Neste texto http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2011/04/25-de-abril.html, relativamente ao 25 de Abril, o hmbf diz que andamos a comemorar uma revolução que ainda não aconteceu. Discordo muito desta frase do Henrique. A revolução aconteceu, nos meus 5 anos lembro-me perfeitamente do sentimento de liberdade sentido, de um país que parecia estar a sair de um ventre putrefacto, onde de repente, apesar da tenra idade, me vejo a ajudar o meu pai a colar cartazes, ir a reuniões políticas, vendo nos olhos das pessoas uma vontade e alegria impossíveis de descrever, vender o Avante, que era maior do que eu, livremente na rua em bancas onde também se vendiam bustos do Lenine, Marx entre outras coisas, organização de eventos desportivos, recreativos, culturais sem outro intuito que o prazer de oferecer algo à população.
Isto durou um ano e cerca de outro de resquícios do anterior, mas aconteceu, só depois veio tudo o resto que está no texto do Henrique.
28/04/2011
chamber music
XXVIII
Amável senhora, não cante
Canções tristes sobre o fim do amor;
Afaste a tristeza e cante
O quanto basta o amor que passa.
Cante o longo e profundo sono
Dos falecidos amantes, e como
Na sepultura todo o amor repousará:
Por ora o amor está cansado.
James Joyce, in Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 2001, p. 40.
Versão de HMBF.
Aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/
Amável senhora, não cante
Canções tristes sobre o fim do amor;
Afaste a tristeza e cante
O quanto basta o amor que passa.
Cante o longo e profundo sono
Dos falecidos amantes, e como
Na sepultura todo o amor repousará:
Por ora o amor está cansado.
James Joyce, in Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 2001, p. 40.
Versão de HMBF.
Aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/
bom dia
O coração de Manuel Zacarias sente que algures perdera o fio à meada, o que, tendo em conta uma variedade de situações, até acha normal. O que preocupa Segura Viola, é mesmo não ter a noção do que é a meada.
01/04/2011
bom dia
Manuel Zacarias Segura Viola anda com o coração inchado, entre a paixão constante e angústias momentâneas o coração não para de crescer. Até aqui tudo bem, o problema mesmo são os gases que o inchaço provoca.
31/03/2011
António Passos
O António Passos é um tipo estranho. Encontro-o nos lugares mais improváveis desde há sete anos a esta parte e, sempre que nos encontramos, além de me contar histórias ainda me oferece textos rabiscados em teclados inimagináveis. Sendo uma pessoa escusa e um pouco evasiva, lá me vai pedindo para deixar aqui alguns dos textos que me dá, sempre anonimamente.
Uma das coisas que me disse sempre, era que não lhe interessava para nada os sentimentos ou a profundeza dos sentimentos nas palavras, no que escrevia o que lhe interessava mesmo eram as palavras, as frases, porque o sentimento pode ser datado, a beleza das palavras não. Ainda me dizia que o sentimento é uma coisa mais pragmática, como um pai a ajeitar o cabelo a um filho ou um namorado a sorrir apaixonado com a chegada da namorada, contra tudo isto as palavras não passavam mesmo de palavras, só palavras que o tempo trazia e que o tempo levaria, os gestos eram eternos, ficavam cravados até ao fim desta vida e, quem sabe, retornavam numa próxima se a ela tivéssemos direito.
Para um céptico como eu, tanto a postura misteriosa como este tipo de diálogo deixavam-me inquieto, apesar de uma enorme vontade nunca aprofundei conhecimento com o António, não sei nada da vida particular do homem, mas cálculo que não tenha página no facebook. Aqui há uns dias, disse-me que ia de vez, agradeceu-me e despediu-se assim:
- Aqui vou eu, António Passos de Solidão.
Deixou-me um último texto:
Apetece-me partir de mim sem volta que não a ida.
E se no caminho todos os passos se apagarem,
e se na chegada todos os pensamentos se perderem,
será que aquele que de mim parte nunca terá existido?
Nunca pensei muito no fim físico,
menos ainda no depois,
mas sinto,
continuamente,
um desejo de não existência que a morte nunca conseguirá apagar.
E este desejo implica com esta minha vida escusa e enfadonha,
não com a morte que,
pelo menos,
tem a virtude do enigma.
A morte é pó só pó e nada mais que pó.
Talvez seja por tudo isto que gosto tanto do vento,
imaginar-me pó liberto à sorte sem destino,
chegando a todo o lado,
conhecendo todos os cantos,
todos os recantos,
todos os encantos que não encontro ou consigo agora.
Será o tédio que sinto apenas a espera deste mistério?
Tudo me cansa,
os pensamentos que não encontro mas,
também,
os que faço.
E todas as sensações.
O sol que nasce claro ofuscando,
as nuvens densas que escondem as impressões que sinto e as que aspiro,
o mar que se revolta ou o céu tranquilo marinando.
Entretanto,
olho por cima de mim para mim,
dou meias voltas com voltas e meia e giro,
rodopiando em espirais de considerações,
elevando-me até ao patamar em que a invenção
não é mais que uma fábula entediante dos sonhos que perco.
E,
do alto da minha confusa congeminação,
desço tonto de tanto rodopio e esqueço tudo,
o que fui,
o que sou,
o que nunca virei a ser,
e faço um interstício de mim mesmo.
Paro toda a acção que não sou e os pensamentos que imagino.
Assim,
deslembro-me da vida,
menos do cansaço.
Uma das coisas que me disse sempre, era que não lhe interessava para nada os sentimentos ou a profundeza dos sentimentos nas palavras, no que escrevia o que lhe interessava mesmo eram as palavras, as frases, porque o sentimento pode ser datado, a beleza das palavras não. Ainda me dizia que o sentimento é uma coisa mais pragmática, como um pai a ajeitar o cabelo a um filho ou um namorado a sorrir apaixonado com a chegada da namorada, contra tudo isto as palavras não passavam mesmo de palavras, só palavras que o tempo trazia e que o tempo levaria, os gestos eram eternos, ficavam cravados até ao fim desta vida e, quem sabe, retornavam numa próxima se a ela tivéssemos direito.
Para um céptico como eu, tanto a postura misteriosa como este tipo de diálogo deixavam-me inquieto, apesar de uma enorme vontade nunca aprofundei conhecimento com o António, não sei nada da vida particular do homem, mas cálculo que não tenha página no facebook. Aqui há uns dias, disse-me que ia de vez, agradeceu-me e despediu-se assim:
- Aqui vou eu, António Passos de Solidão.
Deixou-me um último texto:
Apetece-me partir de mim sem volta que não a ida.
E se no caminho todos os passos se apagarem,
e se na chegada todos os pensamentos se perderem,
será que aquele que de mim parte nunca terá existido?
Nunca pensei muito no fim físico,
menos ainda no depois,
mas sinto,
continuamente,
um desejo de não existência que a morte nunca conseguirá apagar.
E este desejo implica com esta minha vida escusa e enfadonha,
não com a morte que,
pelo menos,
tem a virtude do enigma.
A morte é pó só pó e nada mais que pó.
Talvez seja por tudo isto que gosto tanto do vento,
imaginar-me pó liberto à sorte sem destino,
chegando a todo o lado,
conhecendo todos os cantos,
todos os recantos,
todos os encantos que não encontro ou consigo agora.
Será o tédio que sinto apenas a espera deste mistério?
Tudo me cansa,
os pensamentos que não encontro mas,
também,
os que faço.
E todas as sensações.
O sol que nasce claro ofuscando,
as nuvens densas que escondem as impressões que sinto e as que aspiro,
o mar que se revolta ou o céu tranquilo marinando.
Entretanto,
olho por cima de mim para mim,
dou meias voltas com voltas e meia e giro,
rodopiando em espirais de considerações,
elevando-me até ao patamar em que a invenção
não é mais que uma fábula entediante dos sonhos que perco.
E,
do alto da minha confusa congeminação,
desço tonto de tanto rodopio e esqueço tudo,
o que fui,
o que sou,
o que nunca virei a ser,
e faço um interstício de mim mesmo.
Paro toda a acção que não sou e os pensamentos que imagino.
Assim,
deslembro-me da vida,
menos do cansaço.
22/03/2011
para L.
Começou a Primavera e tudo parece mais claro e intenso,
olho os meus plátanos de braços abertos, ainda despidos,
tento um contraste com o gelo cristalino de Takk
e sinto-o derreter, desfazendo-se em gotas de água límpida.
