25/05/2011

antónio passos

O António Passos voltou a dar notícias, sem dizer onde pára nem para onde vai nem, tão pouco, quando volta, deixou-me no email mais esta excrescência.



Dá-me um beijo e leva-me o desassossego,
um abraço, um olhar, qualquer coisa que possas,
uma história, um parágrafo, uma frase ou palavra,
uma intenção que seja, pelo menos.
Qualquer coisa que consigas, que tentes tão só,
que me destape, me descubra, me afronte, me encontre.
Estou-me a ir e nem o vento me leva.
Estou parado e nem a terra me quer.
E neste desassossego vou perdendo a vida, que não sei onde continua.

Já não sei se é vazio que sou ou eu que sou vazio,
se é a memória que perco ou pensamento que nunca tive,
se é o tédio que faz pena ou a pena que construiu o tédio,
se é a contradição que faço o desespero que sou,
se é o silêncio que não digo as palavras que não sei.
Depois, invejo a sobriedade com que desfazes,
a coragem com que perdes e desamparas,
a calma serena com que abandonas, largas e partes.
Já não sei se a miséria que sinto é a miséria que encontro ou a que deixo.

Ei-la em todo o seu notável esplendor, a puta!
Ilusão abstracta e emaranhada, como um sonho que não tenho,
emoção descontínua que faz, mas sobretudo desfaz
poço escuro por onde deslizo e estatelo sem contemplações,
predadora voraz de um fado já esboçado e desafinado.
Olhem bem, vejam como se ri, a déspota,
como se baba, ávida pelo sal do sangue quente,
como se alegra num festim de desengano, desilusão e perda.
Ei-la, a puta, que indomável acelera o tempo e domestica a ambição.

Deliro. Deliro com a febre que o desassossego me provoca,
e me tolhe a alma nula como um porto sem barcos,
de onde parto à deriva de impressões que vou deixando,
onde me fico na inércia mole da incerteza que cumpro,
e onde a vacuidade se dispersa abraçando toda a acção e sonho.
Sou eu que assim me faço, apenas eu,
de sensibilidade inconsequente,
de emoções fúteis,
de sensações absurdas,
de enigmas obscuros,
de racionalidade devastadora,
de vontade vazia,
de desejo estéril
de utopia vã,
de histórias insignificantes.
Sou eu, apenas eu, que tento o que não posso, que tenho o que não vislumbro.
Que horas são?
Qual será a hora a que sai o barco que não vejo e me leva o desassossego?

24/05/2011

bom dia

Para Manuel Zacarias Segura Viola tudo ficou mais simples desde que as ilusões findaram num dia incerto que não lembra, a partir daqui o sonho passou a ser determinado pelas direcções que o coração aponta. Tudo o resto lhe parece treta.

19/05/2011

idade II

- Já não percebo nada disto da idade. Sempre afirmativo, Manuel Zacarias Segura Viola solta este desabafo com o amigo José Tobias Taramouco, enquanto lhe salta um delicioso caracol para boca. Tobias distraí-se com um olho na imperial e outro numa natureza viva qualquer que não sabemos. Zacarias habituado às distracções do amigo volta à descarga deixando-se de eufemismos.
- Não percebo mesmo nada desta merda da idade.
Mais obrigado que tentado, Taramouco lá resolve tirar o olhar de nenhures que será algures para ele para se concentrar na frase do comparsa.
- Lá vens tu com isso, o que foi agora?
- O que foi não. O que é? Diz antes o que é?
Depois de dar um golo na imperial e perder-se com uma folha que o vento leva, Tobias, sempre sereno, olha o amigo e responde.
- Então 'tá bem, o que é?
- És sempre o mesmo, lês livros e mais livros, filosofias e mais sei lá o quê e um gajo anda aqui com um dilema existencial e tu perdes-te a olhar sabe-se lá para onde.
- Estou a olhar para ti homem, fala.
Segura Viola engasga-se na frontalidade do amigo e demora uns segundos a retomar o discurso.
- Épá sei lá...  lembras-te da conversa sobre a idade que tivemos da última vez.
- Vagamente porquê?
- Acho que está tudo ao contrário.
- Ao contrário como? - espanta-se José Tobias
- Sei lá, parece que tenho 20 anos outra vez.
- Bem vi que estavas com uma enorme cara de parvo.
- Vê lá se te engasgas no teu sarcásmo.
- Engasgo-me é na tua parvoíce, diz Taramouco entusiasmado consigo próprio.
Manuel Zacarias Segura Viola nunca desarmando responde secamente,
- Goza à vontade, sei bem do que estou a falar.
Entretanto, come mais um caracol que se lhe enrola na alma, olha Taramouco ainda satisfeito consigo próprio e diz-lhe:
Sabes, podes voltar a olhar para o vento, depois diz-me o que ele te disse.

16/05/2011

beautiful

Não vale a pena, não vale mesmo a pena e o pior é que nunca valeu nem valerá a pena.
Aqui, debaixo deste sol, outra vez, o mesmo sol de antes e o mesmo de amanhã, até ao dia em que uma explosão levará e lavará tudo, pó cósmico e nada mais que pó, entretanto vamos lavando os dentes num espelho onde já não nos reconhecemos, porque as cáries aleijam e a boca quer-se fresca para dizer asneiras e, já agora, para dar beijos fugazes no destino. Saborearmos o hálito do tempo que nos entra pela boca, ora como um tornado, ora como uma brisa fresca, penetrando-nos até aos lugares mais recondidos de um interior bem profundo, tão profundo que quando o queremos agarrar já o perdemos sabe-se lá encostado a que cavidade estranha do corpo. Depois pensamos, o que é uma verdadeira chatice, mas pensamos, e perde-se tempo, muito tempo à procura do tempo que perdemos e às voltas com o que não encontramos, nesta demanda a pele engelha-se, as articulações desarticulam-se, a memória desentende-se e as entranhas comem-se num banquete delicioso de iguarias fora de prazo. Às vezes salva-se o coração, esse revolucionário apaixonado e sonhador que nos salta no peito e teima em pontapear o destino traçado, e no dia que desista, que pare por não caber mais de tão cheio que a vida o deixou.
E voltamos ao início, sim voltamos ao início, porque não vale mesmo a pena, até porque as penas são muito leves e voam.


Every day is so wonderful
And suddenly, it's hard to breathe
Now and then, I get insecure
From all the pain, I'm so ashamed


I am beautiful no matter what they say
Words can't bring me down
I am beautiful in every single way
Yes, words can't bring me down
So don't you bring me down today

To all your friends, you're delirious
So consumed in all your doom
Trying hard to fill the emptiness
The pieces gone, left the puzzle undone
Is that the way it is?
'Cause you are beautiful no matter what they say
Words can't bring you down
'Cause you are beautiful in every single way
Yes, words can't bring you down
So don't you bring me down today...
No matter what we do no matter what we say
We're the song inside the tune full of beautiful mistakes

And everywhere we go the sun will always shine
But tomorrow we might awake on the other side
We are beautiful in every single way
Words won't bring us down
We are beautiful in every single way
Yes, words can't bring us down
So, don't you bring me down today
Don't you bring me down today...

12/05/2011

bom dia

Manuel Zacarias anda com o coração mais dilatado, é dos calores, quanto maior fica mais claro lhe parece tudo, o passado pouco lhe interessa, menos ainda alguns assuntos que teimam em surgir, o presente saboreia-o o melhor que consegue e pode, mas, sente sempre, que todas as cavidades apontam para um futuro que não sabe qual é.

