O minimalismo moral teria sido suficiente. Que adoptassem a «regra de ouro» cristã (faz aos outros o que queres que te façam a ti) ou o «imperativo categórico» kantiano (age segundo um princípio que queiras como lei universal). Essa ética da reciprocidade existe no islamismo, no judaísmo, no confucionismo, no budismo, no hinduísmo e no humanismo laico e é talvez o mínimo denominador comum ético. E no entanto nada parece mais difícil, porque a reciprocidade requer humildade e empatia, bens escassos. Praticamente as únicas pessoas que até hoje vi seguirem uma ética da reciprocidade sem falhas foram pessoas auto-destrutivas, que, como é óbvio, subvertem o princípio de onde parte a regra de ouro. Fora disso, tenho convivido com severos Jeremias que depois fazem alegremente, alarvemente, o contrário do que exigem. O meu percurso moral, reconheço, não é recomendável, mas sempre me mantive fiel a esse preceito, em tempos bons e maus cumpri os mínimos, mesmo quando falhei os máximos, portei-me mal mas nunca nisso, segui sempre a ética da reciprocidade, do pouco que valho tenho isto a alegar antes de pedir justiça.
Pedro Mexia aqui: http://a-leiseca.blogspot.com/2012/01/etica-da-reciprocidade.html
05/01/2012
28/12/2011
no reino da tugolândia
Mais um ano que passou e tudo na mesma continuando a cair a pique para pior na tugolândia. Foi-se o Sócrates mais o choque tecnológico, o discurso positivo de exaltação da nação e sobrou uma tragédia descomunal neste desastre que somos, já Guterres era um apaixonado com juras de amor pela educação. Ontem era notícia de primeira página do Correio da Manhã que uma concorrente de um concurso parvo da TV fez uma mamada, um bico, um broche a outro concorrente, parece que o programa se chama "casa dos segredos", agora imaginem se fosse uma casa sem segredos, o que saberíamos, que têm um burro no quintal com o qual fazem loucas orgias, era giro, quase aposto que o burro ganhava aquela espécie de concurso, talento não lhe falta, enorme talento. Então, mas o que é que isto tem a ver com a educação, epá não sei, fiquei distraído com a imagem do talento burro nos concorrentes, o que é chocante mas não tecnológico. É a natureza pá diria o outro.
Como natural é ser entroikado por uns burocratas aziagos da União Europeia, parece que se fartaram do nosso bacalhau com todos, das azevias, das filhoses e dos coscurões e nos entroikaram até..., enfim até aos dedos dos pés que as solas vão começar a ficar rotas. Vá, esqueçam lá o burro ou não saímos daqui, coisa que, parece, alguns tugas aparentemente com mais neurónios começaram a fazer, desopilar está na moda, só que em vez desses paladinos da civilização como a Alemanha, França, Canadá ou USA estamos a ir para sítios como Angola, Moçambique, Brasil, Burkina Faso e sei lá que mais, parece que são países que estão a crescer, tirando o último que foi só para ver se vão ao mapa ver onde é e se esquecem do raio do burro, mas voltando ao que interessa, se estão a crescer para que é que precisam de tugas, só se for para fazer concursos parvos e levar o burro.
Entretanto andamos a levar com um coelho, que, sendo um animal bastante trabalhador, não me parece tão imponente como o burro, basta ver o tamanho das orelhas.
Como natural é ser entroikado por uns burocratas aziagos da União Europeia, parece que se fartaram do nosso bacalhau com todos, das azevias, das filhoses e dos coscurões e nos entroikaram até..., enfim até aos dedos dos pés que as solas vão começar a ficar rotas. Vá, esqueçam lá o burro ou não saímos daqui, coisa que, parece, alguns tugas aparentemente com mais neurónios começaram a fazer, desopilar está na moda, só que em vez desses paladinos da civilização como a Alemanha, França, Canadá ou USA estamos a ir para sítios como Angola, Moçambique, Brasil, Burkina Faso e sei lá que mais, parece que são países que estão a crescer, tirando o último que foi só para ver se vão ao mapa ver onde é e se esquecem do raio do burro, mas voltando ao que interessa, se estão a crescer para que é que precisam de tugas, só se for para fazer concursos parvos e levar o burro.