Nesta noite morna alcanço tudo e a ti também.
olho os meus plátanos de braços abertos, ainda despidos,
tento um contraste com o gelo cristalino de Takk
e sinto-o derreter, desfazendo-se em gotas de água límpida.
Nesta noite morna alcanço tudo e a ti também.
15/03/2011
tremores
Salvaguardando o drama humano, nunca ouvi nem li tanta baboseira por causa de algo que é uma realidade com a qual teremos de viver enquanto estivermos cá. Cada vez que o planeta tosse são os mercados e os milhões e os prejuízos e mais não sei quê, se um dia vier com o catarro do fumador está tudo fundido.
As centrais nucleares sim, são um assunto que está nas nossas mãos. Quer dizer assim mais ou menos um bocadinho.
As centrais nucleares sim, são um assunto que está nas nossas mãos. Quer dizer assim mais ou menos um bocadinho.
convicção
Também pode ser uma manifestaxão, uma canção de protestu, uma indignaxão, uma revoluxãozita, embora lá vender qualquer coisita a ver se deixamos de ser percaros.
12/03/2011
bom dia
Manuel Zacarias Segura Viola tem um coração do tamanho do mundo. Sendo um coração virado para o futuro, não deixa de guardar muitas memórias, desde as coisas mais importantes a pequenas trivialidades que, por qualquer motivo, se lembra de vez em quanto.
Numa simplicidade que não é mais do que uma ingenuidade bem resolvida, por vezes o coração surpreende e, de tão grande que fica, deixa-o engasgado e sem ar.
Numa simplicidade que não é mais do que uma ingenuidade bem resolvida, por vezes o coração surpreende e, de tão grande que fica, deixa-o engasgado e sem ar.
07/03/2011
xistrices
Arrancou o campeonato e, desde já, podemos dar os parabéns ao novo campeão. Tirando raras excepções, não acredito em campeões só pela excelência do futebol. Tal como o ano passado os penaltys assinalados a favor do Benfica deram um empurram para a excelente época, o penalty a favor do Porto e os que não foram marcados a favor do Benfica, nesta primeira jornada, definiram o rumo deste campeonato. É preciso lembrar que esta já não é a Liga Sagres, mas sim a Liga Zon Sagres, e todos sabemos a quem pertence a Zon. Agora vou para o monte mais uma semana, ver se o Ti'Joaquim tem uma explicação para isto.
Como se pode ver pelo post em cima de 16 de Agosto, desde a primeira jornada que, para mim, este campeonato está decidido. Sem novidade portanto. De qualquer forma, porque ninguém esperava que o Benfica tivesse a força, a qualidade e a garra que vem demonstrando e não vá o Diabo ou os Diabos Vermelhos tecê-las e para que não restassem dúvidas resolveu despachar-se a questão (aliás com um artista já mais que conhecido e reconhecido).
Além disso é preciso não esquecer que a equipa do FCP precisa de começar a descansar para a Liga Europa.
Resta a pena de não ver uma liga que podia ser sensacional, com um super Porto e um super Benfica a disputá-la até ao fim.
Parabéns.
Como se pode ver pelo post em cima de 16 de Agosto, desde a primeira jornada que, para mim, este campeonato está decidido. Sem novidade portanto. De qualquer forma, porque ninguém esperava que o Benfica tivesse a força, a qualidade e a garra que vem demonstrando e não vá o Diabo ou os Diabos Vermelhos tecê-las e para que não restassem dúvidas resolveu despachar-se a questão (aliás com um artista já mais que conhecido e reconhecido).
Além disso é preciso não esquecer que a equipa do FCP precisa de começar a descansar para a Liga Europa.
Resta a pena de não ver uma liga que podia ser sensacional, com um super Porto e um super Benfica a disputá-la até ao fim.
Parabéns.
05/03/2011
o homem espiritual
Sempre pensei que toda a existência devia ser espiritual.
Como uma extensão extra-large de um estado de consciência,
como uma árvore que estica as raízes e, parada,
medita durante anos que se fazem séculos.
A futilidade um escarro da matéria,
a substância a água fresca na garganta,
a essência num pathos profundo
de uma transcendência verdadeiramente transcendental.
Mas não é.
Nesta noção sou uma interpretação de mim mesmo e,
como perdido num labirinto, começo a suar em bica.
De repente começo a sentir umas vibrações estranhas,
entre diversos pensamentos desarrumados,
levita uma sensação real de perda de líquidos.
Tento chegar à torneira mas não consigo,
cada vez levito mais e quanto mais levito mais suo,
quanto mais suo mais sede tenho.
Perplexo, vejo-me mais e mais longe,
entro numa de holista e tento compreender tudo,
a real dimensão em que me encontro.
Aspiro um todo e começo um processo de desmaterialização,
omnisciente,
vejo tudo, conheço tudo, sei tudo e sinto tudo.
Principalmente a sede que não me deixa partir.
Como uma extensão extra-large de um estado de consciência,
como uma árvore que estica as raízes e, parada,
medita durante anos que se fazem séculos.
A futilidade um escarro da matéria,
a substância a água fresca na garganta,
a essência num pathos profundo
de uma transcendência verdadeiramente transcendental.
Mas não é.
Nesta noção sou uma interpretação de mim mesmo e,
como perdido num labirinto, começo a suar em bica.
De repente começo a sentir umas vibrações estranhas,
entre diversos pensamentos desarrumados,
levita uma sensação real de perda de líquidos.
Tento chegar à torneira mas não consigo,
cada vez levito mais e quanto mais levito mais suo,
quanto mais suo mais sede tenho.
Perplexo, vejo-me mais e mais longe,
entro numa de holista e tento compreender tudo,
a real dimensão em que me encontro.
Aspiro um todo e começo um processo de desmaterialização,
omnisciente,
vejo tudo, conheço tudo, sei tudo e sinto tudo.
Principalmente a sede que não me deixa partir.
04/03/2011
o homem leve
Sempre pensei que o mundo devia ser leve.
Como uma bola de sabão soprada sem rumo ao sabor do vento,
onde se poderiam transportar os sonhos e outras coisas simples,
como a transparência de todos os desejos.
A gravidade amarrada nos confins da existência,
o peso a enxada que revolve a terra,
e a seriedade uma ilusão que rebenta
na naturalidade dos pés sobre chão que seremos.
Mas não é.
Neste sentido ganho asas e começo a voar sem tino,
e, como um desenho mal animado, desafio os céus.
Meto a primeira e arranco prego a fundo, mundo,
meto a segunda e dou um esticão, corpo,
meto a terceira e ganho velocidade, espírito.
Nesta viagem o silêncio faz-se de cores,
verde natureza do musgo contra o solo,
azul mar contra a rocha cinza esburacada
e amarelo torrado nas dunas do deserto.
Nisto, enquanto o meu olhar repousa sobre tudo,
surge uma sombra que me acompanha,
estico até à quarta e tento fugir,
forço a quinta e fico fora de mim.
Na sexta fugi de tudo antes de me estatelar sobre o Cristo Rei.
Como uma bola de sabão soprada sem rumo ao sabor do vento,
onde se poderiam transportar os sonhos e outras coisas simples,
como a transparência de todos os desejos.
A gravidade amarrada nos confins da existência,
o peso a enxada que revolve a terra,
e a seriedade uma ilusão que rebenta
na naturalidade dos pés sobre chão que seremos.
Mas não é.
Neste sentido ganho asas e começo a voar sem tino,
e, como um desenho mal animado, desafio os céus.
Meto a primeira e arranco prego a fundo, mundo,
meto a segunda e dou um esticão, corpo,
meto a terceira e ganho velocidade, espírito.
Nesta viagem o silêncio faz-se de cores,
verde natureza do musgo contra o solo,
azul mar contra a rocha cinza esburacada
e amarelo torrado nas dunas do deserto.
Nisto, enquanto o meu olhar repousa sobre tudo,
surge uma sombra que me acompanha,
estico até à quarta e tento fugir,
forço a quinta e fico fora de mim.
Na sexta fugi de tudo antes de me estatelar sobre o Cristo Rei.
02/03/2011
rosas em mar de espinhos
Quero-te como se não existisse amanhã,
quero-te como se ontem fosse um pedaço de chão que cultivei,
quero-te como se hoje fosse o tempo que não controlo,
quero-te como se agora fosse o momento em que me perco.
Assim,
só admito estar ao pé de ti,
sempre e só junto a ti,
se te puder beijar os lábios,
acariciar o palato com a língua,
conhecer todas as palavras na troca da saliva que fazemos,
transformar o teu corpo num abraço de querer
e respirar
o cheiro que sente a fome,
feito na pele da pele que cheira,
e,
também,
o sexo claro,
porque teu,
e,
finalmente,
saciar-me na recompensa da tua capacidade de acolhimento.
