15/02/2011

o homem pragmático

Sempre pensei que toda a acção devia ser pragmática.
Como uma linha que serve apenas para transportar comboios,
que nos levam daqui para ali e dali para aqui,
sempre com um objectivo bem definido.
As teorias comprimidas no ferro dos carris,
o certo e o errado ultrapassado na velocidade da viagem,
o pluralismo só mais um ismo que devoramos na passagem
e a utilidade a verdade como um facto real.

Mas não é.
Nesta jornada carrego mil pesos e uma chama que me deixam prostrado,
e, como uma ficção sem sentido, sinto o corpo a arder.
Procuro o meio mais eficaz de baixar este sobreaquecimento,
o intelecto e a energia ao serviço da condição humana,
a eficiência a ciência que salta sobre um fatalismo estéril.
Recorro à lógica e deito-me numa banheira de água fria,
a temperatura começa a baixar imediatamente,
nesta voragem pragmática os pés ficam dormentes,
depois as pernas, o tronco, os braços, as mãos.
Lentamente, começo a esquecer o corpo,
pedaço de carne que transporto,
daqui para ali dali para aqui,
mas nunca para todo o lado.
Nesta inércia gelada perco a noção de tudo menos da febre que me consome.

11/02/2011

a necessidade

Prometeu Nem virá sobre mim nenhum sofrimento imprevisto. Preciso é suportar o mais facilmente possível o que foi marcado pelo destino, pois bem sei que a força da Necessidade é inexpugnável. O destino, que tudo acaba, ainda não determinou pôr termo a isto, mas, depois de vergar ao peso de mil sofrimentos e calamidades, eu fugirei a estas cadeias. O engenho é, de longe, mais fraco do que a Necessidade. Corifeu Quem governa a Necessidade? Prometeu Agrilhoado – Ésquilo

o homem lírico

Gostava que a palavra fosse sempre um poema. Como um verso cruzado, emparelhado, interpolado, encadeado, esfolado, numa rima solta e a lua como pano de fundo, mais ou menos assim: procura o refúgio na tempestade nos ventos que são tornados na lua a eternidade e as palavras que são achados. Mas não é. Neste caminho troco os passos no ritmo que desafina, e, como uma nota deslocada, tusso a meio do pensamento. As emoções exprimem-se como um catarro descontrolado, o eu mais interior que se abre ao universo físico, espiritual também, com a alma e o karma dentro e tudo. A existência em todo o seu esplendor glorificado e a insignificância o sentimento que a tosse acorda, e cospe assim: oh tempo que desatina num frio que faz tremer neste catarro que ensina que às vezes a dor faz doer. Neste divagar perco o meu eu interior, os meus pensamentos mais íntimos. Resta-me a esperança que a constipação passe.

08/02/2011

um dia

Vladimir O que é que vão fazer quando caírem onde não estiver ninguém para vos ajudar? Pozzo Esperamos até nos conseguirmos levantar. E depois continuamos. A andar! Vladimir Antes de se ir embora, diga-lhe para ele cantar! Pozzo Quem? Vladimir O Lucky. Pozzo Cantar? Vladimir Sim. Ou para pensar. Ou para recitar. Pozzo Mas ele é mudo! Vladimir Mudo! Pozzo Mudo. Nem sequer é capaz de gemer. Vladimir Mudo! Desde quando? Pozzo Ainda não acabou de me atormentar com o raio do seu tempo?! É abominável! Quando! Quando! Um dia, não lhe chega, um dia como qualquer outro dia, um dia ele ficou mudo, um dia eu fiquei cego, um dia vamos ficar surdos, um dia nascemos, um dia vamos morrer, o mesmo dia, o mesmo segundo, não lhe chega? Dão à luz montados num túmulo, o dia brilha por um instante, e depois fica outra vez noite. A andar! À espera de Godot – Samuel Beckett, Cotovia, 2001