02/03/2011
rosas em mar de espinhos
Quero-te como se não existisse amanhã,
quero-te como se ontem fosse um pedaço de chão que cultivei,
quero-te como se hoje fosse o tempo que não controlo,
quero-te como se agora fosse o momento em que me perco.
Assim,
só admito estar ao pé de ti,
sempre e só junto a ti,
se te puder beijar os lábios,
acariciar o palato com a língua,
conhecer todas as palavras na troca da saliva que fazemos,
transformar o teu corpo num abraço de querer
e respirar
o cheiro que sente a fome,
feito na pele da pele que cheira,
e,
também,
o sexo claro,
porque teu,
e,
finalmente,
saciar-me na recompensa da tua capacidade de acolhimento.
Depois,
piscares-me um olho cúmplice,
sorrires e receberes o meu amor,
todo.
Porque esta é existência que quero,
porque tu és a existência que desejo,
porque a vida não é um mar de rosas,
ainda bem porque os espinhos aleijam.
serei
Serei uma planície vasta e serena
uma montanha que rasga o céu
uma frase longa ou pequena
uma metáfora que o desejo deu
Serei como as pedras por onde passo
ou como o vento que corre
serei um espírito devasso
um corpo inerte que não morre
Serei uma árvore robusta em flor
um fruto pronto a ser colhido
uma mente atormentada de dor
num sonho que foi esquecido
Serei um muro que não deixa ver
ou janelas transparentes
serei uma alma sem querer
lágrimas que caiem indiferentes
Serei uma raiz que brota da terra
uma semente que tarda em nascer
uma vida que só encerra
esta mágoa que teima em viver
Serei como uma rocha intransponível
ou como o mar violento
serei um som seco, inaudível
canções trazidas pelo vento
Serei uma palavra desalinhada
ou uma simples frase batida
serei algo parecido com nada
o primeiro dia do resto da vida
Serei um gesto desordenado
uma expressão grave e triste
serei um futuro continuado
uma pessoa que desiste
Serei um texto mal acabado
ou o princípio de uma linha
serei um livro estragado
uma folha que definha
Serei como um grito estridente
ou como um sussurro inquietante
serei uma estrela cadente
um simples vagabundo errante
Serei um romance sem história
um clássico sempre eterno
serei o altar e a glória
uma descida ao inferno
Serei como a carne a gretar
ou como a pela macia
serei o mundo por amar
uma alma escura e sombria
Serei um vulcão explodindo
um deserto imenso, vazio
serei um deus terno rindo
um pensamento duro e frio
Serei como a raiva de um poema
ou como a fúria de um touro
serei só um sentido de pena
de não saber o que é ouro?
uma montanha que rasga o céu
uma frase longa ou pequena
uma metáfora que o desejo deu
Serei como as pedras por onde passo
ou como o vento que corre
serei um espírito devasso
um corpo inerte que não morre
Serei uma árvore robusta em flor
um fruto pronto a ser colhido
uma mente atormentada de dor
num sonho que foi esquecido
Serei um muro que não deixa ver
ou janelas transparentes
serei uma alma sem querer
lágrimas que caiem indiferentes
Serei uma raiz que brota da terra
uma semente que tarda em nascer
uma vida que só encerra
esta mágoa que teima em viver
Serei como uma rocha intransponível
ou como o mar violento
serei um som seco, inaudível
canções trazidas pelo vento
Serei uma palavra desalinhada
ou uma simples frase batida
serei algo parecido com nada
o primeiro dia do resto da vida
Serei um gesto desordenado
uma expressão grave e triste
serei um futuro continuado
uma pessoa que desiste
Serei um texto mal acabado
ou o princípio de uma linha
serei um livro estragado
uma folha que definha
Serei como um grito estridente
ou como um sussurro inquietante
serei uma estrela cadente
um simples vagabundo errante
Serei um romance sem história
um clássico sempre eterno
serei o altar e a glória
uma descida ao inferno
Serei como a carne a gretar
ou como a pela macia
serei o mundo por amar
uma alma escura e sombria
Serei um vulcão explodindo
um deserto imenso, vazio
serei um deus terno rindo
um pensamento duro e frio
Serei como a raiva de um poema
ou como a fúria de um touro
serei só um sentido de pena
de não saber o que é ouro?