Depois,
piscares-me um olho cúmplice,
sorrires e receberes o meu amor,
todo.
Porque esta é existência que quero,
porque tu és a existência que desejo,
porque a vida não é um mar de rosas,
ainda bem porque os espinhos aleijam.
serei
Serei uma planície vasta e serena
uma montanha que rasga o céu
uma frase longa ou pequena
uma metáfora que o desejo deu
Serei como as pedras por onde passo
ou como o vento que corre
serei um espírito devasso
um corpo inerte que não morre
Serei uma árvore robusta em flor
um fruto pronto a ser colhido
uma mente atormentada de dor
num sonho que foi esquecido
Serei um muro que não deixa ver
ou janelas transparentes
serei uma alma sem querer
lágrimas que caiem indiferentes
Serei uma raiz que brota da terra
uma semente que tarda em nascer
uma vida que só encerra
esta mágoa que teima em viver
Serei como uma rocha intransponível
ou como o mar violento
serei um som seco, inaudível
canções trazidas pelo vento
Serei uma palavra desalinhada
ou uma simples frase batida
serei algo parecido com nada
o primeiro dia do resto da vida
Serei um gesto desordenado
uma expressão grave e triste
serei um futuro continuado
uma pessoa que desiste
Serei um texto mal acabado
ou o princípio de uma linha
serei um livro estragado
uma folha que definha
Serei como um grito estridente
ou como um sussurro inquietante
serei uma estrela cadente
um simples vagabundo errante
Serei um romance sem história
um clássico sempre eterno
serei o altar e a glória
uma descida ao inferno
Serei como a carne a gretar
ou como a pela macia
serei o mundo por amar
uma alma escura e sombria
Serei um vulcão explodindo
um deserto imenso, vazio
serei um deus terno rindo
um pensamento duro e frio
Serei como a raiva de um poema
ou como a fúria de um touro
serei só um sentido de pena
de não saber o que é ouro?
uma montanha que rasga o céu
uma frase longa ou pequena
uma metáfora que o desejo deu
Serei como as pedras por onde passo
ou como o vento que corre
serei um espírito devasso
um corpo inerte que não morre
Serei uma árvore robusta em flor
um fruto pronto a ser colhido
uma mente atormentada de dor
num sonho que foi esquecido
Serei um muro que não deixa ver
ou janelas transparentes
serei uma alma sem querer
lágrimas que caiem indiferentes
Serei uma raiz que brota da terra
uma semente que tarda em nascer
uma vida que só encerra
esta mágoa que teima em viver
Serei como uma rocha intransponível
ou como o mar violento
serei um som seco, inaudível
canções trazidas pelo vento
Serei uma palavra desalinhada
ou uma simples frase batida
serei algo parecido com nada
o primeiro dia do resto da vida
Serei um gesto desordenado
uma expressão grave e triste
serei um futuro continuado
uma pessoa que desiste
Serei um texto mal acabado
ou o princípio de uma linha
serei um livro estragado
uma folha que definha
Serei como um grito estridente
ou como um sussurro inquietante
serei uma estrela cadente
um simples vagabundo errante
Serei um romance sem história
um clássico sempre eterno
serei o altar e a glória
uma descida ao inferno
Serei como a carne a gretar
ou como a pela macia
serei o mundo por amar
uma alma escura e sombria
Serei um vulcão explodindo
um deserto imenso, vazio
serei um deus terno rindo
um pensamento duro e frio
Serei como a raiva de um poema
ou como a fúria de um touro
serei só um sentido de pena
de não saber o que é ouro?
15/02/2011
o homem pragmático
Sempre pensei que toda a acção devia ser pragmática.
Como uma linha que serve apenas para transportar comboios,
que nos levam daqui para ali e dali para aqui,
sempre com um objectivo bem definido.
As teorias comprimidas no ferro dos carris,
o certo e o errado ultrapassado na velocidade da viagem,
o pluralismo só mais um ismo que devoramos na passagem
e a utilidade a verdade como um facto real.
Mas não é.
Nesta jornada carrego mil pesos e uma chama que me deixam prostrado,
e, como uma ficção sem sentido, sinto o corpo a arder.
Procuro o meio mais eficaz de baixar este sobreaquecimento,
o intelecto e a energia ao serviço da condição humana,
a eficiência a ciência que salta sobre um fatalismo estéril.
Recorro à lógica e deito-me numa banheira de água fria,
a temperatura começa a baixar imediatamente,
nesta voragem pragmática os pés ficam dormentes,
depois as pernas, o tronco, os braços, as mãos.
Lentamente, começo a esquecer o corpo,
pedaço de carne que transporto,
daqui para ali dali para aqui,
mas nunca para todo o lado.
Nesta inércia gelada perco a noção de tudo menos da febre que me consome.
Como uma linha que serve apenas para transportar comboios,
que nos levam daqui para ali e dali para aqui,
sempre com um objectivo bem definido.
As teorias comprimidas no ferro dos carris,
o certo e o errado ultrapassado na velocidade da viagem,
o pluralismo só mais um ismo que devoramos na passagem
e a utilidade a verdade como um facto real.
Mas não é.
Nesta jornada carrego mil pesos e uma chama que me deixam prostrado,
e, como uma ficção sem sentido, sinto o corpo a arder.
Procuro o meio mais eficaz de baixar este sobreaquecimento,
o intelecto e a energia ao serviço da condição humana,
a eficiência a ciência que salta sobre um fatalismo estéril.
Recorro à lógica e deito-me numa banheira de água fria,
a temperatura começa a baixar imediatamente,
nesta voragem pragmática os pés ficam dormentes,
depois as pernas, o tronco, os braços, as mãos.
Lentamente, começo a esquecer o corpo,
pedaço de carne que transporto,
daqui para ali dali para aqui,
mas nunca para todo o lado.
Nesta inércia gelada perco a noção de tudo menos da febre que me consome.
11/02/2011
a necessidade
Prometeu
Nem virá sobre mim nenhum sofrimento imprevisto. Preciso é suportar o mais facilmente possível o que foi marcado pelo destino, pois bem sei que a força da Necessidade é inexpugnável.
O destino, que tudo acaba, ainda não determinou pôr termo a isto, mas, depois de vergar ao peso de mil sofrimentos e calamidades, eu fugirei a estas cadeias. O engenho é, de longe, mais fraco do que a Necessidade.
Corifeu
Quem governa a Necessidade?
Prometeu Agrilhoado – Ésquilo
o homem lírico
Gostava que a palavra fosse sempre um poema.
Como um verso cruzado, emparelhado, interpolado, encadeado, esfolado,
numa rima solta e a lua como pano de fundo,
mais ou menos assim:
procura o refúgio na tempestade
nos ventos que são tornados
na lua a eternidade
e as palavras que são achados.
Mas não é.
Neste caminho troco os passos no ritmo que desafina,
e, como uma nota deslocada, tusso a meio do pensamento.
As emoções exprimem-se como um catarro descontrolado,
o eu mais interior que se abre ao universo físico,
espiritual também, com a alma e o karma dentro e tudo.
A existência em todo o seu esplendor glorificado
e a insignificância o sentimento que a tosse acorda,
e cospe assim:
oh tempo que desatina
num frio que faz tremer
neste catarro que ensina
que às vezes a dor faz doer.
Neste divagar perco o meu eu interior,
os meus pensamentos mais íntimos.
Resta-me a esperança que a constipação passe.
08/02/2011
um dia
Vladimir
O que é que vão fazer quando caírem onde não estiver ninguém para vos ajudar?
Pozzo
Esperamos até nos conseguirmos levantar. E depois continuamos. A andar!
Vladimir
Antes de se ir embora, diga-lhe para ele cantar!
Pozzo
Quem?
Vladimir
O Lucky.
Pozzo
Cantar?
Vladimir
Sim. Ou para pensar. Ou para recitar.
Pozzo
Mas ele é mudo!
Vladimir
Mudo!
Pozzo
Mudo. Nem sequer é capaz de gemer.
Vladimir
Mudo! Desde quando?
Pozzo
Ainda não acabou de me atormentar com o raio do seu tempo?! É abominável! Quando! Quando! Um dia, não lhe chega, um dia como qualquer outro dia, um dia ele ficou mudo, um dia eu fiquei cego, um dia vamos ficar surdos, um dia nascemos, um dia vamos morrer, o mesmo dia, o mesmo segundo, não lhe chega? Dão à luz montados num túmulo, o dia brilha por um instante, e depois fica outra vez noite. A andar!