06/05/2011

lavagem

o bailarico continua

Não gostaria de parecer enganador, que esta cena da parvoíce não é um exclusivo lusitano mas sim humano, este animal que chamamos Homem. No outro dia vi na TV um grande aglomerado  desta espécie, todos contentes a pular, gritar, rir, chorar, esse tipo de coisas que chamamos emoções, pelas bandeiras era para o lado dos USA. Tendo em conta o local, pensei que fosse um qualquer espectáculo daqueles espectaculares mesmo que só eles sabem fazer, usando linguagem corrente, assim tipo a Madona numa casa fechada com a Jay Lo em cenas lesbianas, ou o Elvis o Presley vindo do além de mão dada com o Michael Jackson a dizer-lhe não faças isso menino feio, ou, ainda, o Bush com o dedo no cu a apanhar macacos do nariz (a geografia nunca foi o forte deste animal), mas não, afinal estavam só a comemorar a morte de um sr. barbudo que é (era) mau. Parece que o tal barbudo era mesmo mau como as cobras como se usa dizer, porque na realidade as cobras não têm culpa da sua natureza, parece que a maldade deste barbas advém do facto de ter criado uma instituição que matou cerca de cinco mil e tal pessoas, o que, de facto, é uma tristeza.
Por causa desta tristeza o outro sr., o dos macacos no nariz, iniciou umas guerras que mataram muitos mais animais da espécie do que os tais cinco mil, claro que neste caso eram todos maus, aliás maus como as cobras mesmo, os que não eram maus eram apenas danos colaterais, assim como assim para quem procura macacos com o dedo no cu que diferença faz.
Assim, proponho também um bailarico, com aquela volta que já sabemos, nesta grandiosa nação, pode ser no grand canyon ou nas cataratas do niagara, a banda sonora pode ser o Bad daquele menino amigo de todos os meninos.

05/05/2011

vai um bailarico

Aqui estamos, debaixo deste sol que vai e vem, plantados na beira deste mar que nos salga a boca até o coração saltar do peito e explodir pelos olhos, deixando os bocados espalhados por tudo quanto é lugar.
Nesta azáfama parva dos parvos, mesmo tentando evitar, lá existem parvoíces que nos caiem em cima e nos deixam com o mesmo mal-estar de quando um passaroco se larga no nosso melhor fato ou, pior ainda, na cabeça, embora aqui merda por merda é só ver qual pior cheira, nada que um bom shampoo não resolva, o pior mesmo são os condicionadores. Aliás, aqui de mim para mim e quem mais quiser apanhar, não me admiraria nada é que o nosso problema seja usar condicionador a mais, pensando ou merdando que assim nos desembaraçamos melhor e cuidamos melhor das pontas soltas, quando na verdade só condicionamos ainda mais uma forma de estar já de si mais que condicionada, isto porque atrofiada é uma palavra que não me apetece usar.
No meio de tantas troikas e baildrokas quem fica trocido sou eu, e quem mais quiser que nestas coisas não sou egoista, mas como o baile segue a dança continua, e dançarinos é o que não falta por aí. O pior são mesmo aqueles que dançam sempre para o mesmo lado e depois viram e começam a dançar para o lado contrário e assim sucessivamente, num vai e vem constante determinado ou, melhor, condicionado ao sabor das tais troikas e baildrokas que os comandam, nesta dança ainda se realçam os pisadores, ou seja, aqueles que apesar de saberem o baile de cor estão sempre a pisar os pés do parceiro.
Por mim, proponho um original baile ao ar livre no Cabo Espichel, com o grandioso título de Baile Final, a originalidade poderia ser que uma das voltas se daria para o lado do mar por exemplo.
Ainda bem que tenho dois pés esquerdos e uso sabão azul e branco.

28/04/2011

aconteceu sim

Neste texto http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2011/04/25-de-abril.html, relativamente ao 25 de Abril, o hmbf diz que andamos a comemorar uma revolução que ainda não aconteceu. Discordo muito desta frase do Henrique. A revolução aconteceu, nos meus 5 anos lembro-me perfeitamente do sentimento de liberdade sentido, de um país que parecia estar a sair de um ventre putrefacto, onde de repente, apesar da tenra idade, me vejo a ajudar o meu pai a colar cartazes, ir a reuniões políticas, vendo nos olhos das pessoas uma vontade e alegria impossíveis de descrever, vender o Avante, que era maior do que eu, livremente na rua em bancas onde também se vendiam bustos do Lenine, Marx entre outras coisas, organização de eventos desportivos, recreativos, culturais sem outro intuito que o prazer de oferecer algo à população.
Isto durou um ano e cerca de outro de resquícios do anterior, mas aconteceu, só depois veio tudo o resto que está no texto do Henrique.

chamber music

XXVIII

Amável senhora, não cante
Canções tristes sobre o fim do amor;
Afaste a tristeza e cante
O quanto basta o amor que passa.

Cante o longo e profundo sono
Dos falecidos amantes, e como
Na sepultura todo o amor repousará:
Por ora o amor está cansado.

James Joyce, in Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 2001, p. 40.
Versão de HMBF.
Aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/

bom dia

O coração de Manuel Zacarias sente que algures perdera o fio à meada, o que, tendo em conta uma variedade de situações, até acha normal. O que preocupa Segura Viola, é mesmo não ter a noção do que é a meada.

01/04/2011

bom dia

Manuel Zacarias Segura Viola anda com o coração inchado, entre a paixão constante e angústias momentâneas o coração não para de crescer. Até aqui tudo bem, o problema mesmo são os gases que o inchaço provoca.

31/03/2011

António Passos

O António Passos é um tipo estranho. Encontro-o nos lugares mais improváveis desde há sete anos a esta parte e, sempre que nos encontramos, além de me contar histórias ainda me oferece textos rabiscados em teclados inimagináveis. Sendo uma pessoa escusa e um pouco evasiva, lá me vai pedindo para deixar aqui alguns dos textos que me dá, sempre anonimamente.
Uma das coisas que me disse sempre, era que não lhe interessava para nada os sentimentos ou a profundeza dos sentimentos nas palavras, no que escrevia o que lhe interessava mesmo eram as palavras, as frases, porque o sentimento pode ser datado, a beleza das palavras não. Ainda me dizia que o sentimento é uma coisa mais pragmática, como um pai a ajeitar o cabelo a um filho ou um namorado a sorrir apaixonado com a chegada da namorada, contra tudo isto as palavras não passavam mesmo de palavras, só palavras que o tempo trazia e que o tempo levaria, os gestos eram eternos, ficavam cravados até ao fim desta vida e, quem sabe, retornavam numa próxima se a ela tivéssemos direito.
Para um céptico como eu, tanto a postura misteriosa como este tipo de diálogo deixavam-me inquieto, apesar de uma enorme vontade nunca aprofundei conhecimento com o António, não sei nada da vida particular do homem, mas cálculo que não tenha página no facebook. Aqui há uns dias, disse-me que ia de vez, agradeceu-me e despediu-se assim:
- Aqui vou eu, António Passos de Solidão.

Deixou-me um último texto:

Apetece-me partir de mim sem volta que não a ida.
E se no caminho todos os passos se apagarem,
e se na chegada todos os pensamentos se perderem,
será que aquele que de mim parte nunca terá existido?


Nunca pensei muito no fim físico,
menos ainda no depois,
mas sinto,
continuamente,
um desejo de não existência que a morte nunca conseguirá apagar.
E este desejo implica com esta minha vida escusa e enfadonha,
não com a morte que,
pelo menos,
tem a virtude do enigma.