15/02/2011
o homem pragmático
Sempre pensei que toda a acção devia ser pragmática.
Como uma linha que serve apenas para transportar comboios,
que nos levam daqui para ali e dali para aqui,
sempre com um objectivo bem definido.
As teorias comprimidas no ferro dos carris,
o certo e o errado ultrapassado na velocidade da viagem,
o pluralismo só mais um ismo que devoramos na passagem
e a utilidade a verdade como um facto real.
Mas não é.
Nesta jornada carrego mil pesos e uma chama que me deixam prostrado,
e, como uma ficção sem sentido, sinto o corpo a arder.
Procuro o meio mais eficaz de baixar este sobreaquecimento,
o intelecto e a energia ao serviço da condição humana,
a eficiência a ciência que salta sobre um fatalismo estéril.
Recorro à lógica e deito-me numa banheira de água fria,
a temperatura começa a baixar imediatamente,
nesta voragem pragmática os pés ficam dormentes,
depois as pernas, o tronco, os braços, as mãos.
Lentamente, começo a esquecer o corpo,
pedaço de carne que transporto,
daqui para ali dali para aqui,
mas nunca para todo o lado.
Nesta inércia gelada perco a noção de tudo menos da febre que me consome.
Como uma linha que serve apenas para transportar comboios,
que nos levam daqui para ali e dali para aqui,
sempre com um objectivo bem definido.
As teorias comprimidas no ferro dos carris,
o certo e o errado ultrapassado na velocidade da viagem,
o pluralismo só mais um ismo que devoramos na passagem
e a utilidade a verdade como um facto real.
Mas não é.
Nesta jornada carrego mil pesos e uma chama que me deixam prostrado,
e, como uma ficção sem sentido, sinto o corpo a arder.
Procuro o meio mais eficaz de baixar este sobreaquecimento,
o intelecto e a energia ao serviço da condição humana,
a eficiência a ciência que salta sobre um fatalismo estéril.
Recorro à lógica e deito-me numa banheira de água fria,
a temperatura começa a baixar imediatamente,
nesta voragem pragmática os pés ficam dormentes,
depois as pernas, o tronco, os braços, as mãos.
Lentamente, começo a esquecer o corpo,
pedaço de carne que transporto,
daqui para ali dali para aqui,
mas nunca para todo o lado.
Nesta inércia gelada perco a noção de tudo menos da febre que me consome.
11/02/2011
a necessidade
Prometeu
Nem virá sobre mim nenhum sofrimento imprevisto. Preciso é suportar o mais facilmente possível o que foi marcado pelo destino, pois bem sei que a força da Necessidade é inexpugnável.
O destino, que tudo acaba, ainda não determinou pôr termo a isto, mas, depois de vergar ao peso de mil sofrimentos e calamidades, eu fugirei a estas cadeias. O engenho é, de longe, mais fraco do que a Necessidade.
Corifeu
Quem governa a Necessidade?
Prometeu Agrilhoado – Ésquilo
o homem lírico
Gostava que a palavra fosse sempre um poema.
Como um verso cruzado, emparelhado, interpolado, encadeado, esfolado,
numa rima solta e a lua como pano de fundo,
mais ou menos assim:
procura o refúgio na tempestade
nos ventos que são tornados
na lua a eternidade
e as palavras que são achados.
Mas não é.
Neste caminho troco os passos no ritmo que desafina,
e, como uma nota deslocada, tusso a meio do pensamento.
