29/01/2013

dói-dói

Quando um homem se queixa, alguma coisa lhe dói.

José Saramago - Levantado do Chão

bom dia

Manuel Zacarias Segura Viola sabe que a vida é feita de encruzilhadas e que, algumas vezes, falta a coragem para escolher um caminho. Sabendo à partida que todos estão esburacados e no fim têm a mesma recompensa, resta ao coração de Zacarias virar-se e apreciar os tombos da viagem.

28/01/2013

esquizofrenia colectiva

Grandes notícias de ontem, as 20 mil embalagens de antidepressivos vendidas por dia e o acidente de autocarro numa qualquer estrada de Portugal. Não parecendo relacionadas, são mais do que superficialmente se possa pensar. Nos últimos anos, principalmente desde o aparecimento dos canais de televisão privados, o paradoxo entre a cultura big-brotheriana/morangos com açucar, redes sociais e afins e a exploração mediática dos acidentes das crianças que morreram nos aquaparques, de entre-os-rios ou o de ontem por exemplo, tudo isto aliado ao paradoxo ainda maior, porque diário, da ficção do crédito e da realidade do pagamento, e se a isto tudo se juntar essa fantasia pseudo-pós-moderno-auto-motivadora de afirmação da personalidade e do ego que é o facebook, através de uma exposição pública da vida privada, faz com vivamos numa sociedade no mínimo esquizofrenoide.
Alheado das notícias, uma amiga perguntava-me se não tinha pena, como essa amiga costuma dizer, penas têm as galinhas, disse-lhe que lamentava claro, mas que me faz impressão e até nojo uma sociedade onde um simples acidente se torna um assunto mediático desta envergadura e que, no fundo, esta mediatização acaba por ser uma falta de respeito pela tragédia individual e única de cada pessoa envolvida no respectivo acidente, isto para já não falar da imediata procura "justicialeira" de responsáveis.
Como é possível não andarem todos a dar nos antidepressivos, numa sociedade fantástico/fantasiosa e imatura como esta, que depois, com toda a naturalidade da força da realidade, se revela em todo o seu esplendor de dificuldades, acidentes, catástrofes.
Como diria o outro: "É a vida pá." E a vida não são só fotografias bonitas e frases feitas do facebook.

i was born to love no one

No “libreto” que acompanha esta edição da obra integral de Nick Drake (1948-1974), lê-se a páginas tantas que a música do songwriter britânico é de tal modo bela que nos faz sentir vergonha da fealdade do mundo. Não é exagero. A música de Drake reflecte a estatura do seu autor, olha-nos do alto de uma solidão cuja sensibilidade e fragilidade nada têm que ver com a arrogância dos mensageiros da verdade. As canções de Nick Drake transpiram dúvida, caminham lado a lado com a insegurança e a incerteza dos homens que se perdem numa floresta.

hmbf aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2013/01/100-albuns-assustadores-80.html





I was born to love no one.
No one to love me.
Only the wind in the long green grass,
The frost in a broken tree.
I was made to love magic.
All its wonder to know,
But you all lost that magic,
Many many years ago.

e aqui: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2013/01/i-was-born-to-sail-away-into-land-of.html

lento

Lento,
tento ultrapassar
Em mim aquilo que sou
Como a brisa que passou
E me disse a sussurrar
A natureza,
que são as coisas todas
Leva o tempo que o tempo faz
Assim,
perco e ganho a paz
Como o cair perene das folhas

Lento,
tento ignorar
Em mim o sono que despertou
Como o sonho que acordou
E me disse a sussurrar
A vida,
que é tudo o que temos
Leva o tempo e o tempo traz
Assim,
perco e ganho a paz
Como tudo o que ganhamos e perdemos

Lento,
tento aproximar
Em mim a alma que sou
Como o espírito que voou
E me disse a sussurrar
O amor,
que são as coisas que fazemos
É todo o tempo que o faz
Assim,
ganho sempre a paz
Como a eternidade que queremos

fiesta




bom dia

Quando faz a barba, Manuel Zacarias Segura Viola gosta de brincar com a espuma e rir-se do ridículo que figura na imagem que o espelho representa, num saudável destrambelhamento da efemeridade de todas as coisas, da espuma, dos pelos e de Zacarias himself. E o coração de Manuel Zacarias Segura Viola sempre gostou de gente defeituosa e destrambelhada, desde que reconheçam a ironia desta merda toda e, sobretudo, saibam rir-se de si próprios.

27/01/2013

hurt


tanta paisagem

O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda.

... Tanta paisagem. Um homem pode andar por cá uma vida toda e nunca se achar, se nasceu perdido. E tanto lhe fará morrer, chegada a hora.

