Levanto-me e olho o céu
numa tarde de primavera sob o vôo das galinholas.
Estranho! A estrela maior
é uma coisa minúscula, pequenina
que a folha do vidoeiro pode cobrir.
– – –
Distância, é a distância
que torna o que é eterno suportável
Ainda bem que lança tão grande sombra,
a pequena coisa que está próxima…
Hans BØrli
10/01/2013
ok tásse é na próxima vida
Hoje, estive endiabrado no jogo de andebol que faço semanalmente com amigos. Foram golos das pontas, do meio, da meia distância, de contra-ataque, com a mão direita, com a esquerda, de chapéu, de roscas, até um de costas para a baliza, alguns 17 ou 18 para todos os gostos e feitios. Corri que nem um desalmado, lá passar pelos cinquentões até é fácil, já passar pelos putos de 15 ou pelos trintões poderia ser mais difícil, não foi, hoje comi-os todos, perdoem-me a linguagem. Levei chapadas, abriram-me a boca, tenho a coxa negra e um dedo torceu ligeiramente, dar não dei, nunca precisei desses expedientes para fazer o meu trabalho de forma competente e, por vezes, mais que competente. Tem sido assim, sempre assim em tudo, além disso, eram só homens, ia dar-lhes o quê? Não fosse o ridículo dos 43 anos, ainda pensaria ser chamado à selecção, nem que fosse do Burkina Faso.
Para um menino coitadinho não está mal, podia dedicar-me a fumar 2 maços por dia a macerar qualquer coisa assim fixe para ter mesmo de viver menos, como uma coisa má ou algo pior, uma questão de responsabilidade claro está, mas isso está reservado para a minha vida seguinte, quando eu vier como uma alma mais velha e sapiente que esta que é muito novinha e, outras vezes, novinho, tinto claro.
Foda-se, vou mas é ao bruxo, não vá no próximo jogo bater com as astes e ter um traumatismo comatoso, depois fica tudo a gozar, não fumaste, viste (não verei estarei em coma), mais valia teres fumado. Ok tásse.
Para um menino coitadinho não está mal, podia dedicar-me a fumar 2 maços por dia a macerar qualquer coisa assim fixe para ter mesmo de viver menos, como uma coisa má ou algo pior, uma questão de responsabilidade claro está, mas isso está reservado para a minha vida seguinte, quando eu vier como uma alma mais velha e sapiente que esta que é muito novinha e, outras vezes, novinho, tinto claro.
Foda-se, vou mas é ao bruxo, não vá no próximo jogo bater com as astes e ter um traumatismo comatoso, depois fica tudo a gozar, não fumaste, viste (não verei estarei em coma), mais valia teres fumado. Ok tásse.
09/01/2013
Varúð
| Og vindur undan frá | E longe de acabar |
| Sem hverlir orðnar múrar | Como cada uma das paredes se tornam |
principalmente se eu próprio não me quero lembrar de nada
Não posso dizer a ninguém como ouvir ou como olhar e, com certeza, não lhes posso dizer o que lembrar...
08/01/2013
04/01/2013
queres dançar
Queres dançar,
trocar as voltas ao tempo
na medida de um compasso
soltar o corpo ao vento
esquecer o cansaço.
Queres voltar,
à memória de um espaço
no exacto de um contratempo
desatar o nó laço
que te prende o movimento.
Mas a hora é distante
e um lugar não é um caminho
a história não é uma constante
nem contigo nem sozinho.
In my true country got no paths
My true country far and wide,
Cars along the riverside,
Far above the chimney tops,
Take me where the bus don’t stop.
Cars along the riverside,
Far above the chimney tops,
Take me where the bus don’t stop.
In my true country got no paths(?),
Married in the photograph,
Come to the piano dear,
Love will wipe away your tears.
Married in the photograph,
Come to the piano dear,
Love will wipe away your tears.
Dance along the edge with me,
And we’ll see as far as we can see.
And we’ll see as far as we can see.
My true country wild and free,
My true country you and me,
Pushing horses in the snow,
Children wearing Sunday clothes.
My true country you and me,
Pushing horses in the snow,
Children wearing Sunday clothes.
Dance along the edge with me,
And we’ll go as far as we can see.
And we’ll go as far as we can see.
My true country wild and free,
My true country waiting there for me
My true country waiting there for me
nem mais
À bondade, caridade e solidariedade da tua estirpe, eu continuo a preferir sentar-me à mesa da liberdade, da igualdade e da fraternidade… Pedro.
texto integral aqui aqui http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2012/12/bondade-caridade-solidariedade.html
texto integral aqui aqui http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2012/12/bondade-caridade-solidariedade.html
03/01/2013
get up
Get up, stand up: stand up for your rights!
Get up, stand up: stand up for your rights!
