Não. Cansaço porquê? É uma sensação abstracta Da vida concreta — Qualquer coisa como um grito Por dar, Qualquer coisa como uma angústia Por sofrer, Ou por sofrer completamente, Ou por sofrer como... Sim, ou por sofrer como... Isso mesmo, como... Como quê?... Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço. (Ai, cegos que cantam na rua, Que formidável realejo Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!) Porque oiço, vejo. Confesso: é cansaço!... Álvaro de Campos

26/04/2010

paz

Conta-me histórias de amor e de glória, com palácios e jardins de jasmim e princesas e unicórnios que me levem deste estado errático e transformem esta canção na espiral que me vai domar. Talvez assim encontre a paz.

22/04/2010

verão

De todas as maneiras Que há de amar Nós já nos amamos Com todas as palavras feitas pra sangrar Já nos cortamos Agora já passa da hora Tá lindo lá fora Larga a minha mão Solta as unhas do meu coração Que ele está apressado E desanda a bater desvairado Quando entra o verão Chico Buarque

um soneto

Diz-me o vento que faz lá fora que a calma que aparenta é engano por mais que finja a toda a hora a ninguém mente sempre ufano e a poeira que leva faz dano mágoa seca que não se vai embora mas na melhor nódoa cai o pano onde se veste e sopra agora. Noutra tentação vejo-te frio em outra ainda sinto-te quente noutra, talvez contente e assim fazes-me um arrepio de contrastes e de vontade vento que és e também liberdade. J. Paiva

21/04/2010

213253

Ofereceram-me o Kit de sócio do SLBenfica, foi-me atribuído o número 213253. Querem ver que o homem ainda chega mesmo aos 300000.

campeonatos

O campeonato aproxima-se do fim, só espero que o Benfica seja campeão no Porto com um penalty daqueles em que o Di Maria depois de fazer um túnel a um adversário tropeça no vento e cai, depois o Cardozo manda um tiro a 150 Km/h em que a bola bate nos dois postes, na trave e ressalte para fora da grande área, aparecerá então o Luisão que fará um carrinho levando tudo à frente empurrando a bola para a área novamente onde, atarantado, o Weldon mete a mão na bola que ressalta no árbitro bate nas costas do guarda-redes e entra. Depois, naturalmente, milhares de benfiquistas sairão à rua um pouco por todo o País, incluindo a bela cidade do Douro.

20/04/2010

os mornos

Léautaud escreveu que o afecto é o amor dos mornos. E a Bíblia diz que Deus vomita os mornos. aqui http://a-leiseca.blogspot.com/ Eu gosto destas frases mas depois fico sempre a pensar, o que é o afecto, como se mede o afecto, é um acto ou uma sequência de actos, é uma atitude, é uma opção de vida, é uma festinha na cabeça, é um beijo na face, é um linguado até às entranhas. Depois o que deus vomita não me interessa para nada.

19/04/2010

fragmento de frio

Porque cegamos No dia que sai connosco, E porque vimos o nosso hálito Embaciar O espelho do ar, A nada se abrirá O olho do ar Senão à palavra Que renunciamos: o inverno Terá sido um espaço De maturidade. Nós que nos tornamos nos mortos De outra vida que não a nossa. Paul Auster

17/04/2010

efeito de estufa

Mas que raio de mundo é este onde por causa de um vulcão que resolveu deitar umas poeiras para o ar fica tudo a queixar-se. São os Srs. Presidentes e afins que não podem viajar, são os turistas amontoados em aeroportos que não vão mas também não chegam mais, são os produtos frescos que se estragam e até são as flores que fenecem, ainda por cima na época dos casamentos vejam só. O mundo realmente anda um pouco para o agitado, antologia do esquecimento: 2012 mas porra que isto não é nada. Então e se fossem 3 vulcões ao mesmo tempo. Somos mesmo umas florzinhas de estufa com mais efeito ou menos. E que tal mais uma imperial e fiquem para mais uma dança ou então ponham os pés a caminho, sempre emagrecem.

é assim

É só a vida, é só um bocado, um bocadinho assim bem inho, um instante como o sol do meio-dia que passa e deixa um travo de água fresca na garganta.

desejos

Como corpos belos de mortos que não envelheceram e estão fechados, com lágrimas, em esplêndida tumba grandiosa, com rosas na cabeça e nos pés jasmim - desse modo parecem os desejos que desapareceram sem serem cumpridos; sem nenhum deles ser dignado assim com uma noite do prazer, ou amanhã dele luminosa. Konstandinos Kavafis

um soneto

Deste fado a um tempo descompensado Na agonia de voltas e tormentos Neste vislumbre de combate e sofrimento Conta-se o perdido e o achado E num vago espaço de entendimento Encontra-se o compasso passado Na voracidade de um minuto chegado Resta a memória e o pensamento E se na ventura se achou o engano e se na acção prevaleceu a liberdade e se na batalha se venceu uma guerra Volta fado a três tempos humano que a agonia também é vontade passado, presente e futuro que encerra. José Paiva