A morte é pó só pó e nada mais que pó.


Talvez seja por tudo isto que gosto tanto do vento,
imaginar-me pó liberto à sorte sem destino,
chegando a todo o lado,
conhecendo todos os cantos,
todos os recantos,
todos os encantos que não encontro ou consigo agora.


Será o tédio que sinto apenas a espera deste mistério?


Tudo me cansa,
os pensamentos que não encontro mas,
também,
os que faço.
E todas as sensações.


O sol que nasce claro ofuscando,
as nuvens densas que escondem as impressões que sinto e as que aspiro,
o mar que se revolta ou o céu tranquilo marinando.

Entretanto,
olho por cima de mim para mim,
dou meias voltas com voltas e meia e giro,
rodopiando em espirais de considerações,
elevando-me até ao patamar em que a invenção
não é mais que uma fábula entediante dos sonhos que perco.
E,
do alto da minha confusa congeminação,
desço tonto de tanto rodopio e esqueço tudo,
o que fui,
o que sou,
o que nunca virei a ser,
e faço um interstício de mim mesmo.
Paro toda a acção que não sou e os pensamentos que imagino.


Assim,
deslembro-me da vida,
menos do cansaço.

22/03/2011

para L.

Começou a Primavera e tudo parece mais claro e intenso,
olho os meus plátanos de braços abertos, ainda despidos,
tento um contraste com o gelo cristalino de Takk
e sinto-o derreter, desfazendo-se em gotas de água límpida.
Nesta noite morna alcanço tudo e a ti também.

15/03/2011

ende


De que vale cantares se não puderes gritar.

tremores

Salvaguardando o drama humano, nunca ouvi nem li tanta baboseira por causa de algo que é uma realidade com a qual teremos de viver enquanto estivermos cá. Cada vez que o planeta tosse são os mercados e os milhões e os prejuízos e mais não sei quê, se um dia vier com o catarro do fumador está tudo fundido.
As centrais nucleares sim, são um assunto que está nas nossas mãos. Quer dizer assim mais ou menos um bocadinho.

convicção



Também pode ser uma manifestaxão, uma canção de protestu, uma indignaxão, uma revoluxãozita, embora lá vender qualquer coisita a ver se deixamos de ser percaros.

12/03/2011

convicção

Só ia à manifestação de hoje se fossem todos nus.

bom dia

Manuel Zacarias Segura Viola tem um coração do tamanho do mundo. Sendo um coração virado para o futuro, não deixa de guardar muitas memórias, desde as coisas mais importantes a pequenas trivialidades que, por qualquer motivo, se lembra de vez em quanto.
Numa simplicidade que não é mais do que uma ingenuidade bem resolvida, por vezes o coração surpreende e, de tão grande que fica, deixa-o engasgado e sem ar.

07/03/2011

xistrices

Arrancou o campeonato e, desde já, podemos dar os parabéns ao novo campeão. Tirando raras excepções, não acredito em campeões só pela excelência do futebol. Tal como o ano passado os penaltys assinalados a favor do Benfica deram um empurram para a excelente época, o penalty a favor do Porto e os que não foram marcados a favor do Benfica, nesta primeira jornada, definiram o rumo deste campeonato. É preciso lembrar que esta já não é a Liga Sagres, mas sim a Liga Zon Sagres, e todos sabemos a quem pertence a Zon. Agora vou para o monte mais uma semana, ver se o Ti'Joaquim tem uma explicação para isto.

Como se pode ver pelo post em cima de 16 de Agosto, desde a primeira jornada que, para mim, este campeonato está decidido. Sem novidade portanto. De qualquer forma, porque ninguém esperava que o Benfica tivesse a força, a qualidade e a garra que vem demonstrando e não vá o Diabo ou os Diabos Vermelhos tecê-las e para que não restassem dúvidas resolveu despachar-se a questão (aliás com um artista já mais que conhecido e reconhecido).
Além disso é preciso não esquecer que a equipa do FCP precisa de começar a descansar para a Liga Europa.
Resta a pena de não ver uma liga que podia ser sensacional, com um super Porto e um super Benfica a disputá-la até ao fim.
Parabéns.

05/03/2011

o homem espiritual

Sempre pensei que toda a existência devia ser espiritual.
Como uma extensão extra-large de um estado de consciência,
como uma árvore que estica as raízes e, parada,
medita durante anos que se fazem séculos.
A futilidade um escarro da matéria,
a substância a água fresca na garganta,
a essência num pathos profundo
de uma transcendência verdadeiramente transcendental.

Mas não é.
Nesta noção sou uma interpretação de mim mesmo e,
como perdido num labirinto, começo a suar em bica.
De repente começo a sentir umas vibrações estranhas,
entre diversos pensamentos desarrumados,
levita uma sensação real de perda de líquidos.
Tento chegar à torneira mas não consigo,
cada vez levito mais e quanto mais levito mais suo,
quanto mais suo mais sede tenho.
Perplexo, vejo-me mais e mais longe,
entro numa de holista e tento compreender tudo,
a real dimensão em que me encontro.
Aspiro um todo e começo um processo de desmaterialização,
omnisciente,
vejo tudo, conheço tudo, sei tudo e sinto tudo.
Principalmente a sede que não me deixa partir.

04/03/2011

o homem leve

Sempre pensei que o mundo devia ser leve.
Como uma bola de sabão soprada sem rumo ao sabor do vento,
onde se poderiam transportar os sonhos e outras coisas simples,
como a transparência de todos os desejos.
A gravidade amarrada nos confins da existência,
o peso a enxada que revolve a terra,
e a seriedade uma ilusão que rebenta
na naturalidade dos pés sobre chão que seremos.

Mas não é.
Neste sentido ganho asas e começo a voar sem tino,
e, como um desenho mal animado, desafio os céus.
Meto a primeira e arranco prego a fundo, mundo,
meto a segunda e dou um esticão, corpo,
meto a terceira e ganho velocidade, espírito.
Nesta viagem o silêncio faz-se de cores,
verde natureza do musgo contra o solo,
azul mar contra a rocha cinza esburacada
e amarelo torrado nas dunas do deserto.
Nisto, enquanto o meu olhar repousa sobre tudo,
surge uma sombra que me acompanha,
estico até à quarta e tento fugir,
forço a quinta e fico fora de mim.
Na sexta fugi de tudo antes de me estatelar sobre o Cristo Rei.

02/03/2011

rosas em mar de espinhos




Quero-te como se não existisse amanhã,
quero-te como se ontem fosse um pedaço de chão que cultivei,
quero-te como se hoje fosse o tempo que não controlo,
quero-te como se agora fosse o momento em que me perco.

Assim,
só admito estar ao pé de ti,
sempre e só junto a ti,
se te puder beijar os lábios,
acariciar o palato com a língua,
conhecer todas as palavras na troca da saliva que fazemos,
transformar o teu corpo num abraço de querer

e respirar

o cheiro que sente a fome,
feito na pele da pele que cheira,
e,
também,
o sexo claro,
porque teu,
e,
finalmente,
saciar-me na recompensa da tua capacidade de acolhimento.