À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001
02/02/2011
31/01/2011
campeões
30/01/2011
a música
No Fórum Romeu Correia em Almada, num grande concerto com grandes músicas, para mim esta foi a música.
28/01/2011
coisas que me deixam contente
As 6 biscas que o Miguel mandou para dentro da baliza do Sporting. No Almada, em 12 anos de andebol, raramente ganhei ao Sporting, o puto em 3 anos já leva 5 vitórias e nenhuma derrota sobre os lagartos, não sendo a mesma coisa não deixa de ser fixe.
Esta época ainda não perderam, tal como o Belenenses, amanhã jogo decisivo em Belém, os pastéis não são nada fáceis de digerir.
Esta época ainda não perderam, tal como o Belenenses, amanhã jogo decisivo em Belém, os pastéis não são nada fáceis de digerir.
A dança das feridas
27/01/2011
25/01/2011
loucura
Gostavas que a loucura te arrancasse do torpor dos dias e trouxesse, embalada em papel colorido, as rugas da carne feitas num tempo e num espaço que nem lembras. Olhares e leres em cada pedaço uma letra, uma palavra, uma frase, uma história, um gesto perdido.
louco eu?
Vladimir
Só sei que nestas condições as horas duram mais e nos obrigam a iludi-las com actividades que – como é que hei-de dizer – que poderão parecer à primeira vista razoáveis, até se tornarem num hábito. Poderá dizer que é para evitar o colapso da nossa razão. Sem dúvida. Mas será que não anda ela há já muito a vaguear pela noite sem fim das profundezas abissais? É isso que por vezes me pergunto. Estás a seguir o meu raciocínio?
Estragon
Todos nós nascemos loucos. Alguns mantêm-se.
À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001
21/01/2011
o homem trágico
Sempre pensei que a vida devia ser uma tragédia constante.
Como um vai que não vai que fica do lado contrário onde se vai estando,
onde se quer, se deseja, se constrói,
se luta, se existe e, sobretudo, se destrói.
A salvação dentro de um tupperware rasca oferecido à vizinha do lado,
o espírito solto ao vento num dia de tempestade,
a razão batida em claras de ovo servida aos chacais
e a vontade o destino final de cada acção.
Mas não é.
Nesta certeza tenho a consciência das mágoas que sou e faço,
e, como um meio em que me fico, por vezes falta-me o ar.
Então, no lado certo do passeio diz:
Acabe com o seu sofrimento.
Eu digo está bem.
Já hoje?
Quanto custa?
Uma montanha de consciência, um balúrdio de negação,
uns theras de individualidade, umas pitadas de necessidade,
um molho de redenção, gigas de prazer,
e, por fim, um universo de aceitação.
Começo a rir e penso que é capaz de ser um pouco caro,
procuro nos bolsos mas só encontro inquietação,
da carteira salta um monte de desassossego.
Nesta azáfama tropeço na calçada bato com a cabeça e morro,
com um sorriso na cara.
20/01/2011
anibalices
Parece que Portugal não tem dinheiro para a democracia, segundo o candidato que não lia jornais, nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, que não é político nem se dá com eles, que gosta mesmo é de dar aulas, auto-estradas, bolo-rei, estar de pantufas, dar miminhos aos netos, à Maria e aos amigalhaços do BPN (um português exemplar este), uma hipotética segunda volta traria muitos custos ao País.
No fundo o Sr. gostava mesmo era de ser nomeado, agora esta coisa de eleições, gastar papel, canetas e o bom tempo dos bons portugueses como ele claro.
Aqui: http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=9535
começar
Estragon
Enquanto esperamos podemos tentar conversar calmamente, já que somos incapazes de ficar calados.
Vladimir
Tens razão, somos inesgotáveis.
Estragon
É para não pensarmos.
Vladimir
Temos essa desculpa.
Estragon
É para não ouvirmos.
Vladimir
Temos as nossas razões.
Estragon
Todas as vozes mortas.
Vladimir
Fazem um barulho de asas.
Estragon
De folhas.
Vladimir
De areia.
Estragon
De folhas.
Vladimir
Falam todas ao mesmo tempo.
Estragon
Cada uma para si.
Vladimir
Ou melhor, sussurram.
Estragon
Ciciam.
Vladimir
Murmuram.
Estragon
Ciciam.
Vladimir
O que é que elas dizem?
Estragon
Falam das suas vidas.
Vladimir
Não lhes chega ter vivido.
Estragon
Têm de falar sobre isso.
Vladimir
Não lhes chega estar mortas.
Estragon
Não é suficiente.
Vladimir
Fazem um barulho de penas.
Estragon
De folhas.
Vladimir
De cinzas.
Estragon
De folhas.
Silêncio
Vladimir
Diz alguma coisa!
Estragon
Estou a tentar.
Longo silêncio
Vladimir
(angustiado) Diz qualquer coisa, não interessa o quê!
Estragon
O que é que fazemos agora?
Vladimir
Esperamos pelo Godot.
Estragon
Ah, pois é.
Silêncio
Vladimir
Isto é horrível!
Estragon
Canta qualquer coisa.
Vladimir
Não, não! (Pensa) Talvez pudéssemos começar tudo outra vez.
Estragon
Isso era fácil.
Vladimir
O começo é que é difícil.
À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001
14/01/2011
10/01/2011
last rite
Queres um anjo antes do tempo e saber se vem num tempo que começa ou num tempo que acaba. Queres que chorem a perda com uma dor de alma e subir, como que pairando noutra dimensão, por sobre eles. Queres que te levem, o fim do Céu e do Inferno, dizes, e que a tua memória perdure numa expressão qualquer.
No fim queres ter fé como aconchego, mas como é possível se não viveste assim.
Angel calls on me
set to take me out,
angel with no face.
the end of the line;
beginning of time,
a matter of faith.
I see all my friends
from distance afar
on another plane,
mourning over me:
a sickness of heart
a sense of betrayal.
have you seen the twilight close so slow.
(I rose over them so light).
Men in black suits dressed
cold soft wood and marble silk,
to take me away.
No heaven or hell.
the memory behind lingers on a face.
have you seen the twilight close so slow.
(I rose over them so light).
31/12/2010
28/12/2010
natal
Que se foda o Natal mais a caridade com prazo de validade e as campanhas para ajudar aqueles que prejudicaram o ano inteiro, que se fodam os brindes, as ofertas, as promoções, os presentes, o trabalhinho a prazo.
Que se foda a virgem para ver se consegue parir alguma coisa de jeito.
ifoda-se
O Media Market de Alfragide fez uma promoção de 3 horas sem IVA para celebrar os 3 anos de actividade. Vi que o mesmo se passou em Londres e na Austrália, claro que aqui tem sempre pormenores peculiares inerentes ao ser portuga como afinal só receberem um vale de desconto no valor do IVA para futuras compras, mas o resultado é parecido.
Isto é o que temos numa sociedade com mais jornais, telejornais, internet com blogs, facebooks, telemóveis artilhados, ipods, ipads e ifoda-se que não quero viver neste mundo. Pelo menos podemos dizer, orgulhosamente, que é como no estrangeiro.
26/12/2010
o homem teórico
Sempre pensei que o mundo devia ser plano e navegasse pelo universo.
Como um barco fantasma à deriva pelo espaço,
sem tempo, sem mitos, sem deuses,
sem conceitos nem precisões.
A justiça embrulhada num papel largado ao vento,
o pensamento atirado para uma lua qualquer,
a filosofia transformada em estrume para adubar a terra
e o sonho a noção premente de continuar a navegar.
Mas não é.
Neste ideal ganho a noção das dores que me afligem e,
como um passo trocado, fico com comichão nas virilhas.
Cravo as unhas e coço, mas quanto mais coço mais cresce,
este sentimento inútil da inutilidade,
esta inutilidade inútil do sentimento e da comichão que não acaba.
Então, continuo a coçar até a carne ficar rosada,
quanto mais coço mais vivo fico,
quanto mais vivo fico mais vermelho estou, um fio de sangue desafia-me.
Olho-te pasmado e sigo-te o caminho,
vejo a trajectória e procuro um sentido,
observo-te, analiso-te, estudo-te e recolho a informação.
Insiro e processo todos os dados,
cientificamente,
entre todas as possibilidades apenas concluo que a comichão não me passou.
Só espero que não me passe para os colhões.
