28/01/2011

A dança das feridas

Encomendas ver aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2011/01/danca-das-feridas-3.html Um dos poemas do livro Adão a Eva não temas a trovoada o aconchego do relâmpago senti-la aqui tão perto é um regalo a poucos concedido se a casa tremer lembra-te que não é de medo nem do frio das paredes as casas só tremem porque estão de pé fundadas na terra que recebe as ossadas dos relâmpagos as trovoadas não temas os mortos nem o aconchego dos vivos nem deixes morrer nos vivos as trovoadas que fazem tremer as casas

27/01/2011

mazgani

A não perder Sábado no Fórum Romeu Correia - Almada 21.30

25/01/2011

loucura

Gostavas que a loucura te arrancasse do torpor dos dias e trouxesse, embalada em papel colorido, as rugas da carne feitas num tempo e num espaço que nem lembras. Olhares e leres em cada pedaço uma letra, uma palavra, uma frase, uma história, um gesto perdido.

louco eu?

Vladimir Só sei que nestas condições as horas duram mais e nos obrigam a iludi-las com actividades que – como é que hei-de dizer – que poderão parecer à primeira vista razoáveis, até se tornarem num hábito. Poderá dizer que é para evitar o colapso da nossa razão. Sem dúvida. Mas será que não anda ela há já muito a vaguear pela noite sem fim das profundezas abissais? É isso que por vezes me pergunto. Estás a seguir o meu raciocínio? Estragon Todos nós nascemos loucos. Alguns mantêm-se. À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001

21/01/2011

o homem trágico

Sempre pensei que a vida devia ser uma tragédia constante. Como um vai que não vai que fica do lado contrário onde se vai estando, onde se quer, se deseja, se constrói, se luta, se existe e, sobretudo, se destrói. A salvação dentro de um tupperware rasca oferecido à vizinha do lado, o espírito solto ao vento num dia de tempestade, a razão batida em claras de ovo servida aos chacais e a vontade o destino final de cada acção. Mas não é. Nesta certeza tenho a consciência das mágoas que sou e faço, e, como um meio em que me fico, por vezes falta-me o ar. Então, no lado certo do passeio diz: Acabe com o seu sofrimento. Eu digo está bem. Já hoje? Quanto custa? Uma montanha de consciência, um balúrdio de negação, uns theras de individualidade, umas pitadas de necessidade, um molho de redenção, gigas de prazer, e, por fim, um universo de aceitação. Começo a rir e penso que é capaz de ser um pouco caro, procuro nos bolsos mas só encontro inquietação, da carteira salta um monte de desassossego. Nesta azáfama tropeço na calçada bato com a cabeça e morro, com um sorriso na cara.

20/01/2011

anibalices

Parece que Portugal não tem dinheiro para a democracia, segundo o candidato que não lia jornais, nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, que não é político nem se dá com eles, que gosta mesmo é de dar aulas, auto-estradas, bolo-rei, estar de pantufas, dar miminhos aos netos, à Maria e aos amigalhaços do BPN (um português exemplar este), uma hipotética segunda volta traria muitos custos ao País. No fundo o Sr. gostava mesmo era de ser nomeado, agora esta coisa de eleições, gastar papel, canetas e o bom tempo dos bons portugueses como ele claro. Aqui: http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=9535

começar

Estragon Enquanto esperamos podemos tentar conversar calmamente, já que somos incapazes de ficar calados. Vladimir Tens razão, somos inesgotáveis. Estragon É para não pensarmos. Vladimir Temos essa desculpa. Estragon É para não ouvirmos. Vladimir Temos as nossas razões. Estragon Todas as vozes mortas. Vladimir Fazem um barulho de asas. Estragon De folhas. Vladimir De areia. Estragon De folhas. Vladimir Falam todas ao mesmo tempo. Estragon Cada uma para si. Vladimir Ou melhor, sussurram. Estragon Ciciam. Vladimir Murmuram. Estragon Ciciam. Vladimir O que é que elas dizem? Estragon Falam das suas vidas. Vladimir Não lhes chega ter vivido. Estragon Têm de falar sobre isso. Vladimir Não lhes chega estar mortas. Estragon Não é suficiente. Vladimir Fazem um barulho de penas. Estragon De folhas. Vladimir De cinzas. Estragon De folhas. Silêncio Vladimir Diz alguma coisa! Estragon Estou a tentar. Longo silêncio Vladimir (angustiado) Diz qualquer coisa, não interessa o quê! Estragon O que é que fazemos agora? Vladimir Esperamos pelo Godot. Estragon Ah, pois é. Silêncio Vladimir Isto é horrível! Estragon Canta qualquer coisa. Vladimir Não, não! (Pensa) Talvez pudéssemos começar tudo outra vez. Estragon Isso era fácil. Vladimir O começo é que é difícil. À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001

10/01/2011

last rite

Queres um anjo antes do tempo e saber se vem num tempo que começa ou num tempo que acaba. Queres que chorem a perda com uma dor de alma e subir, como que pairando noutra dimensão, por sobre eles. Queres que te levem, o fim do Céu e do Inferno, dizes, e que a tua memória perdure numa expressão qualquer. No fim queres ter fé como aconchego, mas como é possível se não viveste assim. Angel calls on me set to take me out, angel with no face. the end of the line; beginning of time, a matter of faith. I see all my friends from distance afar on another plane, mourning over me: a sickness of heart a sense of betrayal. have you seen the twilight close so slow. (I rose over them so light). Men in black suits dressed cold soft wood and marble silk, to take me away. No heaven or hell. the memory behind lingers on a face. have you seen the twilight close so slow. (I rose over them so light).