Depois,
piscares-me um olho cúmplice,
sorrires e receberes o meu amor,
todo.
Porque esta é existência que quero,
porque tu és a existência que desejo,
porque a vida não é um mar de rosas,
ainda bem porque os espinhos aleijam.

arejar

serei

Serei uma planície vasta e serena
uma montanha que rasga o céu
uma frase longa ou pequena
uma metáfora que o desejo deu

Serei como as pedras por onde passo
ou como o vento que corre
serei um espírito devasso
um corpo inerte que não morre

Serei uma árvore robusta em flor
um fruto pronto a ser colhido
uma mente atormentada de dor
num sonho que foi esquecido

Serei um muro que não deixa ver
ou janelas transparentes
serei uma alma sem querer
lágrimas que caiem indiferentes

Serei uma raiz que brota da terra
uma semente que tarda em nascer
uma vida que só encerra
esta mágoa que teima em viver

Serei como uma rocha intransponível
ou como o mar violento
serei um som seco, inaudível
canções trazidas pelo vento

Serei uma palavra desalinhada
ou uma simples frase batida
serei algo parecido com nada
o primeiro dia do resto da vida

Serei um gesto desordenado
uma expressão grave e triste
serei um futuro continuado
uma pessoa que desiste

Serei um texto mal acabado
ou o princípio de uma linha
serei um livro estragado
uma folha que definha

Serei como um grito estridente
ou como um sussurro inquietante
serei uma estrela cadente
um simples vagabundo errante

Serei um romance sem história
um clássico sempre eterno
serei o altar e a glória
uma descida ao inferno

Serei como a carne a gretar
ou como a pela macia
serei o mundo por amar
uma alma escura e sombria


Serei um vulcão explodindo
um deserto imenso, vazio
serei um deus terno rindo
um pensamento duro e frio

Serei como a raiva de um poema
ou como a fúria de um touro
serei só um sentido de pena
de não saber o que é ouro?

15/02/2011

o homem pragmático

Sempre pensei que toda a acção devia ser pragmática.
Como uma linha que serve apenas para transportar comboios,
que nos levam daqui para ali e dali para aqui,
sempre com um objectivo bem definido.
As teorias comprimidas no ferro dos carris,
o certo e o errado ultrapassado na velocidade da viagem,
o pluralismo só mais um ismo que devoramos na passagem
e a utilidade a verdade como um facto real.

Mas não é.
Nesta jornada carrego mil pesos e uma chama que me deixam prostrado,
e, como uma ficção sem sentido, sinto o corpo a arder.
Procuro o meio mais eficaz de baixar este sobreaquecimento,
o intelecto e a energia ao serviço da condição humana,
a eficiência a ciência que salta sobre um fatalismo estéril.
Recorro à lógica e deito-me numa banheira de água fria,
a temperatura começa a baixar imediatamente,
nesta voragem pragmática os pés ficam dormentes,
depois as pernas, o tronco, os braços, as mãos.
Lentamente, começo a esquecer o corpo,
pedaço de carne que transporto,
daqui para ali dali para aqui,
mas nunca para todo o lado.
Nesta inércia gelada perco a noção de tudo menos da febre que me consome.

11/02/2011

a necessidade

Prometeu Nem virá sobre mim nenhum sofrimento imprevisto. Preciso é suportar o mais facilmente possível o que foi marcado pelo destino, pois bem sei que a força da Necessidade é inexpugnável. O destino, que tudo acaba, ainda não determinou pôr termo a isto, mas, depois de vergar ao peso de mil sofrimentos e calamidades, eu fugirei a estas cadeias. O engenho é, de longe, mais fraco do que a Necessidade. Corifeu Quem governa a Necessidade? Prometeu Agrilhoado – Ésquilo

o homem lírico

Gostava que a palavra fosse sempre um poema. Como um verso cruzado, emparelhado, interpolado, encadeado, esfolado, numa rima solta e a lua como pano de fundo, mais ou menos assim: procura o refúgio na tempestade nos ventos que são tornados na lua a eternidade e as palavras que são achados. Mas não é. Neste caminho troco os passos no ritmo que desafina, e, como uma nota deslocada, tusso a meio do pensamento. As emoções exprimem-se como um catarro descontrolado, o eu mais interior que se abre ao universo físico, espiritual também, com a alma e o karma dentro e tudo. A existência em todo o seu esplendor glorificado e a insignificância o sentimento que a tosse acorda, e cospe assim: oh tempo que desatina num frio que faz tremer neste catarro que ensina que às vezes a dor faz doer. Neste divagar perco o meu eu interior, os meus pensamentos mais íntimos. Resta-me a esperança que a constipação passe.

08/02/2011

um dia

Vladimir O que é que vão fazer quando caírem onde não estiver ninguém para vos ajudar? Pozzo Esperamos até nos conseguirmos levantar. E depois continuamos. A andar! Vladimir Antes de se ir embora, diga-lhe para ele cantar! Pozzo Quem? Vladimir O Lucky. Pozzo Cantar? Vladimir Sim. Ou para pensar. Ou para recitar. Pozzo Mas ele é mudo! Vladimir Mudo! Pozzo Mudo. Nem sequer é capaz de gemer. Vladimir Mudo! Desde quando? Pozzo Ainda não acabou de me atormentar com o raio do seu tempo?! É abominável! Quando! Quando! Um dia, não lhe chega, um dia como qualquer outro dia, um dia ele ficou mudo, um dia eu fiquei cego, um dia vamos ficar surdos, um dia nascemos, um dia vamos morrer, o mesmo dia, o mesmo segundo, não lhe chega? Dão à luz montados num túmulo, o dia brilha por um instante, e depois fica outra vez noite. A andar! À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001

31/01/2011

campeões

A vitória sobre o Belenenses por 1 golo nos últimos 5 segundos de jogo, deu o segundo título regional consecutivo à equipa de Infantis do S.L. Benfica. Agora segue-se o Campeonato Nacional.

30/01/2011

a música

No Fórum Romeu Correia em Almada, num grande concerto com grandes músicas, para mim esta foi a música.

28/01/2011

coisas que me deixam contente

As 6 biscas que o Miguel mandou para dentro da baliza do Sporting. No Almada, em 12 anos de andebol, raramente ganhei ao Sporting, o puto em 3 anos já leva 5 vitórias e nenhuma derrota sobre os lagartos, não sendo a mesma coisa não deixa de ser fixe. Esta época ainda não perderam, tal como o Belenenses, amanhã jogo decisivo em Belém, os pastéis não são nada fáceis de digerir.

A dança das feridas

Encomendas ver aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2011/01/danca-das-feridas-3.html Um dos poemas do livro Adão a Eva não temas a trovoada o aconchego do relâmpago senti-la aqui tão perto é um regalo a poucos concedido se a casa tremer lembra-te que não é de medo nem do frio das paredes as casas só tremem porque estão de pé fundadas na terra que recebe as ossadas dos relâmpagos as trovoadas não temas os mortos nem o aconchego dos vivos nem deixes morrer nos vivos as trovoadas que fazem tremer as casas

27/01/2011

mazgani

A não perder Sábado no Fórum Romeu Correia - Almada 21.30

25/01/2011

loucura

Gostavas que a loucura te arrancasse do torpor dos dias e trouxesse, embalada em papel colorido, as rugas da carne feitas num tempo e num espaço que nem lembras. Olhares e leres em cada pedaço uma letra, uma palavra, uma frase, uma história, um gesto perdido.

louco eu?