Entretanto andamos a levar com um coelho, que, sendo um animal bastante trabalhador, não me parece tão imponente como o burro, basta ver o tamanho das orelhas.
21/12/2011
bom dia
Para Manuel Zacarias Segura Viola o pior cego é o que não vê mesmo, o que não quer ver pode aprender.
E o que é que isto tem a ver com o coração?
E o que é que isto tem a ver com o coração?
19/12/2011
bom dia
Manuel Zacarias Segura Viola conhece bem a história dos papéis e sabe sempre onde está a porra do papel, o que se torna, muitas vezes, uma grande chatice. Depois, não só academicamente mas também na vida real, a merda dos papéis nunca se apresentaram como complicados para Zacarias e, tanto nas várias organizações por onde passou como na família, sempre soube qual o caralho do papel a desempenhar, ainda que, amiúde, agarre no filha da puta do papel faça um avião e o mande ao ar.
Agora o coração de Zacarias sabe que existem alturas em que o cabrão do papel está tão amachucado que se torna de difícil leitura para os outros.
Agora o coração de Zacarias sabe que existem alturas em que o cabrão do papel está tão amachucado que se torna de difícil leitura para os outros.
13/12/2011
bom dia
Manuel Zacarias Segura Viola, apesar de cheio de amor e paixão, anda parvo com a indecência e o mau cheiro que emana do mundo. Crise económica, bolhas que enchem, rebentam, voltam a encher, voltam a rebentar num ciclo de papa papalvos que, mais indignação menos indignação, continuam a ir enganados para o trabalho e a guardar o dinheiro nas instituições que os comem desavergonhadamente.
Nesta conjuntura, resta a Zacarias manter o coração apaixonado e a manter a coluna direita não vá ser apanhado desprevenido de nalgas para o ar.
Nesta conjuntura, resta a Zacarias manter o coração apaixonado e a manter a coluna direita não vá ser apanhado desprevenido de nalgas para o ar.
beijo
The fire's dying out
All the embers have been spent
Outside on the street
Lovers hide in the shadows
You look at me I look at you
There's only one thing
I want you to do
Kiss me
I want you to kiss me
Like a stranger once again
Kiss me like a stranger once again
I want to believe that our love's a mystery
I want to believe that our love's a sin
I want you to kiss me like a stranger once again
You wear the same kind of perfume
You wore when we met
I suppose there's something comforting
In knowing what to expect
But when you brushed up against me
Before i knew your name
Everything was thrilling
Because nothing was the same
I want you to kiss me
I want you to kiss me
Like a stranger once again
Kiss me like a stranger once again
I want to believe our love's a mystery
I want to believe our love's a sin
Oh, will you kiss me like a stranger once again
I want you to kiss me like a stranger
Kiss me like a stranger once again
XV
Olhar para o lado e encontrar-te,
outra vez,
dizer-te bom dia,
sorrir dos sonhos irrequietos da manhã
e sossegar-te com o aconchego de um beijo.
Olhar para o lado e saber que estás lá,
outra vez,
ver-te de novo,
contemplar os traços de uma vida
e sossegar-me no hálito húmido da tua boca.
Olhar para o lado e sentir-te,
outra vez,
encher-me de ti,
aspirar cheirando a essência
e respirar a pele na inquietude do desejo.
Olhar para o lado e dizer amor,
outra vez.
outra vez,
dizer-te bom dia,
sorrir dos sonhos irrequietos da manhã
e sossegar-te com o aconchego de um beijo.
Olhar para o lado e saber que estás lá,
outra vez,
ver-te de novo,
contemplar os traços de uma vida
e sossegar-me no hálito húmido da tua boca.