31/12/2010

bom ano

Uma lição entre o minuto 5.11 e o 5.25

28/12/2010

natal

Que se foda o Natal mais a caridade com prazo de validade e as campanhas para ajudar aqueles que prejudicaram o ano inteiro, que se fodam os brindes, as ofertas, as promoções, os presentes, o trabalhinho a prazo. Que se foda a virgem para ver se consegue parir alguma coisa de jeito.

ifoda-se

O Media Market de Alfragide fez uma promoção de 3 horas sem IVA para celebrar os 3 anos de actividade. Vi que o mesmo se passou em Londres e na Austrália, claro que aqui tem sempre pormenores peculiares inerentes ao ser portuga como afinal só receberem um vale de desconto no valor do IVA para futuras compras, mas o resultado é parecido. Isto é o que temos numa sociedade com mais jornais, telejornais, internet com blogs, facebooks, telemóveis artilhados, ipods, ipads e ifoda-se que não quero viver neste mundo. Pelo menos podemos dizer, orgulhosamente, que é como no estrangeiro.

26/12/2010

o homem teórico

Sempre pensei que o mundo devia ser plano e navegasse pelo universo. Como um barco fantasma à deriva pelo espaço, sem tempo, sem mitos, sem deuses, sem conceitos nem precisões. A justiça embrulhada num papel largado ao vento, o pensamento atirado para uma lua qualquer, a filosofia transformada em estrume para adubar a terra e o sonho a noção premente de continuar a navegar. Mas não é. Neste ideal ganho a noção das dores que me afligem e, como um passo trocado, fico com comichão nas virilhas. Cravo as unhas e coço, mas quanto mais coço mais cresce, este sentimento inútil da inutilidade, esta inutilidade inútil do sentimento e da comichão que não acaba. Então, continuo a coçar até a carne ficar rosada, quanto mais coço mais vivo fico, quanto mais vivo fico mais vermelho estou, um fio de sangue desafia-me. Olho-te pasmado e sigo-te o caminho, vejo a trajectória e procuro um sentido, observo-te, analiso-te, estudo-te e recolho a informação. Insiro e processo todos os dados, cientificamente, entre todas as possibilidades apenas concluo que a comichão não me passou. Só espero que não me passe para os colhões.

23/12/2010

outra metade

O fracasso começa quando somos o primeiro a chegar ao útero.

21/12/2010

metades

- O fracasso? - Sim o fracasso. - Não sei. Talvez as marcas que se sentem no olhar.

15/12/2010

formidável mundo português

A minha filha acabou o 12.º ano e resolveu começar a trabalhar para pagar os estudos, opção que muito me apraz. O problema é que estamos em Portugal e, infelizmente, a Mafalda, que não percebia como é que eu não consigo emprego, rapidamente percebeu como funcionam as coisas neste cantinho acanhado. Depois de procurar, lá recebeu uma resposta, há cerca de 2 meses, para promotora da ZON, coisas novas (produtos) para o maravilhoso natal, contrato só de 2 meses com a possibilidade de renovação (tanga), um ordenado razoável no que é um ordenado razoável em Portugal, uma merda, mas enfim. Entretanto, era suposto começar no início de Dezembro mas foi sendo adiado, nisto começou a ter formação, deram-lhe umas roupas e sapatos género "Espaço 1999", comprar passe, comer qualquer coisa, etc., o dinheiro começa a sair. Ontem, véspera de começar, ou seja um dia antes, 24 horas, telefonam a dizer que tinham gente a mais, talvez porque a Mafalda não se deixou ficar, lá disseram para ela ir trabalhar mas que tinha de fazer um exame médico às 15 h, isto às 11 da manhã, impossível estava a fazer de ama a um bebé, após mais uma ronda de muita negociação a miúda conseguiu que marcassem o médico para outro dia. Hoje, já me telefonou a pedir para lhe levar dinheiro ou comida, é que era suposto trabalhar até às 16 h. mas vai ter de ficar até à meia-noite. Será que vão pagar as horas a mais? Até começar a trabalhar já gastou cerca de 150 euros, com o que ainda vai gastar em alimentação, quando receber o primeiro ordenado, o que sobra deve dar para meia renda de casa. Ainda querem mais flexibilização, é que já parecemos aqueles artistas de circo que se enrolam todos neste rectângulo com cara de parvo a ocidente virado. Não é formidável este Portugal.