Vladimir Só sei que nestas condições as horas duram mais e nos obrigam a iludi-las com actividades que – como é que hei-de dizer – que poderão parecer à primeira vista razoáveis, até se tornarem num hábito. Poderá dizer que é para evitar o colapso da nossa razão. Sem dúvida. Mas será que não anda ela há já muito a vaguear pela noite sem fim das profundezas abissais? É isso que por vezes me pergunto. Estás a seguir o meu raciocínio? Estragon Todos nós nascemos loucos. Alguns mantêm-se. À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001

21/01/2011

o homem trágico

Sempre pensei que a vida devia ser uma tragédia constante. Como um vai que não vai que fica do lado contrário onde se vai estando, onde se quer, se deseja, se constrói, se luta, se existe e, sobretudo, se destrói. A salvação dentro de um tupperware rasca oferecido à vizinha do lado, o espírito solto ao vento num dia de tempestade, a razão batida em claras de ovo servida aos chacais e a vontade o destino final de cada acção. Mas não é. Nesta certeza tenho a consciência das mágoas que sou e faço, e, como um meio em que me fico, por vezes falta-me o ar. Então, no lado certo do passeio diz: Acabe com o seu sofrimento. Eu digo está bem. Já hoje? Quanto custa? Uma montanha de consciência, um balúrdio de negação, uns theras de individualidade, umas pitadas de necessidade, um molho de redenção, gigas de prazer, e, por fim, um universo de aceitação. Começo a rir e penso que é capaz de ser um pouco caro, procuro nos bolsos mas só encontro inquietação, da carteira salta um monte de desassossego. Nesta azáfama tropeço na calçada bato com a cabeça e morro, com um sorriso na cara.

20/01/2011

anibalices

Parece que Portugal não tem dinheiro para a democracia, segundo o candidato que não lia jornais, nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, que não é político nem se dá com eles, que gosta mesmo é de dar aulas, auto-estradas, bolo-rei, estar de pantufas, dar miminhos aos netos, à Maria e aos amigalhaços do BPN (um português exemplar este), uma hipotética segunda volta traria muitos custos ao País. No fundo o Sr. gostava mesmo era de ser nomeado, agora esta coisa de eleições, gastar papel, canetas e o bom tempo dos bons portugueses como ele claro. Aqui: http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=9535

começar

Estragon Enquanto esperamos podemos tentar conversar calmamente, já que somos incapazes de ficar calados. Vladimir Tens razão, somos inesgotáveis. Estragon É para não pensarmos. Vladimir Temos essa desculpa. Estragon É para não ouvirmos. Vladimir Temos as nossas razões. Estragon Todas as vozes mortas. Vladimir Fazem um barulho de asas. Estragon De folhas. Vladimir De areia. Estragon De folhas. Vladimir Falam todas ao mesmo tempo. Estragon Cada uma para si. Vladimir Ou melhor, sussurram. Estragon Ciciam. Vladimir Murmuram. Estragon Ciciam. Vladimir O que é que elas dizem? Estragon Falam das suas vidas. Vladimir Não lhes chega ter vivido. Estragon Têm de falar sobre isso. Vladimir Não lhes chega estar mortas. Estragon Não é suficiente. Vladimir Fazem um barulho de penas. Estragon De folhas. Vladimir De cinzas. Estragon De folhas. Silêncio Vladimir Diz alguma coisa! Estragon Estou a tentar. Longo silêncio Vladimir (angustiado) Diz qualquer coisa, não interessa o quê! Estragon O que é que fazemos agora? Vladimir Esperamos pelo Godot. Estragon Ah, pois é. Silêncio Vladimir Isto é horrível! Estragon Canta qualquer coisa. Vladimir Não, não! (Pensa) Talvez pudéssemos começar tudo outra vez. Estragon Isso era fácil. Vladimir O começo é que é difícil. À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001

10/01/2011

last rite

Queres um anjo antes do tempo e saber se vem num tempo que começa ou num tempo que acaba. Queres que chorem a perda com uma dor de alma e subir, como que pairando noutra dimensão, por sobre eles. Queres que te levem, o fim do Céu e do Inferno, dizes, e que a tua memória perdure numa expressão qualquer. No fim queres ter fé como aconchego, mas como é possível se não viveste assim. Angel calls on me set to take me out, angel with no face. the end of the line; beginning of time, a matter of faith. I see all my friends from distance afar on another plane, mourning over me: a sickness of heart a sense of betrayal. have you seen the twilight close so slow. (I rose over them so light). Men in black suits dressed cold soft wood and marble silk, to take me away. No heaven or hell. the memory behind lingers on a face. have you seen the twilight close so slow. (I rose over them so light).

31/12/2010

bom ano

Uma lição entre o minuto 5.11 e o 5.25

28/12/2010

natal

Que se foda o Natal mais a caridade com prazo de validade e as campanhas para ajudar aqueles que prejudicaram o ano inteiro, que se fodam os brindes, as ofertas, as promoções, os presentes, o trabalhinho a prazo. Que se foda a virgem para ver se consegue parir alguma coisa de jeito.

ifoda-se

O Media Market de Alfragide fez uma promoção de 3 horas sem IVA para celebrar os 3 anos de actividade. Vi que o mesmo se passou em Londres e na Austrália, claro que aqui tem sempre pormenores peculiares inerentes ao ser portuga como afinal só receberem um vale de desconto no valor do IVA para futuras compras, mas o resultado é parecido. Isto é o que temos numa sociedade com mais jornais, telejornais, internet com blogs, facebooks, telemóveis artilhados, ipods, ipads e ifoda-se que não quero viver neste mundo. Pelo menos podemos dizer, orgulhosamente, que é como no estrangeiro.

26/12/2010

o homem teórico

Sempre pensei que o mundo devia ser plano e navegasse pelo universo. Como um barco fantasma à deriva pelo espaço, sem tempo, sem mitos, sem deuses, sem conceitos nem precisões. A justiça embrulhada num papel largado ao vento, o pensamento atirado para uma lua qualquer, a filosofia transformada em estrume para adubar a terra e o sonho a noção premente de continuar a navegar. Mas não é. Neste ideal ganho a noção das dores que me afligem e, como um passo trocado, fico com comichão nas virilhas. Cravo as unhas e coço, mas quanto mais coço mais cresce, este sentimento inútil da inutilidade, esta inutilidade inútil do sentimento e da comichão que não acaba. Então, continuo a coçar até a carne ficar rosada, quanto mais coço mais vivo fico, quanto mais vivo fico mais vermelho estou, um fio de sangue desafia-me. Olho-te pasmado e sigo-te o caminho, vejo a trajectória e procuro um sentido, observo-te, analiso-te, estudo-te e recolho a informação. Insiro e processo todos os dados, cientificamente, entre todas as possibilidades apenas concluo que a comichão não me passou. Só espero que não me passe para os colhões.

23/12/2010

outra metade

O fracasso começa quando somos o primeiro a chegar ao útero.

21/12/2010

metades

- O fracasso? - Sim o fracasso. - Não sei. Talvez as marcas que se sentem no olhar.

