25/08/2009

coisas simples

Na vida que tive até aqui, já fui vendedor, empregado de mesa, técnico administrativo (no estado), treinador, professor, distribuidor de congelados, barman e gestor, as três últimas em empresas minhas. Nenhuma destas actividades, excluindo treinador, me proporcionou grande prazer embora também não possa dizer que me tenha sido difícil executá-las, apareceram na minha vida com a mesma naturalidade com que foram desaparecendo. Nunca tive grande dificuldade em fazer e reservei sempre um espaço para o prazer, esse lugar, meu, sempre me sustentou, no resto ganhei dinheiro para o sustento, algumas estórias e pouco mais. Cheguei a uma fase em que tudo me diz pouco e me apetece mais a apreensão de um todo que de tudo. Entenda-se este todo como coisas muito simples, não me pretendo nenhuma Laurinda nem Solnado de trazer por casa, nunca falei com deus nem espero que ele fale comigo a não ser que seja para me pagar um copo, também não me agarro a árvores excepto se for para subir ao encontro da fruta fresca. Sei que o mundo não se pode ver a si próprio em mim, era o que faltava, o mundo tem mais que fazer e eu também, de qualquer forma nunca esperei grande coisa do mundo, até porque me parece uma entidade demasiado abstracta para ter uma relação assim tão intensa. Por agora, saber que uma formiga transporta cem vezes o peso do seu próprio corpo parece-me bem mais interessante que Isaltinos, Ferreiras Leite com ou sem programa, Bonifácios e críticas e críticos dos Bonifácios mais os editores e provedores disto tudo. Já o vinho caseiro feito por uma remota prima agricultora que bebi na Tulha Velha na semana passada me mereceu uma grande atenção e isenção de qualquer crítica, nem que positiva, bebi-o e soube muito bem, saber-me-ia melhor se me alongasse aqui a dizer que foi feito assim e assado e cozido, não me parece. Também penso saber que esta conversa não interessa a ninguém, embora nunca tenhamos a certeza, existem sempre mundos para tudo, até para pensarem perceber onde eu quero chegar ou, pior, quem eu sou, quando aqui escrevo o que quer que seja. Para mais num blog errático, sem critério, com textos, muitas vezes, desfasados no tempos e, até, no espaço. O que por aqui vou deixando não chega a ser uma gota de água do que escrevo quanto mais do que sou. Neste último fim-de-semana enquanto bebia outra excelente vinhaça caseira de uma quinta de uns tios meus em Palmela, perguntei a outro tio que escreve e já editou 3 livros de poemas, extraordinário né, se tem escrito ultimamente. Na sabedoria da idade disse-me que não tem querido ter tempo, entre o trabalho, a música (também é músico), a pesca, ajudar os outros tios na quinta e a atenção dedicada sobre a grande paixão da vida dele, a minha tia claro, o tempo que lhe sobrava era pouco. Já viram o esforço que muitos fazem nos ginásios para ficarem fortes e musculados, ponham os olhos nas formigas. É por tudo isto e muito mais que prefiro as ondas onde mergulho, as ditas formigas ou este simples poema que o meu tio fez para a minha tia. No teu mar de ondas sem fim Cai o céu azul e marfim O desejo, a sede de ti No teu mar, eu nuvem bebi. Lindolfo Paiva, in imagem da palavra, edição de autor, Pinhal Novo 2006.

2 comentários:

MJLF disse...

coisas simples? são as mais importantes

np disse...

Bem regressada Maria João.