16/04/2010

midletown

Sobes no elevador elevando o corpo mas não os sonhos. Na subida conheces uma pequena mulher Japonesa, saia curta, óculos redondos, sorriso genuinamente feliz, onde procuras numa espécie de inglês a receita da felicidade. Chegas ao cimo sais, despedes-te e ela sorri novamente, atrás as portas fecham-se encerrando com elas uma percepção de felicidade. No cimo do Empire State Building olhando a imensidão da cidade. BRUNO Já viste a imensidão? JACK Sim, visto cá de cima parece-me tudo bastante sereno. BRUNO Sereno? JACK Sim. Tão imenso que as casas não passam de casulos, os carros as asas e as pessoas pequenos insectos. BRUNO O quê? JACK Então não vês? Visto daqui até os carros são quase todos amarelos. Quais abelhinhas para cá e para lá e também alguns zangões pretos. Não vês? Uma mancha amarela vivo confunde-te, não são raios de sol mas indianos, paquistaneses, turcos, mexicanos, colombianos e sei lá que mais, conduzidos pelos táxis amarelo vivo. Bela cor esta que te tira um esgar de sorriso, que perdes rapidamente na mediania indiferente que figuras. BRUNO (ri-se) És louco. (riem-se os dois) JACK (sarcástico) Ovelhas de poderes fictícios, olha ali vai uma negra. Mascaramos a nossa animalidade nesta azáfama. BRUNO (ainda a rir) E tu és o quê? E nós os dois somos o quê? JACK Animais racionais, julgamo-nos inteligentes e não sabemos apreciar a natureza, a única coisa real que temos. Queremos o quê, segurança? BRUNO Sim, porquê não? JACK Olha, porque estamos aqui tão seguros da nossa pseudo-segurança cai um calhau na terra e acabou. Finito. (sorri) BRUNO Um calhau? Essa é boa mas não é novidade, já caíram vários e voltarão a cair, mas entretanto achas que devemos ficar a olhar para o céu à espera do calhau não? JACK I not my dear, I not. BRUNO (sério) Porque não podemos ser só uma massa desconfiada de nós mesmos, devorada por uma razão demasiado consciente. Não disseste que éramos animais, então sejamos animais em toda a nossa bestialidade, comendo, bebendo, mas também rindo, chorando. JACK (interrompe alegre) Fodendo parece-me bem. Onde vamos logo à noite? BRUNO (ri-se) Tu! Voltas ao passeio sem calçada, na apatia és mais um entre muitos, mas sabes que do alto do Empire State Building não foste mais que uma Midletown de ti próprio.

por outro lado

Quando estive a trabalhar nos EUA, sentia-me profundamente dividido entre o dinheiro que ganhava, o prazer que tinha em viver em NY e a necessidade de estar ao pé dos meus filhos, ainda por cima numa fase muito importante na vida de uma criança, neste caso duas. Numa conversa séria que calhou com um tipo com quem até nem existia grande química no relacionamento, um emigrante rabugento já com 30 anos de América, no fim disse-me com as lágrimas nos olhos: "Vim para aqui há 30 anos e só pensei ficar 5 ou 6 anos e voltar, mas, entretanto, quando mais ganhava mais queria ganhar, quanto mais tinha mais queria ter, passaram mais de 30 e ando por aqui, sozinho. Quando vou a Portugal o meu irmão vive numa casa tal como eu, a minha irmã vive numa casa tal como eu, têm carro como eu, comem bem ou melhor que eu e fazem-no em família, enquanto eu estou para aqui sozinho, os meus filhos são adultos e a infância deles não passa de umas memórias retorcidas de meia dúzia de dias passados em férias, agora quero voltar atrás e não posso e quando estou em Portugal sinto-me deslocado". Passado 3 semanas estava a apanhar o avião de regresso a Portugal e o tipo passou a ser o Sr. Cardoso, um dos meus maiores amigos durante o resto da estadia.