15/12/2010

formidável mundo português

A minha filha acabou o 12.º ano e resolveu começar a trabalhar para pagar os estudos, opção que muito me apraz. O problema é que estamos em Portugal e, infelizmente, a Mafalda, que não percebia como é que eu não consigo emprego, rapidamente percebeu como funcionam as coisas neste cantinho acanhado. Depois de procurar, lá recebeu uma resposta, há cerca de 2 meses, para promotora da ZON, coisas novas (produtos) para o maravilhoso natal, contrato só de 2 meses com a possibilidade de renovação (tanga), um ordenado razoável no que é um ordenado razoável em Portugal, uma merda, mas enfim. Entretanto, era suposto começar no início de Dezembro mas foi sendo adiado, nisto começou a ter formação, deram-lhe umas roupas e sapatos género "Espaço 1999", comprar passe, comer qualquer coisa, etc., o dinheiro começa a sair. Ontem, véspera de começar, ou seja um dia antes, 24 horas, telefonam a dizer que tinham gente a mais, talvez porque a Mafalda não se deixou ficar, lá disseram para ela ir trabalhar mas que tinha de fazer um exame médico às 15 h, isto às 11 da manhã, impossível estava a fazer de ama a um bebé, após mais uma ronda de muita negociação a miúda conseguiu que marcassem o médico para outro dia. Hoje, já me telefonou a pedir para lhe levar dinheiro ou comida, é que era suposto trabalhar até às 16 h. mas vai ter de ficar até à meia-noite. Será que vão pagar as horas a mais? Até começar a trabalhar já gastou cerca de 150 euros, com o que ainda vai gastar em alimentação, quando receber o primeiro ordenado, o que sobra deve dar para meia renda de casa. Ainda querem mais flexibilização, é que já parecemos aqueles artistas de circo que se enrolam todos neste rectângulo com cara de parvo a ocidente virado. Não é formidável este Portugal.

07/12/2010

sofrimento

Aquela coisa do sofrimento foi uma brincadeira com as duas velhotas simpáticas que até serviu para as deixar mais bem dispostas. Felizmente só sofro de umas caganeiras quando a ansiedade aperta, nada que um chá de camomila ou outra paneileirice parecida não resolva e, no fundo, até era capaz de dar o meu dedo mindinho do pé esquerdo pela humanidade, com jeito talvez até o direito, com muito jeito talvez até mais qualquer coisa.

06/12/2010

testemunhas

Vinha de uma entrevista de merda para um emprego de merda e, nem a propósito, duas velhotas muito amorosas abordaram-me na rua para me dar este folheto. Todo Sofrimento ACABARÁ EM BREVE Em algum momento na vida, você provavelmente já se perguntou “Por que há tanto sofrimento?” Há milhares de anos, o homem vem sofrendo, muito devido a guerras, pobreza, calamidades, violência, injustiça, doenças e morte. Nunca houve tanto sofrimento como nos últimos cem anos. Será que um dia isso tudo vai acabar? Este primeiro parágrafo não é maravilhoso? Mas o melhor é que eles dizem que sim, o sofrimento vai acabar, e é em breve, ainda lhes disse que hoje me dava jeito, riram-se e disseram que não era o meu era o da humanidade, eu respondi, tá certo adeus e felicidades.

dezembro

Que se foda o Natal mais a caridade com prazo de validade e as campanhas para ajudar aqueles que prejudicaram o ano inteiro, que se foda os brindes, as ofertas, as promoções, os presentes, o trabalhinho a prazo mais os ordenados de merda. Que se foda a virgem para ver se consegue parir alguma coisa de jeito.

28/10/2010

um maluco em qualquer lugar

Mas, depois, pensaste conhecer o amor e a distância do mundo esbateu-se, começaste a ser a pele, começaste a ser corpo, começaste a ser gente. E sentias tudo, todo o tempo. E dominavas tudo, todo o espaço. Agora pensas dizer adeus e voltar ao princípio mas está tudo ao contrário.

caribou

27/10/2010

distraídos

Continuamos em grande, quase ninguém nota mas continuamos em grande. Há 3 semanas que praticamente não consigo vender um croquete, pastel ou chamuça, os clientes dizem-me que nem o meu produto nem outros, não se vende, até a pão vai para o lixo. Entretanto, o meu vizinho de baixo, amargurado com problemas pessoais graves, convida-me para um whiskey, uma garrafa cheia de pó mas com um líquido excelente começa a escorrer para os copos. Lançado, mais pela amargura do que pelo líquido, conta-me que no fim-de-semana foi para uma caçada numa herdade qualquer para a beira interior, homem simples foi com algum espanto que vê chegar um helicoptoro com alguns administradores do BES, mas, mais espanto ainda, quando ao primeiro se sucede o segundo, o terceiro, o quarto e até um quinto, não só com mais administradores ou coisa que os valha, mais umas meninas de mini-saia com enormes caixas cheias de camarão, navalheiras, lagostas e sei lá que mais. Depois mostrou-me uns papéis com umas contas que ia abrir para os filhos exactamente no BES e rasgou-os, disse que ficou enojado com o que viu dizendo que tem a 4.ª classe mas não é parvo. Pena será que os outros onde irá pôr o dinheiro são massa da mesma farinha. Depois, vou ao Hospital ver um amigo ao qual rebentou uma úlcera e nem um lugar para estacionar o carro, nem pago, quando vou à merda do Fórum Almada para ir ao cinema tenho sempre lugares para dar e vender à borla e começo a pensar que realmente este País está bem, do melhor até, alguns de nós é que andam distraídos.

20/10/2010

paradoxos

Este blog anda em serviços mínimos, um mestrado com muita leitura e pesquisa assim obriga. Assim, tenho andado um pouco a leste de orçamentos, aprovações, desaprovações, obrigações, irritações, desilusões, FMI's, cortes, crises e outras porcarias iguais. Estou em crise há mais de 6 anos, se é que alguma vez estive bem, não faço IRS desde mais ou menos essa altura, tenho vivido completamente à margem porque sempre que procuro trabalho, as situações que me são propostas são tão ridículas que chegaria ao fim do mês e gastava mais do que o que iria ganhar, é claro que tenho uma vida de merda, não consigo ir a lado nenhum, concertos, teatros, mesmo exposições só se não for muito longe, comprar livros, cd's, dvd's, etc., é impossível, mas, enfim, como para dar umas não tenho de pagar nada, nem para ver o mar ou as pessoas que passam, isto até anda, como um bêbado a cambalear mas anda. Mas o que me trouxe mesmo aqui, são alguns dos paradoxos deste nosso belo canto à beira mar plantado. Tirei a minha licenciatura na famosa Universidade Independente e, realmente, não achei o curso nada de especial, tirando uma cadeira ou outra com bons professores, e, pensava, que era da falta de qualidade da instituição, engano meu, agora na Faculdade de Letras de Lisboa, exceptuando um caso extraordinário, a merda é a mesma. Agora vou mas é trabalhar que o ordenado é alto.

13/10/2010

wide open road

a dúvida

Será que um Homem chegado aos 40, depois de duas de 20 em cada braço, poderá sentar-se, calmamente, a pensar e, finalmente, ficar sozinho.

12/10/2010

come out and play - I'll go e já

Por volta dos 12 anos, quando comecei a ser um adolescente viril, esta menina fazia as delícias das minhas fantasias masturbatórias, era a única softcore que batia a minha literatura preferida da época, a Gina, Sylvia, Weekend Sex entre outras, como se isso não tivesse sido suficiente, acabou de editar um disco e continua um borracho.

assim foi, assim é, assim será

Diz-me, ó Rei, destruidor de Tróia, descendente de Atreu, como te hei-de saudar? Como te prestarei homenagem sem ir além nem ficar aquém do tratamento que te é devido? É que muitas pessoas apreciam mais o parecer do que o ser, ultrapassando assim os limites da justiça. Toda a gente está pronta a ecoar os gemidos de quem sofre, mas a mordedura da dor não atinge verdadeiramente o seu coração. Estes mesmos alegram-se com os felizes, assumindo idêntico aspecto, forçando os seus rostos a rir. Mas aquele que é bom conhecedor do seu rebanho não se deixa iludir pelas atitudes daqueles que, aparentando um espírito leal, o adulam com uma amizade aguada. Ésquilo em Agamémnon mais ou menos em 450 a.C

10/10/2010

notícias

Ontem o telejornal da RTP trouxe-nos uma notícia engraçada. Parece que os portugueses são os que mais demoram a abandonar a casa paterna, se não me engano por volta dos 35 anos. A abordagem foi de uma superficialidade enganadoramente triste, com comparações, veja-se bem, com a Dinamarca, esse País muito pobre do norte da Europa, culminando a chamar meninos da mamã a estes portugueses. Para quem saiu de casa dos pais aos 21 anos como eu, seria fácil embarcar nos propósitos desta pseudo-notícia, não fosse o problema da certeza dos 500 € de ordenado médio dos poucos contemplados até esta idade com um emprego/trabalho, acrescentando os recibos verdes, os contratos a prazo e a precaridade generalizada, o que sobra para pagar uma renda? Claro que existem aqueles que vivem, desde tenra idade, sozinhos, em casas oferecidas ou com rendas pagas pelos pais, mas estes não são meninos da mamã, devem ser do papá.