José Saramago - Levantado do Chão

23/01/2013

soneto do membro monstruoso


Esse dysforme, e rigido porraz
Do semblante me faz perder a cor:
E assombrado d'espanto, e de terror
Dar mais de cinco passos para traz:

A espada do membrudo Ferrabraz
De certo não mettia mais horror:
Esse membro é capaz até de pôr
A amotinada Europa toda em paz.

Creio que nas fodaes recreações
Não te hão de a rija machina soffrer
Os mais corridos, sordidos cações:

De Venus não desfructas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder.

Bocage

à atenção da família Silva


bom dia

Manuel Zacarias Segura Viola gosta de todo o tipo de sex toys, desde os mais simples falos e dildos aos vibradores mais retorcidos de todos os tamanhos, cores e velocidades, das famosas e sugestivas algemas ao chicote maroto, da lingerie catita cheia de pormenores às bolas chinesas para o rabinho, dos anéis vibratórios aos óleos massajadores mais requintados, e, enfim, tudo onde a imaginação, a vontade e dilatação couber.
O que o coração de Zacarias não suporta são os assépticos preservativos, independentemente da cor, cheiro ou sabor, sabem sempre a falso e cheiram sempre a medo.


empreendorismo nacional

dildos anais



com tamanhos destes não vamos lá

A Mad and Faithful Telling

o homem romântico


Sempre vi a vida como um romance romântico sempre presente.
Como uma paixão apaixonada assolapada e assolapando tudo e todos,
que arrebata, que assusta, que vibra, que se empenha,
que destapa a verdade na crueza da carne e o sentido no toque da pele.
A paixão o desnorte bravio de uma gota num ciclone.
O amor uma lágrima parida na ausência do ego,
estatelada na distância de todas as coisas do mundo
e o desejo o elo natural que liga o espírito.


Mas não é.
Nesta contradição, desapareço no ridículo da minha ansiedade,
e, como um fantasma sem corpo,
procuro respirar mas falta-me a boca.
Sem saber como nem porquê, fazem-me uma pergunta:
Estás branco, que se passa?
Olho ao redor espantado,
tento ver-me e não consigo.
Branco como se não me vejo,
se não vislumbro um pedaço de mim que seja?
Podias dizer que sou baixo, alto, grande ou nem por isso, que sou todo bom,
bombeiro, homem do lixo, lixo, doutor, engenheiro, político, parvo, asno,
magro, gordo, feio, o sol na terra, a tempestade no mar, o mar sem sal,
um tadinho coitado, um vilão, garanhão, um herói super, um super tudo, um super nada,
que o vazio é o lugar onde não me encontro.
Largo o palavreado hipérboleufemisticado e começo a procurar-me,
vagueio por todo lado e por lado nenhum porquê não me sei onde.
De repente, dá-me uma comichão nos tomates e bato com os cornos no chão.
Acordo.

Such a Lovely Thing


And I will give you everything
Just please don't stop singing,
The world would stop spinning
aroooouuund
It's an elusive thing,
This love of which we sing,
What are we doing?
What are we doing here?

22/01/2013

How It Ends




cena 2



NARRADOR
Ei-la em todo o seu notável esplendor, a puta! Ilusão abstracta e emaranhada como um sonho que não tens, emoção descontínua que faz mas sobretudo desfaz, poço escuro por onde deslizas e estatelas sem contemplações, predadora voraz de um fado já esboçado e desafinado. Olhem bem, vejam como se ri, a déspota, como se baba ávida pelo sal do sangue quente, como se alegra num festim de desengano, desilusão e perda.
Ei-la, a puta, que indomável acelera o tempo e domestica a ambição.

ROSA
No outro dia li algures que uma pessoa que viva o suficiente acaba por ver passar os cadáveres dos seus inimigos, tenho pensado muito nisto. Não é irónico?

JACK
Sim, mas a verdade é que dos amigos também. Não sei o que será mais irónico nem sei mesmo onde está ironia, de qualquer forma se existe alguma certeza nesta vida, a perda é o certo centro dessa certeza e não existe solidão maior que perder alguém, amigo ou mesmo inimigo.

ROSA
Ok Jack, mas tu percebeste o que eu queria dizer...


JACK
Queres uma deixa que te permita continuar ou que me permita a mim continuar. Não sei se tu percebeste o que eu quis dizer? Temos pouco mais que a loucura da certeza da inconsequência, um bocado, um pedaço, uma terra, um país, um continente, um mundo, o universo. Um tanto que é só isto, nós e a nossa eternidade ilusória, sem palavra, sem expressão, sem conjecturas, sem falácias, sem engano, sem política. Apenas nós até ao fim.