24/12/2010
23/12/2010
21/12/2010
15/12/2010
formidável mundo português
A minha filha acabou o 12.º ano e resolveu começar a trabalhar para pagar os estudos, opção que muito me apraz. O problema é que estamos em Portugal e, infelizmente, a Mafalda, que não percebia como é que eu não consigo emprego, rapidamente percebeu como funcionam as coisas neste cantinho acanhado.
Depois de procurar, lá recebeu uma resposta, há cerca de 2 meses, para promotora da ZON, coisas novas (produtos) para o maravilhoso natal, contrato só de 2 meses com a possibilidade de renovação (tanga), um ordenado razoável no que é um ordenado razoável em Portugal, uma merda, mas enfim. Entretanto, era suposto começar no início de Dezembro mas foi sendo adiado, nisto começou a ter formação, deram-lhe umas roupas e sapatos género "Espaço 1999", comprar passe, comer qualquer coisa, etc., o dinheiro começa a sair. Ontem, véspera de começar, ou seja um dia antes, 24 horas, telefonam a dizer que tinham gente a mais, talvez porque a Mafalda não se deixou ficar, lá disseram para ela ir trabalhar mas que tinha de fazer um exame médico às 15 h, isto às 11 da manhã, impossível estava a fazer de ama a um bebé, após mais uma ronda de muita negociação a miúda conseguiu que marcassem o médico para outro dia.
Hoje, já me telefonou a pedir para lhe levar dinheiro ou comida, é que era suposto trabalhar até às 16 h. mas vai ter de ficar até à meia-noite. Será que vão pagar as horas a mais?
Até começar a trabalhar já gastou cerca de 150 euros, com o que ainda vai gastar em alimentação, quando receber o primeiro ordenado, o que sobra deve dar para meia renda de casa. Ainda querem mais flexibilização, é que já parecemos aqueles artistas de circo que se enrolam todos neste rectângulo com cara de parvo a ocidente virado.
Não é formidável este Portugal.
13/12/2010
09/12/2010
07/12/2010
sofrimento
Aquela coisa do sofrimento foi uma brincadeira com as duas velhotas simpáticas que até serviu para as deixar mais bem dispostas. Felizmente só sofro de umas caganeiras quando a ansiedade aperta, nada que um chá de camomila ou outra paneileirice parecida não resolva e, no fundo, até era capaz de dar o meu dedo mindinho do pé esquerdo pela humanidade, com jeito talvez até o direito, com muito jeito talvez até mais qualquer coisa.
06/12/2010
testemunhas
Vinha de uma entrevista de merda para um emprego de merda e, nem a propósito, duas velhotas muito amorosas abordaram-me na rua para me dar este folheto.
Todo Sofrimento
ACABARÁ EM BREVE
Em algum momento na vida, você provavelmente já se perguntou “Por que há tanto sofrimento?” Há milhares de anos, o homem vem sofrendo, muito devido a guerras, pobreza, calamidades, violência, injustiça, doenças e morte. Nunca houve tanto sofrimento como nos últimos cem anos. Será que um dia isso tudo vai acabar?
Este primeiro parágrafo não é maravilhoso? Mas o melhor é que eles dizem que sim, o sofrimento vai acabar, e é em breve, ainda lhes disse que hoje me dava jeito, riram-se e disseram que não era o meu era o da humanidade, eu respondi, tá certo adeus e felicidades.
dezembro
Que se foda o Natal mais a caridade com prazo de validade e as campanhas para ajudar aqueles que prejudicaram o ano inteiro, que se foda os brindes, as ofertas, as promoções, os presentes, o trabalhinho a prazo mais os ordenados de merda. Que se foda a virgem para ver se consegue parir alguma coisa de jeito.
28/10/2010
um maluco em qualquer lugar
Mas, depois, pensaste conhecer o amor e a distância do mundo esbateu-se, começaste a ser a pele, começaste a ser corpo, começaste a ser gente. E sentias tudo, todo o tempo. E dominavas tudo, todo o espaço. Agora pensas dizer adeus e voltar ao princípio mas está tudo ao contrário.
27/10/2010
distraídos
Continuamos em grande, quase ninguém nota mas continuamos em grande. Há 3 semanas que praticamente não consigo vender um croquete, pastel ou chamuça, os clientes dizem-me que nem o meu produto nem outros, não se vende, até a pão vai para o lixo. Entretanto, o meu vizinho de baixo, amargurado com problemas pessoais graves, convida-me para um whiskey, uma garrafa cheia de pó mas com um líquido excelente começa a escorrer para os copos. Lançado, mais pela amargura do que pelo líquido, conta-me que no fim-de-semana foi para uma caçada numa herdade qualquer para a beira interior, homem simples foi com algum espanto que vê chegar um helicoptoro com alguns administradores do BES, mas, mais espanto ainda, quando ao primeiro se sucede o segundo, o terceiro, o quarto e até um quinto, não só com mais administradores ou coisa que os valha, mais umas meninas de mini-saia com enormes caixas cheias de camarão, navalheiras, lagostas e sei lá que mais. Depois mostrou-me uns papéis com umas contas que ia abrir para os filhos exactamente no BES e rasgou-os, disse que ficou enojado com o que viu dizendo que tem a 4.ª classe mas não é parvo. Pena será que os outros onde irá pôr o dinheiro são massa da mesma farinha.
Depois, vou ao Hospital ver um amigo ao qual rebentou uma úlcera e nem um lugar para estacionar o carro, nem pago, quando vou à merda do Fórum Almada para ir ao cinema tenho sempre lugares para dar e vender à borla e começo a pensar que realmente este País está bem, do melhor até, alguns de nós é que andam distraídos.
25/10/2010
20/10/2010
paradoxos
Este blog anda em serviços mínimos, um mestrado com muita leitura e pesquisa assim obriga. Assim, tenho andado um pouco a leste de orçamentos, aprovações, desaprovações, obrigações, irritações, desilusões, FMI's, cortes, crises e outras porcarias iguais. Estou em crise há mais de 6 anos, se é que alguma vez estive bem, não faço IRS desde mais ou menos essa altura, tenho vivido completamente à margem porque sempre que procuro trabalho, as situações que me são propostas são tão ridículas que chegaria ao fim do mês e gastava mais do que o que iria ganhar, é claro que tenho uma vida de merda, não consigo ir a lado nenhum, concertos, teatros, mesmo exposições só se não for muito longe, comprar livros, cd's, dvd's, etc., é impossível, mas, enfim, como para dar umas não tenho de pagar nada, nem para ver o mar ou as pessoas que passam, isto até anda, como um bêbado a cambalear mas anda.
Mas o que me trouxe mesmo aqui, são alguns dos paradoxos deste nosso belo canto à beira mar plantado. Tirei a minha licenciatura na famosa Universidade Independente e, realmente, não achei o curso nada de especial, tirando uma cadeira ou outra com bons professores, e, pensava, que era da falta de qualidade da instituição, engano meu, agora na Faculdade de Letras de Lisboa, exceptuando um caso extraordinário, a merda é a mesma.
Agora vou mas é trabalhar que o ordenado é alto.
13/10/2010
a dúvida
Será que um Homem chegado aos 40, depois de duas de 20 em cada braço, poderá sentar-se, calmamente, a pensar e, finalmente, ficar sozinho.
12/10/2010
come out and play - I'll go e já
Por volta dos 12 anos, quando comecei a ser um adolescente viril, esta menina fazia as delícias das minhas fantasias masturbatórias, era a única softcore que batia a minha literatura preferida da época, a Gina, Sylvia, Weekend Sex entre outras, como se isso não tivesse sido suficiente, acabou de editar um disco e continua um borracho.
assim foi, assim é, assim será
Diz-me, ó Rei, destruidor de Tróia, descendente de Atreu, como te hei-de saudar? Como te prestarei homenagem sem ir além nem ficar aquém do tratamento que te é devido? É que muitas pessoas apreciam mais o parecer do que o ser, ultrapassando assim os limites da justiça. Toda a gente está pronta a ecoar os gemidos de quem sofre, mas a mordedura da dor não atinge verdadeiramente o seu coração. Estes mesmos alegram-se com os felizes, assumindo idêntico aspecto, forçando os seus rostos a rir. Mas aquele que é bom conhecedor do seu rebanho não se deixa iludir pelas atitudes daqueles que, aparentando um espírito leal, o adulam com uma amizade aguada.