04/10/2010

discursos

O concerto que dei no sábado, foi dos melhores dos The Verge, dúvido é que a organização nos volte a convidar, mas quem os mandou pedir um discurso sobre a República. Bem o que interessa é que a Verga continua a crescer.

02/10/2010

os Bobos da corte

O concerto que vamos fazer hoje é integrado nas comemorações do centenário da implantação da República. Não me parece que se tenha plantado grande coisa, mas, também, não se pode dizer que o solo seja muito fértil.

01/10/2010

concerto

THE VERGE Praça S. João Baptista - Almada 02-10-2010 - 22 h.

26/09/2010

aDeus

Primeiro o Homem tornou-se um actor, um jogador, e depois veio a religião. Nikolas Evreinoff Sempre fui um péssimo actor.

performance

The playing of social roles tends to deny or subvert the activities of a true self. Nietzche offers a metaphor of performance as a kind of alien force that takes possession of the self. Marvin Carlson

16/09/2010

boa noite

oh heavy with a look of satin put round her face with the devil peering close by on the street with a little boy charm and anchors of wide heavy iron at her feet she whispers and cries in harmonies for her saltwater king oh heavy are you my boy with demons in your sleeve they`re trouble placing razors and pins underneath your feet you my little boy charm with anchors of wide ship wrecked bloody open sea you whisper and cry in harmonies for your saltwater queen...

15/09/2010

des prender

rentE bilização rotiniza São reci bUH rup Atura revolu VIcionário pa Lavra ú ~ alba Atroz

afinal são 5.5 kg

Duas destas por dia já dava um bom ordenado.

lixo

isto é extraordinário

Vejam este entusiasmo, não é um orgulho. E os 15 para lá e mais 15 para cá, não é outro orgulho. Daqui http://lishbuna.blogspot.com/

pesca

O Figo gosta de Portugal mas gosta mais dele próprio, o Mourinho também gosta muito mas assim ao longe, outros ilustres da ciência, como o físico João Magueijo em Inglaterra ou outros nos EUA, no Canadá, também batem com a mão no peito, sou português, mas assim tipo, aquele país ali ao norte de África. Os meus tios e primos em NY dizem que lá também está muito mau, mas o tempo passa e eles não voltam. Nós por cá vamos, mais que não seja à pesca, a semana passada o meu irmão apanhou um robalo com 2,5 kg, no sábado uma corvina com 3, ontem fui com ele não apanhou nada, hoje já telefonou a dizer que apanhou mais uma corvina ainda maior que a outra, fora outros mais pequenos, isto tudo com uma coisa que os pescadores chamam amostra, acho que é um isco de borracha, ou seja nem isco gastam. Portanto, pesca, a pesca é que está a dar, vendedores não faltam, é ouvi-los todos os dias na TV. Os pescadores Os vendedores

órgãos pendentes

Como benfiquista ontologicamente burro, como todos aliás, também não concordo com formas de pressão e ameaças sobre órgãos independentes e autónomos, isto partindo do princípio que os órgãos são independentes e autónomos, infelizmente órgão independente e autónomo ainda só conheci um e está mais ligado ao campo da anatomia do que das instituições, quando é pressionado até aceito e às vezes gosto, agora ameaças são intoleráveis. Quando era miúdo jogava à bola na rua com o Zé dos Ossos, o Paulo das Maçãs, o Piça Rara, o Tilau, entre outros que a memória não deixa lembrar, o Figo, obviamente nunca teve alcunha, mas aos 13 anos comecei a crescer e aquilo passou. Ora os nossos órgãos independentes e autónomos têm sido conduzidos por adultos que continuam a chamar mágico, harry potter, hulk, bigorna, trave mestra (ok, este foi inventado e também já não está lá), aos seus jogadores, ao outro chamaram-lhe orelhas, o que até achei bastante engraçado, foi aquela senhora de índole com o desdentado rottweiler Abel ao lado, tudo isto sendo uma alegria não deixa de ser estranho. Transponham para a literatura por exemplo, olha o troca letras com o figura de estilo, o apanha metáforas escreve bem mas o esdrúxulo é melhor, ali vai o anaculoto metido com o litote, cá para mim são esquisitos, olha a malandra da anáfora a dizer mal do oxímoro, pensando melhor se calhar éramos todos mais felizes. Bem, existe sempre a hipótese de nos dedicarmos todos ao ténis, esse desporto limpinho e asséptico, onde a bola não é bombeada nem se fazem passes rasgados, não se pauta o jogo nem se faz a gestão do resultado, rematar com o pé que se tem mais à mão é impensável, não se criam desequilíbrios nem se tiram cruzamentos e muito menos se fazem manchas, que eles acabam sempre os jogos muito asseadinhos graças a deus. Também há a pesca, mas aí um gajo tem de se habituar ao cheiro, sempre é natural que no ténis eles devem usar todos Rexona.

11/09/2010

liga Zon

No intervalo telefonei ao meu velhote e disse-lhe que não íamos ganhar, era impossível, não tanto pelo Guimarães que é uma boa equipa mas porque o arbitro não estava para aí virado. Com mais Roberto ou menos Roberto, a jogar bem ou a jogar mal, é indiferente. Com estas caldeiradas já se foram 7 pontos. Esta Liga é mesmo Zon de Sagres não tem nada.

10/09/2010

inspiração

Nosso curso de primeiro ano está quase concluído. Eu esperava inspiração, mas o sistema espatifou minhas esperanças. Essas ideias passavam-me pela mente enquanto, no vestíbulo do teatro, eu punha meu sobretudo e lentamente enrolava o cachecol no pescoço. De repente alguém me cutucou. Voltei-me e vi Tortsov. Notara meu estado de desânimo e vinha indagar a causa. Dei-lhe uma resposta evasiva, mas insistiu, teimoso, fazendo uma pergunta atrás da outra. - Como se sente, agora, quando está em cena? - perguntou, num esforço para compreender minha decepção com o sistema. - É justamente essa a dificuldade. Não sinto nada fora do comum. Sinto-me à vontade, sei o que devo fazer, tenho um motivo para estar ali, tenho fé nas minhas ações e creio no meu direito de estar em cena. - E o que é que você quer mais? Acha que isso é errado? Confessei-lhe então a minha ânsia por sentir-me inspirado. - Não me procure para isso. Meu sistema nunca fabricará inspiração. Pode apenas preparar um terreno favorável a ela. Se eu fosse você, deixaria de correr atrás desse fantasma, a inspiração. Deixe-o por conta daquela fada miraculosa, a natureza, e dedique-se àquilo que está nos domínios do controle humano consciente. Ponha um papel na estrada certa e ele irá para diante. Ampliar-se-á, tornar-se-á mais fundo e, finalmente, levará à inspiração. Constantin Stanislavski "A preparação do ator", edição Civilização Brasileira 2008, pág. 331

hoje

09/09/2010

mais coisas boas

entalado

Que fique exclarecido que não tenho nada contra a estimulação anal, só não gosto mesmo é de homens.