Get up, stand up: stand up for your rights!
Get up, stand up: don't give up the fight!
Get up, stand up: stand up for your rights!
Get up, stand up: stand up for your rights!
Get up, stand up: don't give up the fight!
Preacherman, don't tell me,
Heaven is under the earth.
I know you don't know
What life is really worth.
It's not all that glitters is gold;
'Alf the story has never been told:
So now you see the light, eh!
Stand up for your rights. Come on!
Heaven is under the earth.
I know you don't know
What life is really worth.
It's not all that glitters is gold;
'Alf the story has never been told:
So now you see the light, eh!
Stand up for your rights. Come on!
Get up, stand up: stand up for your rights!
Get up, stand up: don't give up the fight!
Get up, stand up: stand up for your rights!
Get up, stand up: don't give up the fight!
Get up, stand up: don't give up the fight!
Get up, stand up: stand up for your rights!
Get up, stand up: don't give up the fight!
Most people think,
Great God will come from the skies,
Take away everything
And make everybody feel high.
But if you know what life is worth,
You will look for yours on earth:
And now you see the light,
You stand up for your rights. Jah!
Great God will come from the skies,
Take away everything
And make everybody feel high.
But if you know what life is worth,
You will look for yours on earth:
And now you see the light,
You stand up for your rights. Jah!
Get up, stand up! (Jah, Jah!)
Stand up for your rights! (Oh-hoo!)
Get up, stand up! (Get up, stand up!)
Don't give up the fight! (Life is your right!)
Get up, stand up! (So we can't give up the fight!)
Stand up for your rights! (Lord, Lord!)
Get up, stand up! (Keep on struggling on!)
Don't give up the fight! (Yeah!)
Stand up for your rights! (Oh-hoo!)
Get up, stand up! (Get up, stand up!)
Don't give up the fight! (Life is your right!)
Get up, stand up! (So we can't give up the fight!)
Stand up for your rights! (Lord, Lord!)
Get up, stand up! (Keep on struggling on!)
Don't give up the fight! (Yeah!)
We sick an' tired of-a your ism-skism game -
Dyin' 'n' goin' to heaven in-a Jesus' name, Lord.
We know when we understand:
Almighty God is a living man.
You can fool some people sometimes,
But you can't fool all the people all the time.
So now we see the light (What you gonna do?),
We gonna stand up for our rights! (Yeah, yeah, yeah!)
Dyin' 'n' goin' to heaven in-a Jesus' name, Lord.
We know when we understand:
Almighty God is a living man.
You can fool some people sometimes,
But you can't fool all the people all the time.
So now we see the light (What you gonna do?),
We gonna stand up for our rights! (Yeah, yeah, yeah!)
So you better:
Get up, stand up! (In the morning! Git it up!)
Stand up for your rights! (Stand up for our rights!)
Get up, stand up!
Don't give up the fight! (Don't give it up, don't give it up!)
Get up, stand up! (Get up, stand up!)
Stand up for your rights! (Get up, stand up!)
Get up, stand up! ( ... )
Don't give up the fight! (Get up, stand up!)
Get up, stand up! ( ... )
Stand up for your rights!
Get up, stand up!
Don't give up the fight!
Get up, stand up! (In the morning! Git it up!)
Stand up for your rights! (Stand up for our rights!)
Get up, stand up!
Don't give up the fight! (Don't give it up, don't give it up!)
Get up, stand up! (Get up, stand up!)
Stand up for your rights! (Get up, stand up!)
Get up, stand up! ( ... )
Don't give up the fight! (Get up, stand up!)
Get up, stand up! ( ... )
Stand up for your rights!
Get up, stand up!
Don't give up the fight!
bom dia
O olfacto não é dos sentidos mais apurados de Manuel Zacarias Segura Viola, mas que sente um cheiro bolorento a sto. tóino oliveirinha salazarucho no ar sente, e não se admira que o glorioso Benfica ande à frente do campeonato quase até ao fim do mesmo. Tudo isto, mais a gabriela em retro-pós-moderno-erótico-porno-chic sem penetração, a despir-se para dar tusa aos reformados, qual nova nossa senhorita fatinha aparecer todinha ao léu não no céu mas em todos os amigalhaços de amigalhaços de outros amigalhaços e lhaças também do fakebook com um smartphone todo giro-vibratório para dar tusa aos, tipo, novos novos, aos novos velhos, aos velhos novos e aos sempre velhos.
Nesta amálgama confusa, o coração de Zacarias bate, gira, rodopia e vibra de emoção com estes novos tempos e, felizmente, ainda consegue levar o sangue quente a todas as extremidades do corpo.