Olhar para o lado e sentir-te,
outra vez,
encher-me de ti,
aspirar cheirando a essência
e respirar a pele na inquietude do desejo.
Olhar para o lado e dizer amor,
outra vez.
12/12/2011
livro
Não percebo nada de melhores nem de estrelas, mas este foi o que mais gostei de ler este ano.
Rainer Maria Rilke a Lou Andréas-Salomé
Todos sabemos que o destino não tem destino,
sabemos que o destino passa frio
numa rua escura,
num deserto habitado apenas pelo vento.
Só não o dizemos a ninguém,
preferimos calar que o destino
anda dentro dos bolsos da noite,
preferimos escondê-lo na tristeza
snobe dos escritores de canções.
O destino, essa cadeia infame que nos prende,
nos adestra e nos mantém
morrendo para dentro de um poema.
Todos sabemos que o futuro não tem destino.
É esta a razão da nossa trajectória:
a seguir a cada argumento,
uma vaga precavida de calor
para que nos comportemos bem
à porta da sabedoria.
Todos sabemos que a medida do destino
é o fumo esvaindo-se no ar,
o ar adaptando-se aos pulmões,
os pulmões crescendo para fora do peito,
quebrando os ossos.
Henrique Manuel Bento Fialho
satisfied
I said i will have satisfaction
I will be satisfied
Before i'm gone
Before i'm gone
I will have satisfaction
I will be satisfied
I will have satisfaction
I will be satisfied
bom dia
Manuel Zacarias Segura Viola sabe o que é o sacrifício e sabe que em nome do sacrifício se tem sacrificado muita boa gente e, por vezes, Zacarias himself também não consegue fugir a um bom sacrifício, por exemplo, levar uma tia a um concerto dos Anjos. Contudo, a noção messiânica do sacrifício pelo amor aos Homens como noção de amor que se tem mantido até hoje sugere a Segura a Viola uma malha muito desafinada e falaciosa.
Para o coração de Zacarias o amor faz-se não se sacrifica, não se obriga e muito menos se deve.
Para o coração de Zacarias o amor faz-se não se sacrifica, não se obriga e muito menos se deve.
06/12/2011
bom dia
Ultimamente, Manuel Zacarias Segura Viola vem-se debruçando e felizmente, também, ajoelhando, deitando e outras posições indescritíveis, sobre o amor. Um tio de Zacarias diz que o amor estava em cima de uma couve veio um burro e comeu-a, chora baba e ranho a ver filmes românticos mas na realidade dá pouco. Outro tio, seco quase toda a vida, encontrou o amor tardiamente, poucos anos depois teve um ataque cardíaco e morreu. Alguns conhecidos dizem que amam muito, entre outros tipos de violência batem nas mulheres, atenção, por amor claro. Outra diz que ama muito o seu amado mas a tentação de outras carnes é forte. Outra largou tudo, saiu de casa mas voltou passado uns tempos para cuidá-lo de uma doença terminal. Cinquenta anos juntos sem nunca dormirem uma noite um sem o outro é obra de outro casal conhecido.
O coração de Zacarias não sabe nada destas coisas mas sabe que não se ama muito, ama-se ou não se ama e o amor, apesar de fodido, é muita bom.
O coração de Zacarias não sabe nada destas coisas mas sabe que não se ama muito, ama-se ou não se ama e o amor, apesar de fodido, é muita bom.
02/12/2011
bom dia
Manuel Zacarias Segura Viola sabe que quando fica indiferente ao sol, a comida se embaraça sem sabor na boca, que quando a sensação é da cama sobre o corpo e não do corpo sobre a cama, quando a cabeça não ordena e os músculos não querem, resta tentar dormir e esperar que o coração faça o seu trabalho.
psicanálise e a arte
Qual é a origem de produção de Um Método Perigoso? Não é um filme totalmente canadiano?