Ésquilo em Agamémnon mais ou menos em 450 a.C
10/10/2010
notícias
Ontem o telejornal da RTP trouxe-nos uma notícia engraçada. Parece que os portugueses são os que mais demoram a abandonar a casa paterna, se não me engano por volta dos 35 anos. A abordagem foi de uma superficialidade enganadoramente triste, com comparações, veja-se bem, com a Dinamarca, esse País muito pobre do norte da Europa, culminando a chamar meninos da mamã a estes portugueses.
Para quem saiu de casa dos pais aos 21 anos como eu, seria fácil embarcar nos propósitos desta pseudo-notícia, não fosse o problema da certeza dos 500 € de ordenado médio dos poucos contemplados até esta idade com um emprego/trabalho, acrescentando os recibos verdes, os contratos a prazo e a precaridade generalizada, o que sobra para pagar uma renda?
Claro que existem aqueles que vivem, desde tenra idade, sozinhos, em casas oferecidas ou com rendas pagas pelos pais, mas estes não são meninos da mamã, devem ser do papá.
04/10/2010
discursos
O concerto que dei no sábado, foi dos melhores dos The Verge, dúvido é que a organização nos volte a convidar, mas quem os mandou pedir um discurso sobre a República.
Bem o que interessa é que a Verga continua a crescer.
02/10/2010
os Bobos da corte
O concerto que vamos fazer hoje é integrado nas comemorações do centenário da implantação da República.
Não me parece que se tenha plantado grande coisa, mas, também, não se pode dizer que o solo seja muito fértil.
01/10/2010
27/09/2010
26/09/2010
aDeus
Primeiro o Homem tornou-se um actor, um jogador, e depois veio a religião.
Nikolas Evreinoff
Sempre fui um péssimo actor.
performance
The playing of social roles tends to deny or subvert the activities of a true self. Nietzche offers a metaphor of performance as a kind of alien force that takes possession of the self.
Marvin Carlson
18/09/2010
16/09/2010
boa noite
oh heavy
with a look of satin put round her face
with the devil peering close by
on the street
with a little boy charm and
anchors of wide heavy iron
at her feet
she whispers and cries
in harmonies
for her saltwater king
oh heavy
are you my boy with demons in your sleeve
they`re trouble placing razors and pins
underneath your feet
you my little boy charm with
anchors of wide
ship wrecked bloody open sea
you whisper and cry
in harmonies
for your saltwater queen...
15/09/2010
des prender
rentE
bilização
rotiniza
São
reci
bUH
rup
Atura
revolu
VIcionário
pa
Lavra
ú
~
alba
Atroz
isto é extraordinário
Vejam este entusiasmo, não é um orgulho.
E os 15 para lá e mais 15 para cá, não é outro orgulho.
Daqui http://lishbuna.blogspot.com/
pesca
O Figo gosta de Portugal mas gosta mais dele próprio, o Mourinho também gosta muito mas assim ao longe, outros ilustres da ciência, como o físico João Magueijo em Inglaterra ou outros nos EUA, no Canadá, também batem com a mão no peito, sou português, mas assim tipo, aquele país ali ao norte de África. Os meus tios e primos em NY dizem que lá também está muito mau, mas o tempo passa e eles não voltam.
Nós por cá vamos, mais que não seja à pesca, a semana passada o meu irmão apanhou um robalo com 2,5 kg, no sábado uma corvina com 3, ontem fui com ele não apanhou nada, hoje já telefonou a dizer que apanhou mais uma corvina ainda maior que a outra, fora outros mais pequenos, isto tudo com uma coisa que os pescadores chamam amostra, acho que é um isco de borracha, ou seja nem isco gastam.
Portanto, pesca, a pesca é que está a dar, vendedores não faltam, é ouvi-los todos os dias na TV.
Os pescadores
Os vendedores
órgãos pendentes
Como benfiquista ontologicamente burro, como todos aliás, também não concordo com formas de pressão e ameaças sobre órgãos independentes e autónomos, isto partindo do princípio que os órgãos são independentes e autónomos, infelizmente órgão independente e autónomo ainda só conheci um e está mais ligado ao campo da anatomia do que das instituições, quando é pressionado até aceito e às vezes gosto, agora ameaças são intoleráveis.
Quando era miúdo jogava à bola na rua com o Zé dos Ossos, o Paulo das Maçãs, o Piça Rara, o Tilau, entre outros que a memória não deixa lembrar, o Figo, obviamente nunca teve alcunha, mas aos 13 anos comecei a crescer e aquilo passou. Ora os nossos órgãos independentes e autónomos têm sido conduzidos por adultos que continuam a chamar mágico, harry potter, hulk, bigorna, trave mestra (ok, este foi inventado e também já não está lá), aos seus jogadores, ao outro chamaram-lhe orelhas, o que até achei bastante engraçado, foi aquela senhora de índole com o desdentado rottweiler Abel ao lado, tudo isto sendo uma alegria não deixa de ser estranho. Transponham para a literatura por exemplo, olha o troca letras com o figura de estilo, o apanha metáforas escreve bem mas o esdrúxulo é melhor, ali vai o anaculoto metido com o litote, cá para mim são esquisitos, olha a malandra da anáfora a dizer mal do oxímoro, pensando melhor se calhar éramos todos mais felizes.
Bem, existe sempre a hipótese de nos dedicarmos todos ao ténis, esse desporto limpinho e asséptico, onde a bola não é bombeada nem se fazem passes rasgados, não se pauta o jogo nem se faz a gestão do resultado, rematar com o pé que se tem mais à mão é impensável, não se criam desequilíbrios nem se tiram cruzamentos e muito menos se fazem manchas, que eles acabam sempre os jogos muito asseadinhos graças a deus.
Também há a pesca, mas aí um gajo tem de se habituar ao cheiro, sempre é natural que no ténis eles devem usar todos Rexona.
11/09/2010
liga Zon
No intervalo telefonei ao meu velhote e disse-lhe que não íamos ganhar, era impossível, não tanto pelo Guimarães que é uma boa equipa mas porque o arbitro não estava para aí virado.
Com mais Roberto ou menos Roberto, a jogar bem ou a jogar mal, é indiferente. Com estas caldeiradas já se foram 7 pontos.
Esta Liga é mesmo Zon de Sagres não tem nada.
10/09/2010
inspiração
Nosso curso de primeiro ano está quase concluído. Eu esperava inspiração, mas o sistema espatifou minhas esperanças.
Essas ideias passavam-me pela mente enquanto, no vestíbulo do teatro, eu punha meu sobretudo e lentamente enrolava o cachecol no pescoço.
De repente alguém me cutucou. Voltei-me e vi Tortsov.
Notara meu estado de desânimo e vinha indagar a causa. Dei-lhe uma resposta evasiva, mas insistiu, teimoso, fazendo uma pergunta atrás da outra.
- Como se sente, agora, quando está em cena? - perguntou, num esforço para compreender minha decepção com o sistema.
- É justamente essa a dificuldade. Não sinto nada fora do comum. Sinto-me à vontade, sei o que devo fazer, tenho um motivo para estar ali, tenho fé nas minhas ações e creio no meu direito de estar em cena.
- E o que é que você quer mais? Acha que isso é errado?
Confessei-lhe então a minha ânsia por sentir-me inspirado.
- Não me procure para isso. Meu sistema nunca fabricará inspiração. Pode apenas preparar um terreno favorável a ela. Se eu fosse você, deixaria de correr atrás desse fantasma, a inspiração. Deixe-o por conta daquela fada miraculosa, a natureza, e dedique-se àquilo que está nos domínios do controle humano consciente.
Ponha um papel na estrada certa e ele irá para diante. Ampliar-se-á, tornar-se-á mais fundo e, finalmente, levará à inspiração.
Constantin Stanislavski "A preparação do ator", edição Civilização Brasileira 2008, pág. 331
09/09/2010
entalado
Que fique exclarecido que não tenho nada contra a estimulação anal, só não gosto mesmo é de homens.
olha o felino
Regressando a esta enganadora e triste realidade, as costumeiras merdas deste cantinho cheiram cada vez pior. É tanta a mentira, a desgovernança, a desconversa, a soberba, que a vontade de dizer seja o que for é pouca.
Felizmente, também existem coisas realmente boas, aqui fica uma:
Um pequeníssimo excerto.
...A grande dúvida é: com que mão limpará o cu o entalado? Com a mão ferida ou com a mão suja?
Um pequeníssimo excerto.
...A grande dúvida é: com que mão limpará o cu o entalado? Com a mão ferida ou com a mão suja?
para um viciado na realidade é mesmo assim
Quando confesso o meu repúdio radical pela mentira, toda a gente diz que sou louco. E eu não defendo que se diga tudo a toda a gente; acredito apenas que devemos viver em regime de verdade com as pessoas de quem gostamos. Há excepções circunstanciais? Há. Mas a regra, a minha regra, é a verdade.
