20/01/2011

começar

Estragon Enquanto esperamos podemos tentar conversar calmamente, já que somos incapazes de ficar calados. Vladimir Tens razão, somos inesgotáveis. Estragon É para não pensarmos. Vladimir Temos essa desculpa. Estragon É para não ouvirmos. Vladimir Temos as nossas razões. Estragon Todas as vozes mortas. Vladimir Fazem um barulho de asas. Estragon De folhas. Vladimir De areia. Estragon De folhas. Vladimir Falam todas ao mesmo tempo. Estragon Cada uma para si. Vladimir Ou melhor, sussurram. Estragon Ciciam. Vladimir Murmuram. Estragon Ciciam. Vladimir O que é que elas dizem? Estragon Falam das suas vidas. Vladimir Não lhes chega ter vivido. Estragon Têm de falar sobre isso. Vladimir Não lhes chega estar mortas. Estragon Não é suficiente. Vladimir Fazem um barulho de penas. Estragon De folhas. Vladimir De cinzas. Estragon De folhas. Silêncio Vladimir Diz alguma coisa! Estragon Estou a tentar. Longo silêncio Vladimir (angustiado) Diz qualquer coisa, não interessa o quê! Estragon O que é que fazemos agora? Vladimir Esperamos pelo Godot. Estragon Ah, pois é. Silêncio Vladimir Isto é horrível! Estragon Canta qualquer coisa. Vladimir Não, não! (Pensa) Talvez pudéssemos começar tudo outra vez. Estragon Isso era fácil. Vladimir O começo é que é difícil. À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001

10/01/2011

last rite

Queres um anjo antes do tempo e saber se vem num tempo que começa ou num tempo que acaba. Queres que chorem a perda com uma dor de alma e subir, como que pairando noutra dimensão, por sobre eles. Queres que te levem, o fim do Céu e do Inferno, dizes, e que a tua memória perdure numa expressão qualquer. No fim queres ter fé como aconchego, mas como é possível se não viveste assim. Angel calls on me set to take me out, angel with no face. the end of the line; beginning of time, a matter of faith. I see all my friends from distance afar on another plane, mourning over me: a sickness of heart a sense of betrayal. have you seen the twilight close so slow. (I rose over them so light). Men in black suits dressed cold soft wood and marble silk, to take me away. No heaven or hell. the memory behind lingers on a face. have you seen the twilight close so slow. (I rose over them so light).

31/12/2010

bom ano

Uma lição entre o minuto 5.11 e o 5.25

28/12/2010

natal

Que se foda o Natal mais a caridade com prazo de validade e as campanhas para ajudar aqueles que prejudicaram o ano inteiro, que se fodam os brindes, as ofertas, as promoções, os presentes, o trabalhinho a prazo. Que se foda a virgem para ver se consegue parir alguma coisa de jeito.

ifoda-se

O Media Market de Alfragide fez uma promoção de 3 horas sem IVA para celebrar os 3 anos de actividade. Vi que o mesmo se passou em Londres e na Austrália, claro que aqui tem sempre pormenores peculiares inerentes ao ser portuga como afinal só receberem um vale de desconto no valor do IVA para futuras compras, mas o resultado é parecido. Isto é o que temos numa sociedade com mais jornais, telejornais, internet com blogs, facebooks, telemóveis artilhados, ipods, ipads e ifoda-se que não quero viver neste mundo. Pelo menos podemos dizer, orgulhosamente, que é como no estrangeiro.

26/12/2010

o homem teórico

Sempre pensei que o mundo devia ser plano e navegasse pelo universo. Como um barco fantasma à deriva pelo espaço, sem tempo, sem mitos, sem deuses, sem conceitos nem precisões. A justiça embrulhada num papel largado ao vento, o pensamento atirado para uma lua qualquer, a filosofia transformada em estrume para adubar a terra e o sonho a noção premente de continuar a navegar. Mas não é. Neste ideal ganho a noção das dores que me afligem e, como um passo trocado, fico com comichão nas virilhas. Cravo as unhas e coço, mas quanto mais coço mais cresce, este sentimento inútil da inutilidade, esta inutilidade inútil do sentimento e da comichão que não acaba. Então, continuo a coçar até a carne ficar rosada, quanto mais coço mais vivo fico, quanto mais vivo fico mais vermelho estou, um fio de sangue desafia-me. Olho-te pasmado e sigo-te o caminho, vejo a trajectória e procuro um sentido, observo-te, analiso-te, estudo-te e recolho a informação. Insiro e processo todos os dados, cientificamente, entre todas as possibilidades apenas concluo que a comichão não me passou. Só espero que não me passe para os colhões.

23/12/2010

outra metade

O fracasso começa quando somos o primeiro a chegar ao útero.

21/12/2010

metades

- O fracasso? - Sim o fracasso. - Não sei. Talvez as marcas que se sentem no olhar.