Nesta amálgama confusa, o coração de Zacarias bate, gira, rodopia e vibra de emoção com estes novos tempos e, felizmente, ainda consegue levar o sangue quente a todas as extremidades do corpo.
bom dia
Manuel Zacarias Segura Viola tem uma constituição própria, que revê de vez em quanto sem nunca enviar para o Tribunal Constitucional. Quando tem dúvidas sobre a legalidade ou oportunidade de determinadas decisões, pára, escuta, olha, volta a olhar, a escutar e, por muito que lhe possa ser útil, tenta não atropelar nem enganar ninguém.
Por isso, o coração de Zacarias quando ouve os nomes Cavaco e Coelho só lhe apetece parar de irrigar o cérebro por uns segundos e, por exemplo, dar-lhes com o calhamaço da constituição nos cornos.
Por isso, o coração de Zacarias quando ouve os nomes Cavaco e Coelho só lhe apetece parar de irrigar o cérebro por uns segundos e, por exemplo, dar-lhes com o calhamaço da constituição nos cornos.
02/01/2013
bom dia
Pela primeira vez, desde que se lembra, Manuel Zacarias Segura Viola não comeu as passas, que não gosta, no virar do ano, também não abriu o espumante barato, que tolera, da praxe, não se lembrou de desejar o que quer que fosse, não distribuiu beijos e abraços a torto e direito e mensagens não enviou uma, embora esse pormenor já seja uma tradição em Zacarias.
O coração de Zacarias apontou os olhos para o céu, artificialmente iluminado pelo fogo, sentiu a humidade da geada e, por alguns instantes, esqueceu tudo menos a ironia da vida. O 2013 vai mesmo ser diferente.
O coração de Zacarias apontou os olhos para o céu, artificialmente iluminado pelo fogo, sentiu a humidade da geada e, por alguns instantes, esqueceu tudo menos a ironia da vida. O 2013 vai mesmo ser diferente.
23/12/2012
bom dia
A árvore sempre se fez e Manuel Zacarias Segura Viola nem reparou, já lá vai o tempo que Zacarias brilhava com as luzes do pinheiro, antes natural, ultimamente plástico como tudo o resto. Ainda por cima não há chaminé e as meias estão rotas.
É natal, é natal, e o coração de Zacarias cheira mal.
É natal, é natal, e o coração de Zacarias cheira mal.
19/12/2012
Câmara Clara
Também eu fiquei desiludido com o anúncio do fim do programa Câmara Clara (RTP2). Para além das interpretações que a notícia tem suscitado, não posso deixar de partilhar o desencanto de intervenções como a de Vasco Graça Moura (no DN), sublinhando a importância de contrariar “a tendência fatal das televisões generalistas para a imbecilização colectiva”. Atentas à pluralidade da produção artística, as emissões apresentadas por Paula Moura Pinheiro provam, afinal, que é possível conversar em televisão sem favorecer uma crispação banalmente futebolística.
Ainda assim, não participo das atitudes de protesto “militante” sobre o fim do Câmara Clara. A questão de fundo é, para mim, radicalmente política: tem a ver com o modo como discutimos os valores que configuram o espaço social. Creio mesmo que há um penoso equívoco em defender seja o que for porque é “cultural”, opondo-o àquilo que não é “cultural”: temos um défice imenso de reflexão sobre a mediocridade galopante da “reality TV” (Big Brother e afins) e o poder normativo de algumas ficções (telenovela e seus derivados), já que quase todos consideram que tudo isso... já não é “cultura”.
A clivagem que está em jogo passa por aí (e não tenho dúvidas sobre o carácter minoritário do meu discurso). A meu ver, importa reconhecer que não há nada mais cultural que as monstruosidades televisivas todos os dias injectadas na imaginação e no imaginário dos portugueses. Porquê? Porque através delas se impõem valores sobre a forma como nos representamos, as histórias que partilhamos e os modelos de relação (profissional, conjugal, sexual) que estabelecemos. A cultura envolve uma permanente guerra de valores, não é um território apaziguado em que “consumimos” uma bondade redentora, superior às convulsões do mundo à nossa volta.
Genericamente, esta visão “purista” e “purificadora” da cultura continua a ser sustentada por um nostálgico e exangue imaginário de esquerda que a direita, enquistada na inanidade de pensamento a que chegou, vai reproduzindo com despudorada perversidade. No seu esquematismo, este é um discurso que satisfaz as boas consciências, de todos os quadrantes.
Claro que é triste que desapareçam programas empenhados em respeitar a inteligência dos seus espectadores. Mas o fundo do problema está nos que ficam, nesses que todos os dias, nos horários nobres, impõem a sua formatada mediocridade, promovendo a degradação galopante dos “outros” valores televisivos. Celebrar livros, filmes, músicas ou peças de teatro não basta para pensar a televisão. Importa perguntar, por exemplo, se podemos esperar que uma população maioritariamente formada a ver telenovelas (há mais de 30 anos!!!) se possa interessar pelos outros objectos a que chamamos “culturais”... A meu ver, não pode, mesmo que, quais anjos purificadores, lhes enfiemos “cultura” pela goela abaixo.