O que é a verdade?, perguntava Pilatos. Também não sei, mas sei o que é a mentira. Uma mentira é uma declaração que sabemos falsa, feita com o intuito de enganar alguém. Fazer isso a quem gostamos, de modo intencional e repetido, é que é saudável? Garantem-me que sim. E eu regresso, mansamente, ao meu manicómio.
Pedro Mexia aqui http://a-leiseca.blogspot.com/
Quero voltar para o monte.
16/08/2010
penalty e penáltis
Arrancou o campeonato e, desde já, podemos dar os parabéns ao novo campeão. Tirando raras excepções, não acredito em campeões só pela excelência do futebol. Tal como o ano passado os penaltys assinalados a favor do Benfica deram um empurram para a excelente época, o penalty a favor do Porto e os que não foram marcados a favor do Benfica, nesta primeira jornada, definiram o rumo deste campeonato.
É preciso lembrar que esta já não é a Liga Sagres, mas sim a Liga Zon Sagres, e todos sabemos a quem pertence a Zon.
Agora vou para o monte mais uma semana, ver se o Ti'Joaquim tem uma explicação para isto.
13/08/2010
12/08/2010
vales mortos
A propósito deste texto http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2010/08/conversa.html, e regressado agora de um Alentejo ainda mais profundo, sem mar mas com um Guadiana cada vez melhor, um céu estrelado e Marte a nascer-me à direita de onde me sentava a olhar para o norte até às tantas e, também, a conversar com o ti'Joaquim, homem de 85 anos que raramente saiu do monte onde vive, nunca teve instrução que não aquela que a natureza lhe foi dando e que mantinha uma conversa tão natural como o lugar onde estávamos, que quando íamos em grupo até ao café da povoação mais perto, parava naturalmente para fazer chichi ou, também naturalmente, dava uns traques ignorando quem quer que estivesse ao pé. Numa das nossas conversas, enquanto olhávamos as estrelas, diz convicto naquela pronúncia arrastada que isto do mundo é que está uma coisa bem feita, respondi provocando, há quem diga que foi Deus, ignorou-me e bem, prosseguiu, até dizem que há mais terra encoberta por mar do que descoberta.
Assim fomos conversando, noite após noite, e eu sempre a aprender.
04/08/2010
ao tonan
Xupa portugalês e sai do chão,
arrasa montanhas e dobra o colchão,
esta bardamerda é só uma ilusão
feita do cio vadio de um cão.
Dobra cabrão dobra,
inquina a certeza dessa ilusão,
os lençóis são uma cobra
tu o cio vadio de um cão.
E se a punheta também é foda
e a surpresa sempre à mão
cinco dedos sempre à roda
agarrados a qualquer situação,
estas palavras são a demora
de um estilo sem razão.
Xupa portugalês e xupa outra vez,
mas cospe o esperma para o chão
não vá sujar-se o colchão.
E depois de uns copos de xerez,
não penses que isto é uma ilusão
de quem perdeu a razão
ou de quem não sabe o que fez,
porque a punheta também é gente
que a muitos deixa contente,
e se por acaso perderes a noção,
lembra-te que a necessidade é premente
e o sangue vem do coração,
bomba frenética e quente
como a lava de um vulcão.
Dobra-te cabrão dobra e mancha o lençol,
desfaz-te nesse colchão,
enrola-te como um caracol.
Nessa certeza sempre à mão
és o vicio vadio com o cio de um cão.
31/07/2010
ao zé toino
E o tempo age,
solta as amarras e leva tudo,
o que foi, o que é e o que será.
E a noite leva a luz,
e o vento leva o pó,
e o pó leva histórias,
e as histórias espalham-se,
e o mar leva os grãos,
e os grãos desfazem-se,
e o tempo leva tudo.
E o tempo age,
e os poetas inventam,
e as palavras são vazias.
Porque o céu é apenas o céu,
o mar apenas o mar
e a terra apenas a terra,
porque uma palavra é, tão só, uma palavra,
e por muito que queira ser uma árvore,
não sou,
por muito que quisesse ser um rio,
não sou,
por muito que gostasse de ser a lua,
essa que os lunáticos gostam de enfiar nos poemas,
não sou,
e o tempo leva tudo,
as palavras também.
E o tempo age,
olá se age,
marca-se no corpo,
marca-se na alma (o que quer que esta seja)
e leva tudo,
leva a inocência,
leva a pujança,
leva a virilidade,
leva a saliva que nos faz dizer
e mata a sede,
e se isto for uma metáfora,
que seja boa e a possas embrulhar e oferecer a alguém,
e, já agora, leva o sentido que eu não quero,
porque o tempo leva tudo.
Se me deixar só um bocadinho da tua memória,
talvez consiga ser um pouco mais.
E o tempo agiu.
07/07/2010
parabéns
O patrão farto das faltas ao trabalho às segundas-feiras de determinado empregado que gostava muito de beber diz-lhe,
Ó homem mais uma segunda que faltou, assim não pode ser.
Morreu-me um familiar Sr. Carvalho, responde.
Morrem-lhe muitos familiares às segundas-feiras, diz o patrão.
Sim Sr. Carvalho é verdade, e tenho cá a impressão que na próxima semana vai morrer outro.
Esta estória e, principalmente, o contexto e a forma como é contada define o meu Pai, que faz hoje 70 anos. Agora imaginem 60 anos, começou a trabalhar aos 10, de estórias verídicas como esta, dava um belo conjunto de micróbios, vermes, parasitas, qualquer coisa assim.
02/07/2010
e ignoram meu ofício ou minha arte
Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.
Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.
Dylan Thomas
01/07/2010
30/06/2010
ainda bem que escrevi logo de manhã
José Mourinho, novo treinador do Real Madrid, assumiu nesta quarta-feira a defesa de Cristiano Ronaldo, afirmando que não se pode tolerar que se atribua a um jogador as responsabilidades pelos resultados de toda uma equipa.
"O Cristiano pode ficar tranquilo e desfrutar as férias. Não permitirei na próxima temporada que se faça pesar sobre ele a responsabilidade de toda uma equipa", disse Mourinho à agência Lusa. Enquanto jogador da minha equipa permito-me fazer um comentário que não fiz desde o começo do Mundial: nas minhas equipas, quando ganhamos, ganhamos todos, quando perdemos, a responsabilidade é só minha", acrescentou.
"Os grandes jogadores marcam a diferença porque são melhores, mas as equipas são um conjunto", prosseguiu.
Sinto-me um autêntico special none, porque estas declarações que li agora vão ao encontro do que penso e escrevi de manhã. Ainda hoje me disseram que iriamos ver como seriam as relações do Ronaldo com o Mourinho. Para já começam bem, mas esta é a diferença entre treinadores que dão camisolas largas para os jogadores jogarem à vontade e os que lhes espetam com camisas de forças e depois ainda dizem que se forem apertadas de mais que fiquem em casa.
"Enquanto estiver à frente da selecção, se o tamanho da camisola for pequeno demais para algum corpo, então não precisam de estar aqui", considerou o técnico, numa conferência de imprensa que serviu de rescaldo à campanha portuguesa na África do Sul.
Agora vou ali à rua de cima dizer que sou o special none e oferecer-me para treinar os Os Pastilhas, o clube onde ainda joguei com o Figo.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_Futebol_Clube_%22Os_Pastilhas%22
respeitinho
Este jornalismo, descrito em baixo, no desporto em geral e no futebol em particular, ganha, como se fosse possível, uma dimensão de avalanche. Que melhor exemplo do que este campeonato do mundo, em que numa fase inicial, a fase do cume, se deu a ideia que seriamos campeões, porque tínhamos o melhor jogador do mundo, porque somos o Brasil da Europa, porque os nossos jogadores são os mais bonitos e têm as unhas arranjadas e tudo, esquecendo-se que fomos apurados para o mundial com uma sorte incrível e que, ao contrário de Felipe Scolari, Carlos Queiroz nunca conseguiu fazer uma verdadeira equipa, que fosse segura e eficaz.