dar-me ao trabalho

Existem algumas pessoas que me perguntam porque é que com os meus estudos e experiência profissional ando a vender e entregar congelados. Talvez porque consigo ganhar cerca de 1000 € por mês em 2 dias de trabalho por semana sem aturar patrões, colegas, nem chefes com azia ou talvez porque os empregos a que me candidato na minha área estejam já comidos por filhos, sobrinhos, primos e afins de gente com outros nomes. E emigrar outra vez? This indecision's bugging me

dar-se ao trabalho

Sou quase um vagabundo, sem um tostão. Esta cidade fatal, Antioquia, devorou todo o meu dinheiro: esta cidade fatal com sua vida extravagante. Mas sou jovem e tenho excelente saúde. Prodigioso mestre de grego, conheço Aristóteles e Platão de ponta a ponta, bem como qualquer orador, poeta ou outro autor que se possa mencionar. Em assuntos militares não sou ignorante e tenho amigos entre os funcionários regulares mais velhos. Tenho também um certo conhecimento de questões administrativas. Passei seis meses em Alexandria no último ano; uma coisa que sei (e isto é útil) sobre o que acontece por lá: a corrupção e a sujeira e tudo o resto. Portanto creio que sou inteiramente qualificado para servir este país, minha amada pátria, a Síria. Em qualquer trabalho em que me coloquem me esforçarei para servir meu país. Esse é o meu propósito. Mas, de novo, se me entravarem com seus sistemas – nós os conhecemos, esses sabidos: precisamos falar disso agora? – se me entravarem não será culpa minha. Procurarei Zabinas primeiro, e se aquele idiota não me der valor, irei ao seu rival, Gripos. E se aquele imbecil não me der uma mão, irei imediatamente a Hircano. De qualquer modo, um deles me quererá. E a minha consciência está quieta acerca de minha indiferença à escolha: todos os três são danosos à Síria na mesma extensão. Mas – homem arruinado – não é culpa minha. Estou apenas, pobre diabo, tentando ajeitar as coisas. Os deuses todo-poderosos deviam ter se dado ao trabalho de criar um quarto, um homem honesto. De bom grado eu teria ido até ele. Konstantinus Kavafis

14/04/2010

como se não bastasse

No texto da semanada escrevi como se não bastasse duas vezes quase seguidas. Como se não bastasse não saber escrever bem e como se não bastasse não saber bem onde por as vírgulas, ainda por cima consigo repetir este como se não bastasse bastas vezes. Fónix.
Entre o meio-sono meio-sonho chegaste mansinha e, devagar, pousaste um arco-íris no meu corpo, separaste-me da razão e pintaste-me em sete cores, deste-me o vermelho paixão viva em mim, o laranja fogo em ácido temperado, o amarelo quente e sensual, depois o verde vigoroso da natureza, o azul sonho grave e eterno, o indigo tranquilo e fresco e, por fim, o violeta mistério irresolúvel em que me encontro. Neste meio-sono meio-sonho tu foste a melodia que me despertou.

11/04/2010

semanada

Esta tem sido uma semana de malucos, mais que não seja porque o Benfica não ganhou um jogo, o que só por si torna esta uma semana muito invulgar, mas como se não bastasse, no pouco tempo disponível, ainda consegui reter duas ou três curiosidades que me deixam com bastante fé na humanidade. Em primeiro lugar, continua a saga contra o grande Papa açorda de cu-entrada da Igreja dos Católicos Romanos que também são apostó-li-cus de vocação e alguns só simpatizantes assim de lado. Como se não bastasse, agora surge uma bela rapariga que editou um livro chamado Sim sou Virgem. E então? Esta virgem de 27 anos que edita esta preciosidade, apesar de não ter lido mas assumindo o direito de imaginar, não deve explicar é se a virgindade corresponde só aquela coisinha que as mulheres têm dentro do pipi, tipo aquelas cenas que se colam aos frigoríficos, ou se corresponde a todos os orifícios da menina, porque nestas coisas nunca fiando, até um pensamento pode criar um buraco negro do tamanho do universo. Quem leu que me elucide por favor. Mais ao lado, outra notícia estrondosa foi o facto de uma outra inocente rapariga quase ter asfixiado o namorado no enorme par de balões que tem no lugar das mamas, o que só prova que para atingir o éden nada como uma contida penitência aos pés, ou mãos, ou melhor mamas, nas trombas de um tipo. Claro que ainda temos o congresso do PSD, mas acho que não devemos abusar.

03/04/2010

peso 2

Pesa mais, pesa mesmo mais. Pelo menos na balança.

02/04/2010

peso

O meu Benfica começa a desesperar, ao excelente e dominador futebol sucedem-se falhas incríveis à frente da baliza, e de possíveis goleadas ao Braga e ao Liverpool passa-se a vitoriasinhas difíceis ou comprometedoras. Vamos lá a acertar com a baliza gente. Entretanto, hoje, é dia de orgulho por aqui, o meu puto tem a grande estreia com a camisola do glorioso, vamos lá ver se realmente pesa tanto como dizem.

25/03/2010

ironias

Afinal parece que o Sr. Presidente do FCP goleou o Presidente do meu Benfica nas audiências, e, segundo Ferreira Fernandes no DN, também na ironia requintada que se lhe reconhece há largos anos, mas não será que a curiosidade esteve em ver exactamente como essa ironia começa a ser anedótica, tal como o personagem, é que já era tempo de o FCP se renovar e abrir os horizontes, seria bom para o clube e para o futebol.