As emoções exprimem-se como um catarro descontrolado,
o eu mais interior que se abre ao universo físico,
espiritual também, com a alma e o karma dentro e tudo.
A existência em todo o seu esplendor glorificado
e a insignificância o sentimento que a tosse acorda,
e cospe assim:
oh tempo que desatina
num frio que faz tremer
neste catarro que ensina
que às vezes a dor faz doer.
Neste divagar perco o meu eu interior,
os meus pensamentos mais íntimos.
Resta-me a esperança que a constipação passe.
08/02/2011
um dia
Vladimir
O que é que vão fazer quando caírem onde não estiver ninguém para vos ajudar?
Pozzo
Esperamos até nos conseguirmos levantar. E depois continuamos. A andar!
Vladimir
Antes de se ir embora, diga-lhe para ele cantar!
Pozzo
Quem?
Vladimir
O Lucky.
Pozzo
Cantar?
Vladimir
Sim. Ou para pensar. Ou para recitar.
Pozzo
Mas ele é mudo!
Vladimir
Mudo!
Pozzo
Mudo. Nem sequer é capaz de gemer.
Vladimir
Mudo! Desde quando?
Pozzo
Ainda não acabou de me atormentar com o raio do seu tempo?! É abominável! Quando! Quando! Um dia, não lhe chega, um dia como qualquer outro dia, um dia ele ficou mudo, um dia eu fiquei cego, um dia vamos ficar surdos, um dia nascemos, um dia vamos morrer, o mesmo dia, o mesmo segundo, não lhe chega? Dão à luz montados num túmulo, o dia brilha por um instante, e depois fica outra vez noite. A andar!
À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001
02/02/2011
31/01/2011
campeões
30/01/2011
a música
No Fórum Romeu Correia em Almada, num grande concerto com grandes músicas, para mim esta foi a música.
28/01/2011
coisas que me deixam contente
As 6 biscas que o Miguel mandou para dentro da baliza do Sporting. No Almada, em 12 anos de andebol, raramente ganhei ao Sporting, o puto em 3 anos já leva 5 vitórias e nenhuma derrota sobre os lagartos, não sendo a mesma coisa não deixa de ser fixe.
Esta época ainda não perderam, tal como o Belenenses, amanhã jogo decisivo em Belém, os pastéis não são nada fáceis de digerir.
Esta época ainda não perderam, tal como o Belenenses, amanhã jogo decisivo em Belém, os pastéis não são nada fáceis de digerir.
A dança das feridas
27/01/2011
25/01/2011
loucura
Gostavas que a loucura te arrancasse do torpor dos dias e trouxesse, embalada em papel colorido, as rugas da carne feitas num tempo e num espaço que nem lembras. Olhares e leres em cada pedaço uma letra, uma palavra, uma frase, uma história, um gesto perdido.
louco eu?
Vladimir
Só sei que nestas condições as horas duram mais e nos obrigam a iludi-las com actividades que – como é que hei-de dizer – que poderão parecer à primeira vista razoáveis, até se tornarem num hábito. Poderá dizer que é para evitar o colapso da nossa razão. Sem dúvida. Mas será que não anda ela há já muito a vaguear pela noite sem fim das profundezas abissais? É isso que por vezes me pergunto. Estás a seguir o meu raciocínio?
Estragon
Todos nós nascemos loucos. Alguns mantêm-se.
À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001
21/01/2011
o homem trágico
Sempre pensei que a vida devia ser uma tragédia constante.
Como um vai que não vai que fica do lado contrário onde se vai estando,
onde se quer, se deseja, se constrói,
se luta, se existe e, sobretudo, se destrói.
A salvação dentro de um tupperware rasca oferecido à vizinha do lado,
o espírito solto ao vento num dia de tempestade,
a razão batida em claras de ovo servida aos chacais
e a vontade o destino final de cada acção.
Mas não é.
Nesta certeza tenho a consciência das mágoas que sou e faço,
e, como um meio em que me fico, por vezes falta-me o ar.