É uma coprodução entre Canadá e Alemanha. Ironicamente, isso fez com que o filme tivesse sido quase por inteiro rodado na Alemanha, mesmo se a sua história não se passa nesse país. Há uma razão, de produção precisamente, para que isso aconteça: quando se faz um acordo deste género, é preciso gastar o dinheiro em ambos os países. Neste caso, filmámos em Colónia e na zona do Lago Constança. Além do mais, quis filmar em locais nos quais sabemos que Freud viveu, ou por onde passou.
Este filme terá sido, talvez, um reencontro com a psicanálise. Não sente que a sua obra anterior está já muito marcada por Freud e pelas referências psicanalíticas?
Não de forma tão específica. No fundo, creio que a psicanálise e a arte fazem a mesma coisa. Digamos que somos confrontados com a versão oficial da realidade: o paciente chega ao consultório e conta que tem uma profissão, uma família, a sua mulher... E aí, a psicanálise diz: “Certo, mas o que é que está realmente a acontecer? Como é que conseguimos chegar a essas coisas que não são ditas, que fazem com que a sua vida vá num determinado sentido e não noutro?” O artista faz o mesmo com a sociedade: avança para além da superfície das coisas, tenta ver o que está realmente a acontecer. O que está escondido? O que não é compreendido? O que não é dito?
Entrevista completa aqui: http://www.sound--vision.blogspot.com/2011/12/uma-conversa-com-david-cronenberg-13.html
É uma coprodução entre Canadá e Alemanha. Ironicamente, isso fez com que o filme tivesse sido quase por inteiro rodado na Alemanha, mesmo se a sua história não se passa nesse país. Há uma razão, de produção precisamente, para que isso aconteça: quando se faz um acordo deste género, é preciso gastar o dinheiro em ambos os países. Neste caso, filmámos em Colónia e na zona do Lago Constança. Além do mais, quis filmar em locais nos quais sabemos que Freud viveu, ou por onde passou.
Este filme terá sido, talvez, um reencontro com a psicanálise. Não sente que a sua obra anterior está já muito marcada por Freud e pelas referências psicanalíticas?
Não de forma tão específica. No fundo, creio que a psicanálise e a arte fazem a mesma coisa. Digamos que somos confrontados com a versão oficial da realidade: o paciente chega ao consultório e conta que tem uma profissão, uma família, a sua mulher... E aí, a psicanálise diz: “Certo, mas o que é que está realmente a acontecer? Como é que conseguimos chegar a essas coisas que não são ditas, que fazem com que a sua vida vá num determinado sentido e não noutro?” O artista faz o mesmo com a sociedade: avança para além da superfície das coisas, tenta ver o que está realmente a acontecer. O que está escondido? O que não é compreendido? O que não é dito?
Entrevista completa aqui: http://www.sound--vision.blogspot.com/2011/12/uma-conversa-com-david-cronenberg-13.html
01/12/2011
bom dia
Manuel Zacarias Segura Viola é essencialmente coração, vive com o coração na boca, mas existem alturas que Zacarias tem de dizer basta e colocá-lo no lugar não vá mordê-lo e esvair-se em sangue.
30/11/2011
bom dia
Nesta fase da vida, Manuel Zacarias Segura Viola sabe que decidir é a possibilidade futura de arrependimento e o coração de Zacarias já está calejado de arrependimentos, por isso as indecisões costumam sair com os gases da manhã, mesmo que, por vezes, deixem uma fístula teimosa.
o que é a verdade?
Detesto a mentira, mas não amo a verdade. A mentira sei bem o que é, mas, como perguntava Pilatos, «o que é a verdade?»
bom dia
Mas afinal o que é o amor?
Pergunta amiúde o coração de Manuel Zacarias Segura Viola. Um clássico diz que é um contentamento descontente, mas Zacarias sabe que um contentamento descontente também pode ser um chupa-chupa que fica agarrado a um dente.
Pergunta amiúde o coração de Manuel Zacarias Segura Viola. Um clássico diz que é um contentamento descontente, mas Zacarias sabe que um contentamento descontente também pode ser um chupa-chupa que fica agarrado a um dente.
elogio ao amor
Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amorcego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amorcego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso
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