Benfica

O meu Benfica, finalmente, voltou a estar à altura do passado e da grandeza que lhe é reconhecida por todos, nos últimos anos até mais pelos adversários do que pelos próprios benfiquistas que dificilmente se reconheciam na forma de estar e ser dos dirigentes nestas atribuladas duas décadas que agora chegam ao fim. Podemos dizer que foram as derrotas, mas, pelo menos para benfiquistas como eu, não foram as derrotas que mais marcaram estes anos negros, mas sim o desnorte, a incompetência, o aproveitamento a que o clube esteve sujeito por parte de várias personalidades. Não serei ingénuo ao ponto de pensar que o Luís Filipe Vieira também não terá interesses pessoais, mais ou menos legítimos, em ser o dirigente máximo do Benfica, mas como essa realidade será sempre indissociável do cargo, aquilo que interessa verdadeiramente é o trabalho realizado, e, aí, a recuperação do clube quer na dimensão nacional como internacional estão à vista. O trabalho de reorganização financeira poderá e deverá ser consolidado com os novos contratos de direitos televisivos e com a venda de 1 ou 2 jogadores para os quais, e muito bem, já existem substitutos à altura, desportivamente a manutenção do treinador é essencial, tal como a manutenção da mesma estrutura directiva em que o profissionalismo é por demais notório, basta ver a forma como reagiu rapidamente a uma muito aguardada e anunciada entrevista de Pinto da Costa à RTP, conseguindo esvaziar por completo um discurso já de si vazio e em que até os portistas mais ferrenhos já não acreditam, senão veja-se, o presidente do FCP disse a palavra Benfica 21 vezes e o nome do seu clube apenas 25, Luís Filipe Vieira deixou-se, finalmente, de instituições e disse a palavra Benfica 84 vezes e FCP apenas 14, das quais algumas nitidamente contrariado mas obrigado pelo entrevistador. Para quem o principal problema era o discurso, esta licção de marketing comunicacional é uma vitória quase tão saborosa como o campeonato. Enquanto os outros forem dizendo a palavra Benfica tanto ou mais que o nome dos próprios clubes estamos bem, venham mais entrevistas do Sr. Pinto da Costa.

rosas em mar de espinhos

Quero-te como se não existisse amanhã, quero-te como se ontem fosse um pedaço de chão que cultivei, quero-te como se hoje fosse o tempo que não controlo, quero-te como se agora fosse o momento em que me perco. Assim, só admito estar ao pé de ti, sempre e só junto a ti, se te puder beijar os lábios, acariciar o palato com a língua e conhecer todas as palavras na troca da saliva que fazemos, transformar o teu corpo num abraço de querer como só eu sei fazer. E respirar. Respirar o cheiro que sentia a fome, feito na pele da pele que cheirava, e, também, o sexo claro, porque teu, e, finalmente, saciar-me na recompensa da tua capacidade de acolhimento, piscares-me um olho cúmplice, sorrires e receber o meu amor, todo. Porque esta é única existência que quero, porque a vida não é um mar de rosas e ainda bem, porque os espinhos aleijam.

24/03/2010

parlamedeiros

http://www.ionline.pt/conteudo/52304-viagens-ines-medeiros-eu-e-que-nao-as-pago Para alguns, só as viagens para o trabalho já davam para pagar mais do que um café por dia.

monopólio

E não, não é a política que é como jogar o Monopólio, é tudo. http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2010/03/jogar-monopolio.html

grande notícia do dia

Recusados 58 mil postos de trabalho nos centros de emprego espalhados por Portugal. Destes 58 mil, conheço alguns casos, uma amiga chamaram-na para um curso de culinária com estágio imediato e emprego, era engenheira alimentar com um mestrado qualquer na área e alguns anos de trabalho também na área, há poucos meses um amigo meu que era designer na Maxmen (agora é feita em Espanha) entrou no desemprego com um subsídio de 1400 €, tem tido algumas propostas de trabalho na ordem dos 600 €, menos do dobro, a mim chamaram-me para trabalhar nos armazéns, reposição ou lá o que era, num novo hipermercado que ia abrir para os lados de Setúbal, eu até me estou a cagar para os cursos e experiência profissional que tenho, mas um ordenado que, descontando transporte e alimentação, mal me daria para um café por dia não me estimularam por ai além. Conheço mais casos mas são todos parecidos. O grande empresário de nome Belmiro diz que consegue 2000 postos de trabalho se os hipermercados abrirem ao domingo, extraordinário, ficamos com os problemas deste cantinho resolvidos, enfiamos 2000 pessoas a ganharem uma miséria num espaço onde se vendem produtos estrangeiros a portugueses que mal conseguem pagar a hipoteca da casa. Venham mais empresários destes que nós gostamos.