Então, no lado certo do passeio diz:
Acabe com o seu sofrimento.
Eu digo está bem.
Já hoje?
Quanto custa?
Uma montanha de consciência, um balúrdio de negação,
uns theras de individualidade, umas pitadas de necessidade,
um molho de redenção, gigas de prazer,
e, por fim, um universo de aceitação.
Começo a rir e penso que é capaz de ser um pouco caro,
procuro nos bolsos mas só encontro inquietação,
da carteira salta um monte de desassossego.
Nesta azáfama tropeço na calçada bato com a cabeça e morro,
com um sorriso na cara.
20/01/2011
anibalices
Parece que Portugal não tem dinheiro para a democracia, segundo o candidato que não lia jornais, nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, que não é político nem se dá com eles, que gosta mesmo é de dar aulas, auto-estradas, bolo-rei, estar de pantufas, dar miminhos aos netos, à Maria e aos amigalhaços do BPN (um português exemplar este), uma hipotética segunda volta traria muitos custos ao País.
No fundo o Sr. gostava mesmo era de ser nomeado, agora esta coisa de eleições, gastar papel, canetas e o bom tempo dos bons portugueses como ele claro.
Aqui: http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=9535
começar
Estragon
Enquanto esperamos podemos tentar conversar calmamente, já que somos incapazes de ficar calados.
Vladimir
Tens razão, somos inesgotáveis.
Estragon
É para não pensarmos.
Vladimir
Temos essa desculpa.
Estragon
É para não ouvirmos.
Vladimir
Temos as nossas razões.
Estragon
Todas as vozes mortas.
Vladimir
Fazem um barulho de asas.
Estragon
De folhas.
Vladimir
De areia.
Estragon
De folhas.
Vladimir
Falam todas ao mesmo tempo.
Estragon
Cada uma para si.
Vladimir
Ou melhor, sussurram.
Estragon
Ciciam.
Vladimir
Murmuram.
Estragon
Ciciam.
Vladimir
O que é que elas dizem?
Estragon
Falam das suas vidas.
Vladimir
Não lhes chega ter vivido.
Estragon
Têm de falar sobre isso.
Vladimir
Não lhes chega estar mortas.
Estragon
Não é suficiente.
Vladimir
Fazem um barulho de penas.
Estragon
De folhas.
Vladimir
De cinzas.
Estragon
De folhas.
Silêncio
Vladimir
Diz alguma coisa!
Estragon
Estou a tentar.
Longo silêncio
Vladimir
(angustiado) Diz qualquer coisa, não interessa o quê!
Estragon
O que é que fazemos agora?
Vladimir
Esperamos pelo Godot.
Estragon
Ah, pois é.
Silêncio
Vladimir
Isto é horrível!
Estragon
Canta qualquer coisa.
Vladimir
Não, não! (Pensa) Talvez pudéssemos começar tudo outra vez.
Estragon
Isso era fácil.
Vladimir
O começo é que é difícil.
À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001
14/01/2011
10/01/2011
last rite
Queres um anjo antes do tempo e saber se vem num tempo que começa ou num tempo que acaba. Queres que chorem a perda com uma dor de alma e subir, como que pairando noutra dimensão, por sobre eles. Queres que te levem, o fim do Céu e do Inferno, dizes, e que a tua memória perdure numa expressão qualquer.
No fim queres ter fé como aconchego, mas como é possível se não viveste assim.
Angel calls on me
set to take me out,
angel with no face.
the end of the line;
beginning of time,
a matter of faith.
I see all my friends
from distance afar
on another plane,
mourning over me:
a sickness of heart
a sense of betrayal.
have you seen the twilight close so slow.
(I rose over them so light).
Men in black suits dressed
cold soft wood and marble silk,
to take me away.
No heaven or hell.
the memory behind lingers on a face.
have you seen the twilight close so slow.
(I rose over them so light).
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