15/12/2010

formidável mundo português

A minha filha acabou o 12.º ano e resolveu começar a trabalhar para pagar os estudos, opção que muito me apraz. O problema é que estamos em Portugal e, infelizmente, a Mafalda, que não percebia como é que eu não consigo emprego, rapidamente percebeu como funcionam as coisas neste cantinho acanhado. Depois de procurar, lá recebeu uma resposta, há cerca de 2 meses, para promotora da ZON, coisas novas (produtos) para o maravilhoso natal, contrato só de 2 meses com a possibilidade de renovação (tanga), um ordenado razoável no que é um ordenado razoável em Portugal, uma merda, mas enfim. Entretanto, era suposto começar no início de Dezembro mas foi sendo adiado, nisto começou a ter formação, deram-lhe umas roupas e sapatos género "Espaço 1999", comprar passe, comer qualquer coisa, etc., o dinheiro começa a sair. Ontem, véspera de começar, ou seja um dia antes, 24 horas, telefonam a dizer que tinham gente a mais, talvez porque a Mafalda não se deixou ficar, lá disseram para ela ir trabalhar mas que tinha de fazer um exame médico às 15 h, isto às 11 da manhã, impossível estava a fazer de ama a um bebé, após mais uma ronda de muita negociação a miúda conseguiu que marcassem o médico para outro dia. Hoje, já me telefonou a pedir para lhe levar dinheiro ou comida, é que era suposto trabalhar até às 16 h. mas vai ter de ficar até à meia-noite. Será que vão pagar as horas a mais? Até começar a trabalhar já gastou cerca de 150 euros, com o que ainda vai gastar em alimentação, quando receber o primeiro ordenado, o que sobra deve dar para meia renda de casa. Ainda querem mais flexibilização, é que já parecemos aqueles artistas de circo que se enrolam todos neste rectângulo com cara de parvo a ocidente virado. Não é formidável este Portugal.

07/12/2010

sofrimento

Aquela coisa do sofrimento foi uma brincadeira com as duas velhotas simpáticas que até serviu para as deixar mais bem dispostas. Felizmente só sofro de umas caganeiras quando a ansiedade aperta, nada que um chá de camomila ou outra paneileirice parecida não resolva e, no fundo, até era capaz de dar o meu dedo mindinho do pé esquerdo pela humanidade, com jeito talvez até o direito, com muito jeito talvez até mais qualquer coisa.

06/12/2010

testemunhas

Vinha de uma entrevista de merda para um emprego de merda e, nem a propósito, duas velhotas muito amorosas abordaram-me na rua para me dar este folheto. Todo Sofrimento ACABARÁ EM BREVE Em algum momento na vida, você provavelmente já se perguntou “Por que há tanto sofrimento?” Há milhares de anos, o homem vem sofrendo, muito devido a guerras, pobreza, calamidades, violência, injustiça, doenças e morte. Nunca houve tanto sofrimento como nos últimos cem anos. Será que um dia isso tudo vai acabar? Este primeiro parágrafo não é maravilhoso? Mas o melhor é que eles dizem que sim, o sofrimento vai acabar, e é em breve, ainda lhes disse que hoje me dava jeito, riram-se e disseram que não era o meu era o da humanidade, eu respondi, tá certo adeus e felicidades.

dezembro

Que se foda o Natal mais a caridade com prazo de validade e as campanhas para ajudar aqueles que prejudicaram o ano inteiro, que se foda os brindes, as ofertas, as promoções, os presentes, o trabalhinho a prazo mais os ordenados de merda. Que se foda a virgem para ver se consegue parir alguma coisa de jeito.

28/10/2010

um maluco em qualquer lugar

Mas, depois, pensaste conhecer o amor e a distância do mundo esbateu-se, começaste a ser a pele, começaste a ser corpo, começaste a ser gente. E sentias tudo, todo o tempo. E dominavas tudo, todo o espaço. Agora pensas dizer adeus e voltar ao princípio mas está tudo ao contrário.

caribou

27/10/2010

distraídos

Continuamos em grande, quase ninguém nota mas continuamos em grande. Há 3 semanas que praticamente não consigo vender um croquete, pastel ou chamuça, os clientes dizem-me que nem o meu produto nem outros, não se vende, até a pão vai para o lixo. Entretanto, o meu vizinho de baixo, amargurado com problemas pessoais graves, convida-me para um whiskey, uma garrafa cheia de pó mas com um líquido excelente começa a escorrer para os copos. Lançado, mais pela amargura do que pelo líquido, conta-me que no fim-de-semana foi para uma caçada numa herdade qualquer para a beira interior, homem simples foi com algum espanto que vê chegar um helicoptoro com alguns administradores do BES, mas, mais espanto ainda, quando ao primeiro se sucede o segundo, o terceiro, o quarto e até um quinto, não só com mais administradores ou coisa que os valha, mais umas meninas de mini-saia com enormes caixas cheias de camarão, navalheiras, lagostas e sei lá que mais. Depois mostrou-me uns papéis com umas contas que ia abrir para os filhos exactamente no BES e rasgou-os, disse que ficou enojado com o que viu dizendo que tem a 4.ª classe mas não é parvo. Pena será que os outros onde irá pôr o dinheiro são massa da mesma farinha. Depois, vou ao Hospital ver um amigo ao qual rebentou uma úlcera e nem um lugar para estacionar o carro, nem pago, quando vou à merda do Fórum Almada para ir ao cinema tenho sempre lugares para dar e vender à borla e começo a pensar que realmente este País está bem, do melhor até, alguns de nós é que andam distraídos.