Depois vieram as más exibições nos jogos de preparação e a neve começou a derreter, de repente caiu o primeiro bloco, a estória do Nani começou a ter contornos de romance policial com espionagem à mistura, afinal o homem até teve de ser operado, logo a seguir, a péssima exibição com a Costa do Marfim faz cair mais outro bloco de neve, para alguns ainda existiu a desculpa do primeiro jogo e da força da selecção Marfinense, nunca esteve em causa as capacidades dessa selecção mas sim as incapacidades da nossa, vieram os sete a zero à Coreia e, qual João Garcia, já estávamos no pico dos Himalaias outra vez, sem se perceber que essa foi uma vitória sem substância, em que na primeira parte o resultado até podia estar em 1x1, e que o que aconteceu na segunda foi mais fruto do acaso e da desorientação dos outros do que mérito nosso. Com o Brasil foi mais do mesmo, uma selecção apática com a desgraçada da lebre (Ronaldo) no meio dos lobos, mas como foi um jogo com os nossos irmãos brasileiro em que até já estavam as duas selecções apuradas e não perdemos, é claro que podiamos ser campeões do mundo.
Até que chega a Espanha, uma verdadeira equipa que até na derrota, fruto dos acasos do futebol, com a Suíça, mostrou um futebol consistente e até apaixonante, naturalmente perdemos. A avalanche ganhou uma velocidade tal, que as normais declarações de Ronaldo fizeram espetar o nacionalismo bacoco, mais as bandeiras cheias de buracos, contra a parede, ainda por cima querem levar o rapaz atrás, como se já não lhe bastasse, fruto da estratégia medrosa de Carlos Queiroz, andar a jogar sozinho contra 4 defesas de metro e oitenta para cima todo o campeonato. Se eu estivesse no lugar dele ainda dizia pior.
jornalismo
A falta de jornalistas séniores, por exemplo. A televisão portuguesa, no seu conjunto (mais aplicadamente na RTP, o que é estranho — e muito menos na SIC), abdicou da presença de jornalistas séniores. Na CNN, Sky, CBS, etc., entregam-se os momentos «mais solenes» ou apenas «mais importantes» a jornalistas seniores. Pessoas que já leram, que não embarcam na primeira histeria, que relembram uma história relacionada (coisa só possível com memória, cultura e, até, experiência), que são capazes de traçar a biografia de um entrevistado em quinze segundos sem destruir a oportunidade (por exemplo: no funeral de Saramago, reduzir Guilherme Oliveira Martins a presidente do Tribunal de Contas), que não reduzem o material de apoio a dois prints mais recentes da internet (já leram, pois), que não caem na primeira treta que alguém deixa cair perto do microfone, que têm a noção da maneira como se deve fazer uma pergunta sem ofender o senso-comum (a jornalista aproxima-se de um táxi à hora do jogo Portugal-Brasil e quer saber por que razão está ele ali a ouvir o relato pela rádio, e não diante da televisão: «Porque está aqui e não foi ver o jogo? Está a trabalhar, é?»).
Aqui: http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/1198273.html
O fascínio que tinha pelo jornalismo acabou quando, em Julho de 1993, um jornalista da então recente SIC, perguntou a um dos pais de uma criança falecida nas piscinas do aquaparque o que sentia naquele momento. O corpo da criança tinha acabado de ser encontrado.
Depois disto só podia ser a descer e a descida tem sido vertiginosa.
puxando a brasa ainda mais
Gostava ainda de salientar que a logística para o trabalho da Mafalda foi bastante complicado, porque apesar da mãe viver na zona, o horário de trabalho não lhe permitiu ajudar a filha, a não ser facilitando um ou outro contacto. Depois ainda teve o azar de perder o disco onde tinha todo o trabalho, tendo sido preciso recorrer a um especialista de informática para recuperar as fotos no computador da mãe e voltar a enviar para Portugal. Como se não bastasse, há três semanas, enquanto preparava o texto final, teve uma infecção no umbigo que a obrigou a ser submetida a uma cirurgia e ficar 3 dias no Hospital, mais uns quantos em casa cheia de dores.
Mesmo assim, o tal plano B nunca lhe passou pela cabeça. Deixo aqui apenas três fotos do trabalho, quando puder deixo o trabalho todo.
Uma mãe
Alunos no intervalo
Uma sala de aulas
Se alguém me explicar, de forma que eu entenda, onde é que a cor faz falta a estas fotos eu agradeço.
Alunos no intervalo
Uma sala de aulas
Se alguém me explicar, de forma que eu entenda, onde é que a cor faz falta a estas fotos eu agradeço.
29/06/2010
cabeçadas
Ontem, fui com o meu pai e o meu filho ver a apresentação do trabalho final do curso profissional de fotografia da minha filha, equivalente ao 12.º ano.
Num auditório com boas condições, aluno após aluno os trabalhos eram apresentados, o júri era constituído por uma repórter fotográfica do jornal Sol, uma representante do sindicato dos jornalistas para a parte escrita, o professor acompanhante do trabalho, a directora de turma, a coordenadora do curso e o director da escola. Até aqui tudo bem, apesar de me parecer exagerado a quantidade de pessoas para analisar trabalhos que, na maior parte dos casos, demoravam 5 minutos a serem apresentados. O que me deixou relativamente espantando e ao meu pai verdadeiramente estupefacto (outra geração, outro profissionalismo, outros hábitos) foi a pseudo-avaliação proferida por aquelas eminências, com excepção para a coordenadora e a representante do sindicato. Os primeiros quatro trabalhos, além de fotograficamente pobres, os respectivos alunos falavam como se estivessem numa amena cavaqueira com o colega do lado, ou seja, eram tipos para aqui e tipos para ali com fartura, depois passavam uma dúzia de fotografias num silêncio confrangedor. O júri elogiava ora o tema, ora uma fotografia ou outra mais bem conseguida, ora a personalidade do aluno que tinha tido o bom-senso de abandonar o plano A e seguido um plano B mais simples e etc.
O meu pai completamente banzado encolhia os ombros na minha direcção.
O panorama depois melhorou um pouco, mas as palavras do júri eram, basicamente, as mesmas. Quando chegou a vez da Mafalda, apresentou um trabalho sobre o povo Macua, tribo de Moçambique, em que além da qualidade das fotografias, juntou um discurso linear sobre cada uma das fotos, onde os costumes eram explicados sem, tão pouco, o recurso a uma cábula que tinha levado, o que para quem tinha estado semanas com aquele povo e sabia bem do que estava a falar não terá sido difícil, chegando ao ponto de comover uma parte da sala e até um elemento do júri, acabando a apresentação, que durou cerca de 15/20 minutos, com um ditado tradicional Macua, "Viver só é apodrecer."
A primeira intervenção foi da menina do Sol que perguntou o porquê da opção pelo preto e branco. A Mafalda sorriu dizendo que já sabia que essa iria ser a primeira pergunta e responde, calmamente, que além de um gosto pessoal por trabalhar a preto e branco, entende que a cor, por vezes, pode desviar a atenção dos pormenores a que quer dar importância, além que, neste trabalho, simbolizava também a simplicidade da vida daquelas pessoas. Resposta daquela pessoa que parece que é fotografa no jornal Sol, "Pois, mas para mim África é cor e, além disso, 28 fotografias é demasiado para uma foto-reportagem." Ok, ficámos a saber que para aquela sra./menina, África é cor e que não interessa a qualidade das fotografias nem da história que contam, o que interessa é que deviam ter cor e ser menos porque concerteza deve ter mais que fazer que aturar 28 fotografias de uma miúda que não conhece de lado nenhum. Porreiro pá, já agora segue o rumo dos jornalistas do Público e vai fotografar o que vai acontecer, talvez acontecer ou mesmo não acontecer aos futebolistas norte-coreanos. E para não ser maçador com tanta banalidade, passo ao director da escola que foi o último a falar, disse que a Mafalda não podia defender as opções num trabalho só porque gosta, ou seja, só apanhou a primeira frase que a miúda disse na resposta da opção pelo preto e branco o que, tendo em conta a cara de frete que tinha, me parece perfeitamente normal.
Para mim nada disto foi novidade, mas para o meu pai, afastado da vida profissional há cerca de 10 anos, embora com mais de 40 anos de experiência em artes gráficas, fotografia, publicidade, foi um choque tremendo ver o estado a que chegámos, nem tanto os putos, mas a banalidade, a incoerência, a sobranceria dos professores/profissionais do júri deixaram-no verdadeiramente enervado, tive de o aturar o dia todo.
Muitos poderão pensar que a questão genética poderá estar a toldar a razão, principalmente do avô, mas nesta casa a crítica implacável é ponto de honra entre todos nós e mesmo sobre nós, é uma família onde se fala muito e, às vezes, alto, onde não existe reverência aos mais velhos mas entendimento, nem que seja à cabeçada.
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