olha o felino

Regressando a esta enganadora e triste realidade, as costumeiras merdas deste cantinho cheiram cada vez pior. É tanta a mentira, a desgovernança, a desconversa, a soberba, que a vontade de dizer seja o que for é pouca. Felizmente, também existem coisas realmente boas, aqui fica uma: Um pequeníssimo excerto. ...A grande dúvida é: com que mão limpará o cu o entalado? Com a mão ferida ou com a mão suja?

para um viciado na realidade é mesmo assim

Quando confesso o meu repúdio radical pela mentira, toda a gente diz que sou louco. E eu não defendo que se diga tudo a toda a gente; acredito apenas que devemos viver em regime de verdade com as pessoas de quem gostamos. Há excepções circunstanciais? Há. Mas a regra, a minha regra, é a verdade. O que é a verdade?, perguntava Pilatos. Também não sei, mas sei o que é a mentira. Uma mentira é uma declaração que sabemos falsa, feita com o intuito de enganar alguém. Fazer isso a quem gostamos, de modo intencional e repetido, é que é saudável? Garantem-me que sim. E eu regresso, mansamente, ao meu manicómio. Pedro Mexia aqui http://a-leiseca.blogspot.com/ Quero voltar para o monte.

voltando é assim que me sinto

Quero voltar para o monte.

16/08/2010

banda sonora

em preparação Para a viagem, porque por lá nem música nem letras.

penalty e penáltis

Arrancou o campeonato e, desde já, podemos dar os parabéns ao novo campeão. Tirando raras excepções, não acredito em campeões só pela excelência do futebol. Tal como o ano passado os penaltys assinalados a favor do Benfica deram um empurram para a excelente época, o penalty a favor do Porto e os que não foram marcados a favor do Benfica, nesta primeira jornada, definiram o rumo deste campeonato. É preciso lembrar que esta já não é a Liga Sagres, mas sim a Liga Zon Sagres, e todos sabemos a quem pertence a Zon. Agora vou para o monte mais uma semana, ver se o Ti'Joaquim tem uma explicação para isto.

12/08/2010

vales mortos

A propósito deste texto http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2010/08/conversa.html, e regressado agora de um Alentejo ainda mais profundo, sem mar mas com um Guadiana cada vez melhor, um céu estrelado e Marte a nascer-me à direita de onde me sentava a olhar para o norte até às tantas e, também, a conversar com o ti'Joaquim, homem de 85 anos que raramente saiu do monte onde vive, nunca teve instrução que não aquela que a natureza lhe foi dando e que mantinha uma conversa tão natural como o lugar onde estávamos, que quando íamos em grupo até ao café da povoação mais perto, parava naturalmente para fazer chichi ou, também naturalmente, dava uns traques ignorando quem quer que estivesse ao pé. Numa das nossas conversas, enquanto olhávamos as estrelas, diz convicto naquela pronúncia arrastada que isto do mundo é que está uma coisa bem feita, respondi provocando, há quem diga que foi Deus, ignorou-me e bem, prosseguiu, até dizem que há mais terra encoberta por mar do que descoberta. Assim fomos conversando, noite após noite, e eu sempre a aprender.

04/08/2010

I Can Be A Frog

ao tonan

Xupa portugalês e sai do chão, arrasa montanhas e dobra o colchão, esta bardamerda é só uma ilusão feita do cio vadio de um cão. Dobra cabrão dobra, inquina a certeza dessa ilusão, os lençóis são uma cobra tu o cio vadio de um cão. E se a punheta também é foda e a surpresa sempre à mão cinco dedos sempre à roda agarrados a qualquer situação, estas palavras são a demora de um estilo sem razão. Xupa portugalês e xupa outra vez, mas cospe o esperma para o chão não vá sujar-se o colchão. E depois de uns copos de xerez, não penses que isto é uma ilusão de quem perdeu a razão ou de quem não sabe o que fez, porque a punheta também é gente que a muitos deixa contente, e se por acaso perderes a noção, lembra-te que a necessidade é premente e o sangue vem do coração, bomba frenética e quente como a lava de um vulcão. Dobra-te cabrão dobra e mancha o lençol, desfaz-te nesse colchão, enrola-te como um caracol. Nessa certeza sempre à mão és o vicio vadio com o cio de um cão.

31/07/2010

ao zé toino

E o tempo age, solta as amarras e leva tudo, o que foi, o que é e o que será. E a noite leva a luz, e o vento leva o pó, e o pó leva histórias, e as histórias espalham-se, e o mar leva os grãos, e os grãos desfazem-se, e o tempo leva tudo. E o tempo age, e os poetas inventam, e as palavras são vazias. Porque o céu é apenas o céu, o mar apenas o mar e a terra apenas a terra, porque uma palavra é, tão só, uma palavra, e por muito que queira ser uma árvore, não sou, por muito que quisesse ser um rio, não sou, por muito que gostasse de ser a lua, essa que os lunáticos gostam de enfiar nos poemas, não sou, e o tempo leva tudo, as palavras também. E o tempo age, olá se age, marca-se no corpo, marca-se na alma (o que quer que esta seja) e leva tudo, leva a inocência, leva a pujança, leva a virilidade, leva a saliva que nos faz dizer e mata a sede, e se isto for uma metáfora, que seja boa e a possas embrulhar e oferecer a alguém, e, já agora, leva o sentido que eu não quero, porque o tempo leva tudo. Se me deixar só um bocadinho da tua memória, talvez consiga ser um pouco mais. E o tempo agiu.

07/07/2010

happy birthday

Outro ilustre, este menos, que faz anos hoje.

ao velhote

parabéns

O patrão farto das faltas ao trabalho às segundas-feiras de determinado empregado que gostava muito de beber diz-lhe, Ó homem mais uma segunda que faltou, assim não pode ser. Morreu-me um familiar Sr. Carvalho, responde. Morrem-lhe muitos familiares às segundas-feiras, diz o patrão. Sim Sr. Carvalho é verdade, e tenho cá a impressão que na próxima semana vai morrer outro. Esta estória e, principalmente, o contexto e a forma como é contada define o meu Pai, que faz hoje 70 anos. Agora imaginem 60 anos, começou a trabalhar aos 10, de estórias verídicas como esta, dava um belo conjunto de micróbios, vermes, parasitas, qualquer coisa assim.

02/07/2010

e ignoram meu ofício ou minha arte

Em meu ofício ou arte taciturna Exercido na noite silenciosa Quando somente a lua se enfurece E os amantes jazem no leito Com todas as suas mágoas nos braços, Trabalho junto à luz que canta Não por glória ou pão Nem por pompa ou tráfico de encantos Nos palcos de marfim Mas pelo mínimo salário De seu mais secreto coração. Escrevo estas páginas de espuma Não para o homem orgulhoso Que se afasta da lua enfurecida Nem para os mortos de alta estirpe Com seus salmos e rouxinóis, Mas para os amantes, seus braços Que enlaçam as dores dos séculos, Que não me pagam nem me elogiam E ignoram meu ofício ou minha arte. Dylan Thomas