João Lopes
aqui: http://www.sound--vision.blogspot.pt/
Slublinhados meus
16/12/2012
with or without you
See the stone set in your eyes
See the thorn twist in your side
I wait for you
See the thorn twist in your side
I wait for you
Sleight of hand and twist of fate
On a bed of nails she makes me wait
And I wait without you
On a bed of nails she makes me wait
And I wait without you
With or without you
With or without you
With or without you
Through the storm we reach the shore
You gave it all but I want more
And I'm waiting for you
You gave it all but I want more
And I'm waiting for you
With or without you
With or without you
I can't live, with or without you
With or without you
I can't live, with or without you
And you give yourself away
And you give yourself away
And you give, and you give
And you give yourself away
And you give yourself away
And you give, and you give
And you give yourself away
And you give yourself away
And you give yourself away
And you give, and you give
And you give yourself away
And you give yourself away
And you give, and you give
And you give yourself away
With or without you
With or without you
I can't live, with or without you
With or without you
I can't live, with or without you
With or without you
With or without you
I can't live
With or without you
With or without you
With or without you
I can't live
With or without you
With or without you
Ooooooooo
With or without you
With or without you
I can't live
With or without you
With or without you
With or without you
I can't live
With or without you
With or without you
A Verdadeira Virtude
Não se pode pensar em virtude sem se pensar num estado e num impulso contrários aos de virtude e num persistente esforço da vontade. Para me desenhar um homem virtuoso tenho que dar relevo principal ao que nele é voluntário; tenho de, talvez em esquema exagerado, lhe pôr acima de tudo o que é modelar e conter. Pela origem e pelo significado não posso deixar de a ligar às fortes resoluções e à coragem civil. E um contínuo querer e uma contínua vigilância, uma batalha perpétua dada aos elementos que, entendendo, classifiquei como maus; requer as nítidas visões e as almas destemidas.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraceja nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal, numa falta de coragem para o praticar; e, na verdade, não posso ter grande respeito pelas amibas que se sobrevivem.
Só os sacristães são levados, por índole e ofício, a venerar todos os santos, sem pôr em mais alto lugar os que encheram sua vida de esquinas e no dobrar de cada uma sofreram agonias e suaram de angústia; mas, para nós, foram mais longe os que mais se feriram nos espinhos de uma remissa natureza; se a venceram merecem estar no céu; se não venceram, o próprio esforço lho devia merecer; no entanto já o inferno é uma forma de glória; para os outros seria bom que se criasse um novo recinto de imortalidade: e só o vejo estabelecido no lodo espapaçado de um fundo tranquilo, sem pregas de correntes nem restos de naufrágios; exactamente um cemitério de medusas.
Para o que é bom por ter nascido bom e a única virtude consistiria em ser mau; aqui se mostrariam originalidade e coragem, mérito, portanto; porque ser mau por ter nascido mau só lhe deveria dar, como aos do lado contrário, o direito ao eterno silêncio. Por aqui se compreende que as vidas dos Sorel tenham sempre ressonância nas almas Stendhal; e também a sensibilidade, a delicadeza, todo o fundo de boas qualidades de certos grandes criminosos. Sei bem os perigos que tal doutrina pode ter transportada ao social e sei também a maneira de pôr de lado a objecção, alargando o conceito de virtude, dando-o como o desejo de superar e não como o desejo de combater; mas de propósito fiquei no que a virtude tem de luta entre a natureza e a vontade.
Agostinho da Silva, in 'Considerações'
Sublinhados meus.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraceja nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal, numa falta de coragem para o praticar; e, na verdade, não posso ter grande respeito pelas amibas que se sobrevivem.
Para o que é bom por ter nascido bom e a única virtude consistiria em ser mau; aqui se mostrariam originalidade e coragem, mérito, portanto; porque ser mau por ter nascido mau só lhe deveria dar, como aos do lado contrário, o direito ao eterno silêncio. Por aqui se compreende que as vidas dos Sorel tenham sempre ressonância nas almas Stendhal; e também a sensibilidade, a delicadeza, todo o fundo de boas qualidades de certos grandes criminosos. Sei bem os perigos que tal doutrina pode ter transportada ao social e sei também a maneira de pôr de lado a objecção, alargando o conceito de virtude, dando-o como o desejo de superar e não como o desejo de combater; mas de propósito fiquei no que a virtude tem de luta entre a natureza e a vontade.
Agostinho da Silva, in 'Considerações'
Sublinhados meus.
estou cansado
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Álvaro de Campos
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