ROSA
Lá estás tu, não se pode falar contigo.
Que queres? Sorrir aos Deuses e acomodares-te no Olimpo.

JACK
Não Rosa! Sorrir aos Deuses e dizer-lhes que dificilmente me domam o espírito mas que quero que continuem a tentar até me dobrarem e pararem com as revoluções fictícias mais os golpes neste estado que sou, segurarem-me nesta atrofia que figuro e ampararem-me a queda desta tristeza que me assalta quando o vento me larga sem norte. E vens tu falar-me de coisas sem sentido.

ROSA
Que dizes? Estás doido Jack.

JACK
Sim, doido varrido. Preciso que a melodia que rodopia na minha cabeça se torne uma canção e se faça em arco-íris com um pote de ouro no fim ou em balões vermelho sangue que o vento leva em festa pelo céu azul. Já viste como tudo é irónico e vens falar-me de inimigos.

ROSA
Mas alguma vez pensaste que isto é um paraíso, serves-te das palavras, mergulhas assim nas palavras como se nelas encontrasses uma réstia de razão para este mundo.

JACK
Razão, qual razão? A tua, a minha, a do mundo inteiro, a de deus, a do universo? Qual razão? Se me deres uma dou-te um beijo.

ROSA
Um beijo? Essa é boa.

JACK
Sim um beijo por uma razão.

ROSA
Sobreviver e não esperar por nenhum paraíso, não esperar por muito mais do que o que é palpável, o mais provável é que o que temos seja pouco mais que isto.
Olha que isto já não é pouco e às vezes até nem é mau.
Dá-me lá esse beijo.

JACK
Não, ainda não Rosa. Será que não vês a farsa que somos, uma farsa feita de erros, de falhas, de mentiras, de arrependimento, de solidão, porque numa coisa tens razão, isto aqui não é o paraíso, mas é o lugar que o teu corpo ocupa, é o lugar que a tua cabeça pensa, é o lugar que o teu coração sente e por mais estranho que pareça por vezes isso não é suficiente.
Às vezes só me apetece repousar deste caminho solitário, virar o corpo ao contrário até que o sangue expluda na minha cabeça e engane este tempo que fazemos.

ROSA
Só estava a fazer conversa e agora só te pedi um beijo, um simples beijo, mas hoje estás lançado e não se consegue mesmo falar contigo, não te pedi uma aula de filosofia ou de literatura de cabeceira.
Com mais ironia ou menos ironia dás-me um beijo ou não?

JACK
Aula? Qual aula?
Queres ironia Rosa. Fode-me até eu cair inerte e podes dizer que me amaste até à morte.

ROSA
Isso sim, seria irónico, mas um pouco trágico não?

JACK
Não sei.

ROSA
Não sabes? Como é que não sabes?

JACK
Sim, não sei. Para mim não era tragédia nenhuma, a morte só é trágica para os que cá ficam e mesmo assim tem prazo de validade.

ROSA
Cínico. És mesmo cínico. Isso era o que tu querias, mas para tragédia já me chega a vida. Foda-se, queres mesmo continuar a discutir?

JACK
Não, mas quero que tu continues a discutir comigo.

ROSA
Cala-te e beija-me!

JACK
(beija-lhe os dedos dos pés subindo devagar demorando-se em toda a carne que encontra, entre as coxas e o sexo para e diz)
Vês como eu tinha razão.


ROSA 
triste, vira-se de costas para Jack)

JACK
Isso quer dizer que não me vais foder até morrer.

ROSA (voltando-se para Jack a rir)
Até morrer não Jack, mas posso ver se chegas ao nascer do dia.

17/01/2013

Filomena

Morreu uma das pessoas mais lindas que conheci. Uma pessoa que me ajudou a crescer, que me ensinou a ser melhor, que me ensinou o que são valores da única forma que se pode ensinar,  não com imposições, sermões ou pseudo-dramatizações, mas simplesmente sendo. A tranquilidade, o carinho, a atenção, a disponibilidade, a bondade, o amor, eram tão naturais como o respirar.
Nos últimos anos pouco falávamos, uma morte precoce e estúpida fazia com que os nossos encontros fossem tristes e difíceis, infelizmente nunca soube lidar bem com esta situação. Se há 9 anos nos foi arrancado um grande pedaço de vida, agora o pedaço não é mais pequeno. Espero conseguir ser apenas um pouco do que foi.

15/01/2013

undone


Take
If you must take me
I will not go peacefully
I left someone waiting for me
I left things so terribly...
Undone